Onde está o Deus que nos fez?






Os bens e os males da vida

Uma abordagem sobre o texto de Lc. 16.19:31

(O Rico e Lázaro)

 
Uma vez que é do conhecimento de todos, não posso negar que o meu sentido crítico em relação à Bíblia fala mais alto, porém não deve ser comparado ao ceticismo total, pois se assim fosse, estaria passando do liberalismo teológico para a loucura ateísta. Prefiro me manter no equilíbrio agnóstico. Acredito sim, que a Bíblia revela os misteriosos, partidários, favoráveis, “injustos”, parciais, e apaixonados caminhos de Deus e que incompreensivelmente é através deste livro mitológico, místico, semita, histórico, dogmático, cruel, e muitas vezes débil, que Ele se revela. Mistério!

Tenho também a convicção de que a Bíblia estabelece-se sobre dois pilares: A Revelação de Deus ao Homem e A não Revelação de Deus à Bíblia. Explico! É inegável que Deus em alguns momentos entrou em contato com o Homem, e por mais lendário que possa parecer os relatos da Criação; Queda; Dilúvio; Êxodo; Nascimento virginal; Anjos; Demônios; é bem verdade que quase toda a tradição oral precedeu uma tradição escrita, e por mais exagerada que seja a redação final de um texto, alguma verdade se percebe. E por meio de processos como: Deus e Homem; Homem e Deus; Deus sem Homem; Homem sem Deus, toda a Bíblia foi escrita. Muitas vezes revelada por Deus, muitas vezes inventada pelo Homem. E assim foi imprescindível que, após, a primeira relação entre Deus e Homem e Homem e Deus fossem perpetuados o épico de YHWH e Israel, através de estórias bíblicas, plagiando assim, os grandes feitos dos deuses mitológicos da Mesopotâmia: Sumérios, Acadianos, Amoritas ou antigos babilônicos, Assírios, Caldeus. Sem esquecer as religiões de Mistério do Antigo Egito.

Apesar de tudo este livro é maravilhoso. Constituindo-se sagrado para os que assim o consideram; respeitado para os que o estudam; conflitante para os que o confrontam; detestável para os que o racionalizam. E eu, particularmente, considero a Bíblia a maior relíquia que já existiu e que jamais será superada em importância, pois narra o sobrenatural; fala sobre o incompreensível; expõe o insondável; revela o oculto: Deus em questão! E após esse preâmbulo ingresso na problemática “Os Bens e os Males da Vida”.

Fazia uma leitura das Palavras do Senhor Jesus a respeito do texto que se encontra em Lc. 16.19:31 – O Rico e Lázaro. A passagem em destaque é conhecida de todos desde o leigo até o Ph. D em Teologia, porém uma frase em especial chamou minha atenção: Lc. 16.25 “Mas Abraão respondeu:

Filho, lembra-te de que recebestes os teus bens em tua vida, ao passo que Lázaro somente males, mas agora ele é consolado e tu atormentado”.

E para corroborar o meu posicionamento gostaria de acrescentar outro texto bastante enigmático A cura do cego de nascença que se encontra em João 9:1 “Quando Jesus ia passando, viu um homem, cego de nascença. Os discípulos de Jesus perguntaram: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais, mas isto aconteceu para que se manifestem nele as obras de Deus”.

Poderia acrescentar outros textos, porém estes dois satisfazem.

O mais magnífico de tudo é que independente da Bíblia ser um livro eivado de erros e absurdos incontestavelmente contém a Palavra de Deus. Todavia, não irei abordar a questão da Origem do Mal ou Teodicéia, pois seria como perguntar: Quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha? E para nós Criacionistas a resposta seria a galinha, pois Deus criou primeiro todos os animais, aves, répteis, peixes. E igual resposta seria: Quem é o culpado pelo o Mal no mundo? O Homem.

Mesmo sendo Criacionista não compactuo com os seis dias literais da Criação, nem que o pecado de Adão ou que o Livre Arbítrio do Homem seja a causa principal e única de todo o Mal no Mundo. Acredito que o problema do Mal no Mundo é muito mais complexo e tem apenas Um Único Culpado ou Responsável. Mas, é melhor deixar esse assunto para depois!

