Habilidade na construção do Reino e desapego das riquezas






"Disse Jesus também aos discípulos: Havia um homem rico que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como quem estava a defraudar os seus bens. Então, mandando-o chamar, lhe disse: Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, porque já não podes mais continuar nela. Disse o administrador consigo mesmo: Que farei, pois o meu senhor me tirar a administração? Trabalhar na terra não posso; também de mendigar tenho vergonha. Eu sei o que farei, para que, quando for demitido da administração, me recebam em suas casas. Tendo chamado cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu patrão? Respondeu ele: Cem cados de azeite. Então, disse: Toma a tua conta, assenta-te depressa e escreve cinquenta. Depois, perguntou a outro: Tu, quanto deves? Respondeu ele: Cem coros de trigo. Disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta. E elogiou o senhor o administrador infiel porque se houvera atiladamente, porque os filhos do mundo são mais hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz. E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos." (Evangelho de Lucas, capítulo 16, versículos de 1 a 9; versão ARA)

A parábola do "administrador infiel" é uma das partes dos evangelhos que causa certa estranheza e dificuldade interpretativa por não se encaixar na perspectiva religiosa do leitor de hoje. Há quem chegue a duvidar da autenticidade desse ensino como se não fosse de Jesus. Outros, porém, preferem simplesmente evitar esta passagem nas suas pregações e reflexões, fazendo, às vezes, uma abordagem parcial até o verso 8. Isso porque se trata de uma lição positiva tirada de uma ação fraudulenta que é a conduta do administrador da propriedade.

Penso que devemos sempre indagar qual poderia ter sido o entendimento dos cristãos primitivos acerca da metáfora pois, afinal de contas, o autor sagrado escreveu-a há uns 1900 anos atrás e o texto encontra-se lá nas nossas bíblias. Logo, temos mais é que nos debruçar sobre a mensagem, esforçando-nos para compreendê-la, o que é melhor do que simplesmente ignorarmos, fazendo de conta que ela não se encontra ali.

Ora, o administrador dessa história seria um homem que, no lugar do dono, controlava todos os negócios da fazenda. O patrão, talvez porque tivesse outras propriedades para cuidar, não poderia gerir pessoalmente cada uma delas. Por isso ele precisava contar com o trabalho de funcionários da sua maior confiança, para agirem igualmente a ele, sendo certo que não teria como supervisionar detalhadamente todas as atividades. Ou seja, não haveria como controlá-lo com exatidão afim de saber se o sujeito estaria desviando recursos ou agindo de maneira ociosa. Principalmente se fossem transações ilegais tipo a cobrança de juros nas vendas a prazo, o que, entre os judeus, não poderia existir.

Alguns comentaristas bíblicos supõem que, junto com o comércio financiado dos produtos agrícolas, o vendedor lançava na nota de débito uma quantidade a mais do que realmente teria sido adquirido, conforme o prazo avençado entre as partes. Seria uma maneira inteligente de se tentar burlar a legislação de Moisés. Pelos menos aos olhos humanos e diante dos magistrados, caso a cobrança viesse algum dia a ser judicializada por falta de pagamento. Assim sendo, é possível que, se, por exemplo, o primeiro comprador levou somente uns 50 barris de óleo (cerca de 2.000 litros), mas não pôde pagar à vista, constasse o dobro na sua fatura. Já o segundo devedor, provavelmente, deve ter contraído uma obrigação num prazo menor para o adimplemento.

Desse modo, o mordomo infiel torna-se ainda mais astuto. Uma verdadeira cobra criada! Ao aconselhar seus clientes a falsificarem novas notas de débito e reduzirem a soma do que deviam formalmente ao proprietário, ele deu um golpe de mestre. Pois, se o dono da gleba fizesse uma auditoria contábil e procurasse saber qual teria sido o quantitativo da produção e o total do que fora comercializado, não conseguiria provar jamais a fraude. Não teria como reivindicar a perda dos juros porque, como já dito, o ágio era uma prática ilegal entre judeus.

Por meio desse expediente, esperava o administrador cair nas graças dos clientes de seu patrão quando fosse demitido. Provavelmente seria recompensado por tirar a corda do pescoço deles e não passaria necessidades. Talvez até seria visto como um bom moço diante da comunidade porque, conforme os costumes culturais da época, prestou um favor honesto. Só não seria mais digno de confiança obviamente.

Contudo, em termos espirituais, jamais o foco da narrativa poderá estar na desonestidade do mordomo, mas, sim, na sua prudência. Notemos que o elogio do senhor da propriedade foi em relação à habilidade de seu subalterno, o qual agiu com maior sabedoria do que "os filhos da luz" (expressão que só ocorre três vezes no Novo Testamento). E aí devemos reconhecer que nem sempre os cristãos mostram-se satisfatoriamente talentosos na condução dos "negócios" do Reino de Deus.

