Por Que Bultmann é Perigoso Para a Igreja?!






Comecei a ter interesse por blogs, em meados de 2006, atuando mais na blogosfera cristã. No início de 2007 cheguei a trocar alguns e-mails com Caio Fábio e, sem mais delongas (logo de cara) abordei o tema ácido da desmitologização. Ele até que aceitou falar sobre a desmistificação de Saulo de Tarso. Um dos textos, que enviei por e-mail para sua apreciação, tinha por título ― “Salvando Jesus de Jesus”. Bem no final de minha longa argumentação, sugeria que precisávamos desmitificar toda essa aura sobrenatural criada em torno da figura de Jesus. Aí foi quando ele me deu essa dura resposta:


“De fato creio que você pensa que ‘creio porque creio’, mas não é assim comigo. E desmistifico tudo, menos o que não é pra ser. Tenho tentado salvar Paulo do apóstolo Paulo, mas você quer salvar Jesus de Jesus. Você disse: ‘precisamos’, mas eu estou fora. O que sinto, com todo respeito, é que você quer fazer Bultmann ser seu mestre de leitura; e, a meu ver, ainda não me entendeu”.
Com carinho,

Caio

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From: “Levi bronzeado” <glauberbronzeado@uol.com.br>
Sent: Saturday, March 10, 2007 7:37 AM
To: “contato” <contato@caiofabio.com>
Subject: Uma Releitura dos Evangelhos


Quero aqui deixar claro que as obras de Bultmann, tinham exercido sobre mim uma atração fora do comum, especialmente esses dois livros: “Jesus Cristo e Mitologia” e “Crer e Compreender”. Talvez, a interpretação filosófica existencial e porque não dizer psicanalítica do mito cristão, levada a frente por esse autor, tenha sido a razão principal de minhas aventuras (e desventuras) por esse mundo complicado do saber.

Para Bultmann, “não há a intervenção de Deus, do Diabo ou dos demônios no curso da história” (Jesus Cristo e Mitologia – pág. 14 – Editora Fonte-editorial - Edição 2000). Ora, esses personagens são a essência ou base do cristianismo. Ambicionar retirá-los ou desmistificá-los seria o mesmo que destruir o edifício denominado igreja.

Olhando bem, desmitologizar Jesus, seria um pecado mortal para o Caio.  Lá no fundo, eu sabia que ele jamais iria concordar com o conceito de que a falta ou o vazio existencial da filosofia Bultmanniana, era o receptáculo responsável pelo aparecimento dos desejos divinizados no imaginário coletivo, como tão bem faz ver hoje, a psicanálise ―, instância que define os deuses, demônios e anjos como figuras míticas ou simbólicas, representativas dos afetos primitivos do homem (Jung).  Não sei, mas tenho uma ligeira impressão de que, diante de minhas abordagens, o meu interlocutor já pressentia onde eu queria chegar.  No meu íntimo, o desejo de cavar mais fundo, de ir mais longe, batia de frente contra um guardião que, entrincheirado, estava a preservar zelosamente a sua fortaleza.

Por essa época, era um leitor fervoroso de obras de filósofos existencialistas e daqueles que se aventuravam nos tenebrosos meandros do inconsciente; Via os ativistas religiosos como enfermos, e seus templos como castelos de alienação mental. Cada vez mais, percebia que a Psicologia profunda não era inimiga da Teologia e, ao invés de atrapalhar, antes, ajudava sobremodo o saber teológico a compreender e tratar as estruturas demoníacas como arquétipos determinantes de nossa consciência e não como seres etéreos vindo de fora para nos influenciar.

Ao dizer que “salvava Paulo de Paulo”, mas não se arvoraria salvar “Jesus de Jesus”, o Reverendo que muito admiro, a meu ver, revelou o quanto o homem é paradoxal. Posso está enganado, mas talvez o Caio estivesse a me dizer: ‘olha meu caro, meter a colher em Paulo eu meto, mas em Jesus, não; Jesus não era um homem como Paulo! Jesus era Filho, não de um deus metafísico, mas de um grande ser celeste, corporalmente preexistente que desceu ao mundo em forma humana para redimir a humanidade ― o que seria, enfim, salvar o homem pela negação da condição humana em si mesmo.

“Tudo é linguagem”― já dizia a psicanalista de formação lacaniana, Françoise Dolto. Mesmo após alguma insistência de minha parte, Caio, nunca mais quis reatar o diálogo mantido durante poucos dias. A sua mudez repentina era um tipo de linguagem à procura de significação. Eu a interpretei como uma espécie de “chega pra lá” no carrapato que teimava em querer sugá-lo, ou testá-lo, dizendo ser seu discípulo. Como ser discípulo do Caio, diante de uma especulação herética como a que lhe fiz, ao argumentar que os evangelhos, aqui ou acolá, tinham deixado rasgos de um Jesus histórico? No caso, eu me referia ao momento em que Jesus se surpreendeu ao subestimar a fé de um estrangeiro: “Nunca vi tamanha fé? Nem em Jerusalém?”

Talvez a sua recusa em debater assunto tão melindroso, tenha sido em si, uma espécie de linguagem sem palavras, uma maneira de, inconscientemente, proteger a fé, que se fortalece à medida que se deixa tudo envolto em um suspenso mistério. E por falar em mistério, em um de seus e-mails, ele faz referência a esse enigma de maneira enfática:


“Se você é meu discípulo, não me compreendeu
Em mim não há espaço para “São Paulo”, mas creia na revelação de Deus através de Paulo, mediante sua escrachada humanidade. E Jesus? O que você quer desmitificar Nele? Não entendeu o mistério que se entende apenas para não se compreender?”

Bjs,

Caio

                  
Hoje, relendo a nossa correspondência empreendida há mais de seis anos, reconheço que cometi excessos e fui mesmo atrevido, como mostra esse final de um dos meus entreveros, pela internet:


“Caro Caio,

 “...enquanto estamos pregando um Jesus metafísico dentro dos templos e de nossas casas, não acordamos para uma infinidade de Jesuses que estão na marginalidade, que estão lá na mesa de um bar ou na calçada de um cabaré; lá nos lugares mais inimagináveis, menos na igreja”.


A última mensagem que Caio me enviou, pondo um ponto final num debate que mal começara, tinha a marca da linguagem mística do velho e carismático pregador das multidões pentecostais da década de 1980:


“Amigo querido,

“...Eu não prego o Jesus metafísico, eu prego Jesus, Jesus o Cristo, o Cordeiro, o eterno Cordeiro e o Senhor de todos. Não conheço em mim tal esquizofrenia! E é só por mim que falo.
Um grande abraço,

Caio

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From “Levi Bronzeado” <glauberbronzeado@uol.com.br>
To: “contato” < contato@caiofabio.com>
Sent: Saturday, March 10, 2007 5:11 PM
Subject: Salvando JESUS de “Jesus”


P.S.: 

Entendo bem a ojeriza de Caio a Bultmann. O teólogo da desmitologização revela uma verdade muito incômoda, ao considerar que os evangelhos, como construções tardias, tinham em foco o período posterior a morte de Jesus, não estando dessa forma, nem um pouco interessados no homem Jesus.