Diário de um (des) crente







"Aqueles que acreditam que crêem em Deus, mas sem paixão em seu coração, sem angústia mental, sem incertezas, sem dúvidas, e às vezes mesmo sem desespero, crêem apenas na idéia de Deus, mas não no próprio Deus" (Miguel de Unamuno (1864-1937), The Tragic Sense of Life in Man and Nations).

A vida é uma jornada! Uma longa senda a percorrer! Ela raramente passa por esquinas bem definidas ou faz curvas suaves e bem assinaladas...

Às vezes nos encontramos num bosque e, nesta hora teremos de parar, consultar a bússola, tomar uma decisão e seguir em frente!

Faz três meses que estou aqui na China... Penso em desistir e voltar pra minha África. Ah Deus! Eu creio ajuda-me nas minhas incertezas!...

Enquanto balbucio estas palavras que também foram proferidas em meio a lágrimas por um pai, amigo meu desconhecido e registradas em Marcos 9.24, lembro-me também as palavras de Franklin Roosevelt: "O único limite para as nossas realizações de amanhã, são as nossas dúvidas de hoje." 

Estas palavras me animam... Mas hoje sinto me confuso, perplexo! Inúmeros, comos e porquês, povoam minha mente. Ousaria eu questionar a Deus como Jó? Estou fora do meu conforto, longe dos amigos, familiares e colegas. Aqui não tem colegas do seminário, não tem Pastor nem missionários... Aqui sou estranho. E também me é estranho a língua que ouço! A comida que mais resta no prato do que como, estranhos os grandes olhares dos pequenos olhos! 

Apontam-me na rua e os mais ousados pedem tirar foto comigo (um amigo coreano disse-me que é para testemunharem que realmente os macacos evoluiram! - bobagem e brincadeira de mau gosto)

Ontem, uma criança ao me ver, correu e agarrou fortemente na mãe antes de começar a chorar e apontando-me em jeito de quem me acusa. Este episódio fez me lembrar do contraste da minha turma de EBD lá em Luís Cabral ou na Munhava que ao me verem corriam pra me abraçar com um largo sorriso...

Hum! Também lembro-me com saudades das tigelas, aliás saborosos pratos da dona Ana. Ah! Como sabiam! Nunca disse a ela, nunca a elogiei, mas hoje aqui, longe segurando estes paus, pra comer esse prato que nem tenho idéia do que é, reconheço... (não sei para quem escrevo isto, nem sei se alguém vai ler! Se alguém por acaso descobrir e ler favor de dizer a ela!)

Mas... Dando costa a tudo isso, rumei para aqui! Abdicando-me do que aparentemente era coerente, seguro e racional, rumei para fazer aquilo que é mais importante... Será? Bem, hoje não posso ver! mas eu creio em Deus!

Eu sei e concordo com Longfellow quando afirma que, quando o brilho do horizonte desaparece no pô-do-sol. O céu torna-se cheio de estrelas, invisíveis, durante o dia.

"Hambi nkunku inga imbi ri taxa!" (Ainda que o galo não cante, vai amanhecer). Esperança viva em Jesus - 1 Pe 1.3).