Voltando ao texto de Lc. 16.19:31 – O Rico e Lázaro desperta minha atenção as palavras de Abraão dizendo: Lázaro, somente males recebeu nesta vida. E juntando estas com as palavras enigmáticas de Jesus sobre a causa de uma cegueira de nascença em João 9.1 “Nem ele pecou nem seus pais, mas isto aconteceu para que se manifestem nele as obras de Deus” fizeram-me refletir sobre um fato incontestável de que muitas pessoas nascem, vivem, e morrem no sofrimento.

Alguns exemplos de casos de violências, desgraças, injustiças, covardias do nosso cotidiano servirão para delinear o cenário Infernal que representa este mundo tenebroso. Servirá também para mostrar que se o Inferno literalmente existe, algumas pessoas injustamente já estão sendo previamente atormentadas. Tomando sempre como referência os textos apresentados em Lc. 16.19:31 – O Rico e Lázaro e João 9.1 - A cura do cego de nascença.

Tomarei a liberdade de inverter as posições para primeiramente relacionar alguns genocidas que tiveram em sua passagem neste mundo apenas um único propósito o de fazer o Mal: Hitler, Stalin, Pol Pot, Pìnochet, Saddam Hussein, Lênin, Idi Amin Dadá, e outros. Mais ainda. Com qual propósito Deus permite que bombas de guerra e armas sejam fabricadas para exterminar com a humanidade; Com qual propósito Deus permite que governantes assassinos e corruptos conduzam milhares e milhares de seres humanos ao aniquilamento; Com qual propósito Deus permite que Africanos e Palestinos sejam oprimidos durante toda uma vida; Com qual propósito Deus permite que infantes venham ao mundo por um breve momento para suspirar e morrer; Com qual propósito Deus permite que crianças nasçam com terríveis enfermidades; Com qual propósito Deus permite que crianças sejam arrastadas por quilômetros por marginais; Com qual propósito Deus permite que seus servos, saindo ou chegando ao templo para o adorarem sejam mortos, estuprados, agredidos, assaltados; Com que propósito Deus permite que crianças sejam violentadas, estupradas, abandonadas, queimadas, torturadas; Com qual propósito Deus permite que o mal seja soberano no mundo.

Diante dos textos de Lc. 16.19:31 – O Rico e Lázaro e João 9.1 - A cura do cego de nascença tive a certeza de que algumas pessoas nascem para sofrer independente do caminho que possam escolher e da mesma sorte algumas pessoas nascem para felicidade independente do caminho que possam escolher, pois estão fadados a um destino traçado. Os dois textos apresentados são bem explícitos e se fortalecem quando comparados com Eclesiastes e Jó.

Eclesiastes:
“Ainda há outra vaidade sobre a terra: há justos a quem acontece segundo as obras dos ímpios, e há ímpios a quem acontece segundo as obras dos justos. Digo que também isto é vaidade”.

“Vi as lágrimas dos oprimidos, e eles não têm consolador; o poder estava do lado dos seus opressores, mas eles não tinham nenhum consolador. Pelo que julguei mais felizes os que já morreram, dos que os que ainda vivem”.

“Vi algo mais debaixo do sol: Não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes a vitória, nem tampouco dos sábios o pão, nem ainda dos prudentes a riqueza, nem dos entendidos o favor, mas que o tempo e a sorte ocorrem a todos”.

Jó:
“Se pequei, que mal te fiz, ó espreitador dos homens? Por que me fizeste alvo dos teus dardos, para que me a mim mesmo me seja pesado? Por que não me perdoas as ofensas, e não tiras o meu pecado? Pois logo me deitarei no pó; tu me buscarás, mas já não serei.”

“Quando o açoite mata de repente, ele se ri do desespero dos inocentes. Tudo é o mesmo, portanto digo: Ele consome ao reto e ao ímpio.”

“Quando a terra está entregue na mão do ímpio, ele cobre o rosto dos juízes. Se não é ele, quem é, logo?”

“Um morre em pleno vigor, completamente despreocupado e tranqüilo, os seus baldes estão cheios de leite, e a medula dos seus ossos cheia de tutano. Outro morre, ao contrário, na amargura do seu coração, não havendo provado do bem. Juntamente jazem no pó, e os vermes os cobrem.”