A causa do Reino é algo eterno e de incontestável superioridade se comparado às coisas mundanas. Contudo, até que se torne uma realidade visível, há um campo minado a ser atravessado. Cabe aos discípulos de Jesus, os destinatários dessa parábola, agirem com esperteza e prudência, mas sem sem tornarem maliciosos, conservando a simplicidade (conferir com Mateus 10:16 e Tomé 39). Só que o contexto do 3º Evangelho tem a ver com as faces da riqueza e aí não podemos deixar de enfrentar a incômoda recomendação do versículo nono já transcrito acima sobre fazer amigos com as riquezas e ser recebido nos "tabernáculos eternos".

Será que o dinheiro pode comprar um lugar no céu para alguém?! Ou a referência a uma morada eterna não poderia ter outro significado além do escatológico?

Pois bem. Se retornarmos algumas páginas em nossas bíblias, iremos novamente meditar na metáfora do fazendeiro rico (Lc 12:16-20), quando nosso Senhor havia reprovado a avareza. Ali o Mestre ensinou que "a vida do homem não consiste na abundância dos bens que ele possui" (12:14), de maneira que é na realidade espiritual, com seus valores permanentes, onde devemos nos firmar. Nunca nos bens materiais que só prestam para satisfazer as necessidades do homem aqui na Terra. Há algo muito maior e indestrutível para ser considerado na nossa existência multidimensional, pelo que não podemos usar das coisas perecíveis deste mundo com um propósito egoísta. Temos que "fazer amigos" e empregarmos os recursos disponíveis nessa grandiosa atividade.
"Vendei os vossos bens e dai esmolas; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração." (Lc 12:33-34; conferir artigo Vença a ansiedade!)

Trata-se de fazer amigos e não comprá-los! Jesus não desejou que a obra assistencial da Igreja fosse usada com uma finalidade proselitista, como se a pessoa ajudada precisasse virar seguidora do segmento religioso dos apóstolos para ter direito a continuar pegando a sua cesta de alimentos. O fazer amigos deveria levar os discípulos a horizontalizarem suas relações na formação de uma verdadeira comunidade de irmãos a ponto de todos constituírem uma só bolsa, a exemplo do que se lê em Atos dos Apóstolos 2:44-45, que pode ter sido escrito ou não pelo mesmo autor do 3º Evangelho. A proposta do Salvador era revolucionária e, por isso, a lição não se esgota na parábola. O Mestre prossegue explicando:
"Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira riqueza? Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso? Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas." (Lc 16:10-13)

A fidelidade "no pouco", na ótica do Reino, seria a administração dos bens materiais para suprimento das necessidades dos homens, enquanto que ao termo "muitos" podemos entender como sendo a dimensão espiritual - a "verdadeira riqueza". Aquilo que realmente os pertence!

Com isso aprendemos que a prática da caridade é uma excelente oportunidade de aprendizado sobre coisas maiores tipo exercitar o amor, aceitarmos incondicionalmente o outro e extrairmos bondade do nosso coração. Jamais será um fim nela mesma como se bastasse resolver o problema financeiro-alimentar-habitacional do outro pois, nestes casos, melhor seria a Igreja contratar assistentes sociais, deixando que o cuidado com o próximo ocorresse por meio de assistentes sociais sem nos envolvermos afetiva e espiritualmente.

A fidelidade aqui exigida não se limita a uma prova contábil da probidade gerencial dos bens terrenos. Isto é, a questão não versa sobre apresentarmos as contas dos investimentos da Igreja na área social. Seria, sim, o agir com sinceridade e boa consciência para com o Pai, cuidando amorosamente dos nossos irmãos sem abusarmos da boa-fé de quem quer que seja. Para tanto podemos e devemos até atuar no anonimato.

Concluímos que essa é uma elevada lição de discipulado dada pelo professor Jesus de Nazaré, o que exige uma tomada radical de decisão por quem pretende seguir a Cristo. Por isso não se pode devotar a Deus e às riquezas ao mesmo tempo (verso 13). A caridade feita aos pobres, bem como as demais ações sociais, pode parecer algo de pequena importância diante de outros assuntos espirituais, mas é um importante instrumento para o homem desapegar-se das coisas materiais e se iniciar no serviço divino. Através dessas boas obras será testada a nossa fé e, por sua vez, os atos externos que decidimos praticar interagem com todo o nosso ser.