A justiça e a assistência feitas no anonimato







"Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto ao vosso Pai Celeste. Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará." (Evangelho de Mateus 6:1-4; ARA)


Refletindo sobre este ensino de Jesus, tenho percebido que o seu alcance vai muito mais além da recomendação para não buscarmos uma glória pessoal humana. O Mestre veio mostrar à humanidade que o verdadeiro sentido da vida está na prática desinteressada do amor. O ser que alcança um certo nível de consciência e de compreensão existencial já não anseia mais por viver só para si. O egoísmo não o domina mais e ele pratica voluntariamente a assistência sem nenhuma necessidade de reconhecimento.

O desejo por ser reconhecido é algo comum entre as pessoas e eu diria que se trate até de um sentimento natural e bem espontâneo. Como partes integrantes de uma sociedade, aguardamos que os nossos pares nos tratem com a devida estima e dignidade, correspondendo à dedicação e ao afeto que temos para com o grupo.

Em ambientes formais, o reconhecimento ocorre como uma bajulação interesseira que é muito comum, por exemplo, num clube ou numa Câmara de Vereadores quando alguns cidadãos são honrados publicamente na entrega de medalhas. E nem sempre a pessoa homenageada prestou bons serviços à coletividade como parece sendo que o ser nome pode ser escolhido por mera conveniência política. Aliás, não raramente os edis resolvem indicar uma outra autoridade, um deputado do partido, um empresário rico ou um cabo eleitoral importante que trará algum retorno nas urnas futuramente.

Mas independentemente dessas falsidades extremas, muitas das vezes relativas à sobrevivência política (para que o candidato a cargos públicos consiga visibilidade), a necessidade de reconhecimento persiste e precisamos aprender a lidar com ela. É nessas horas que travamos grandes batalhas com o ego.

Praticar a justiça no anonimato implica em nos identificarem até como seres injustos pelo simples fato da coletividade desconhecer a nossa conduta e ainda fazer um mal juízo habitual. Como você não manda "tocar trombeta" por ter cumprido o dever, ou praticado uma boa ação, os outros ficam achando que não foi feito nada e fazem acusações injustamente.

Como é difícil entendermos que não é preciso "provar nada pra ninguém", como diz a letra da música Quase sem querer do Legião Urbana. Pois penso que o maior desafio do anonimato esteja justamente aí. Você já venceu o sentimento de auto-glorificação e nem está buscando uma auto-promoção social, mas não se conforma em ser tratado como um zero à esquerda. Então, quanto mais faz pelas pessoas, mais aumenta a frustração e a reatividade a ponto do que parecia ser amor evidenciar-se como ódio.

Não é nada fácil seguir os passos de Jesus. O bendito Mestre nos mostrou um comportamento elevadíssimo no Sermão da Montanha que não pode ser facilmente alcançado. Pois se trata de um nível de maturidade ao qual talvez chegaremos quando subirmos mais na escala de crescimento espiritual. Para o momento, já considero satisfatório que a trombeta seja tocada num tom mais baixo.