“Não perguntastes aos que viajam, e não considerastes os seus relatos, que os maus são poupados no dia da calamidade, e socorridos no dia do furor? Quem denunciará diante dele a sua conduta, e quem lhe dará o pago do que faz?”

Sei que muitos dirão que nenhum destes versículos prova nada, porém, se para muitos nada do que foi dito é prova gritante das injustiças desse mundo, perguntem aos que sofrem, pergunte aos que oram sem cessar e recebe o silêncio como resposta, perguntem a mãe ou pai que teve a vida de seu bebê ceifado por uma doença fatal.

Eu cortei na própria carne quando meu filhinho de dois meses foi consumido por uma doença fatal, e de nada adiantou orar, interceder, repreender, determinar, suplicar, humilhar-me, o que recebi como lembrança foi a imagem de meu filhinho chorando, e minhas últimas palavras para ele foram “fique calmo filho, papai está aqui do seu lado, tudo vai ficar bem". Ah, meus irmãos foi triste ouvir da mãe de meu filho a seguinte frase “É assim que o senhor faz comigo, deixa o meu filho morrer e me entrega um pedaço de carne”. Foram momentos difíceis irmãos, foi um duro golpe para um novo convertido que tinha acabado de aprender que Deus é o Deus dos impossíveis; Que Deus é um Deus que cura as enfermidades; Que Deus é um Deus que sara as feridas. E vendo meu filho morto me ajoelhei ao lado do seu corpo e clamei “Senhor, sei que Tu podes tornar a dar a vida ao meu filhinho, mas ainda que tu não o faças, Tu não serás nem mais nem menos para mim, e a minha maior vergonha é não te servir melhor”. E horas depois, mães, pais, avós, e parentes de crianças que estavam na UTI vieram me perguntar “Como é que o senhor pode agüentar tudo isso calado?”, e respondi “É ele quem é Deus, não sou eu, Ele cura se quiser, Ele salva se quiser”. E me pediram para orar dentro da UTI dos recém-nascidos e por aqueles dias houve curas e mortes.

E como se não bastasse à noite meu filho Pedro sem motivo aparente começou a vomitar, e imediatamente o pavor tomou conta da minha alma e pensei: Meu Deus, já não basta à perda que tive. Graças a Deus não passou de um susto, talvez o estado emocional dele tenha se abalado com a perda do irmão. E essa foi a maior lição que tive na vida: Deus faz o que quer, a hora que quer, e certo ou errado é do jeito que ele quer.

Este é o mundo em que vivemos onde muitas mães não podem gerar filhos e dariam tudo para criarem seus filhos com amor, ao contrário de outras mulheres que geram filhos com extrema facilidade e os matam, os abandonam, os maltratam. Este é o mundo em que vivemos onde muitas pessoas não têm o pão de cada dia, ao contrário de outros que se deleitam em banquetes. Este é o mundo em que vivemos onde crianças nascem deformadas, ao contrário de mulheres e homens que usam seus corpos perfeitos para crimes e prostituição. Este é o mundo em que vivemos onde o trabalhador é assaltado e morto por um tiro, ao contrário do marginal que tem seu corpo fechado e escapa com vida e até mesmo ileso. Este é o mundo em que vivemos onde os humildes são escravizados, ao contrário dos corruptos que prosperam dia após dia.

Sempre me recordo da passagem que se encontra em Números 11:12 onde Moisés chama a atenção de Deus sobre de quem é o povo e a responsabilidade de conduzi-lo “Concebi eu porventura todo este povo? Gerei-o eu para que me dissesses: Leva-o em teus braços, como a ama leva a criança no colo, à terra que juraste a seus pais?”

E após essa contenda Moisés selou o seu destino, pois, Deus o matou e o impediu de entrar na Terra Prometida, não por ter ferido a rocha em Meribá, mas por que ousou responsabilizá-lo pela sua Criação. E desde os tempos remotos até os dias atuais permanece a mesma indagação: Onde está o Deus que nos fez? Que responda Ele sobre Os bens e os males da vida.