Amor Platônico de Platão




Por José Augusto Lemos
 

  O conceito/significado de Amor platônico tem origem na grécia onde o filósofo Platão acreditava na existência de dois mundos: o das idéias, onde tudo seria perfeito e eterno, e o real, que por ser finito e imperfeito não passa de mera cópia mal-acabada do mundo ideal. Daí o termo 'platônico', com significado de “ideal desligado de interesses ou gozos materiais”, e por redundância, ‘ amor platônico’, definido como “O amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve, revestindo-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Parece que o amor platônico distancia-se da realidade e, como foge do real, mistura-se com o mundo do sonho e da fantasia”. 

A influência grega nessa espiritualização do conceito de amor não foi pequena. A prova principal está na expressão “amor platônico”, que entrou para o vocabulário popular do mundo todo com seu sentido distorcido. Vale a pena voltar à fonte – O Banquete, escrito por Platão no século IV a.C. – simplesmente porque ela é um dos textos-chaves da cultura clássica ocidental e um dos mais saborosos tratados filosóficos.

Na estrutura narrativa, O Banquete lembra o Cântico dos Cânticos: a obra é montada em diálogos, pode ser lida como uma peça de teatro. O cenário e os personagens é que são radicalmente diferentes, a começar pelo ambiente – uma aristocrática mansão ateniense onde se realiza um symposium (título original do livro), tradição grega que, de uma forma ou de outra, nunca morreu: debates intelectuais em torno de um jantar regado a vinho. Entre os convivas, Platão coloca duas das figuras mais célebres da Grécia antiga: seu mestre Sócrates e o dramaturgo Aristófanes, o rei da comédia helênica. O tema da noitada é justamente o amor – ou melhor, eros, o desejo sexual, que a mitologia grega representava como uma divindade matreira, o tempo todo flechando o coração da moçada (não precisa nem lembrar que o coração flechado permanece até hoje o símbolo dos apaixonados).

A idéia das “almas gêmeas” e da “cara metade” aparece talvez pela primeira vez na cultura ocidental nesse texto, quando Aristófanes recorre justamente à mitologia para explicar o impulso amoroso. Segundo ele, o ser humano era inicialmente um andrógino de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços. Temendo que seu poder ameaçasse os deuses, Zeus dividira essa estranha criatura em duas – e desde então carregamos a sensação de estarmos sempre incompletos, desejando a união com outro. Sócrates, que descartava os mitos como mera superstição, obviamente rejeita a versão de Aristófanes e a discussão progride na direção do conceito original de amor platônico. O helenista José Cavalcanti de Souza, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e autor daquela que é considerada a melhor tradução brasileira de O Banquete, resume a obra assim: “Eros é uma divindade, uma força divina que intervém na vida humana, mas que precisa ser orientada pela inteligência. O desejo se manifesta primeiro como amor por um corpo bonito, mas evolui para o amor por belas atividades e ocupações. O que é digno de ser amado? Essa é a questão que Platão coloca, como responsabilidade do ser humano, para dar ascensão intelectual e espiritual à força de Eros".

A idéia que temos hoje de amor platônico é a da afeição sem contato físico. Mas o conceito original não é bem esse. Se você perguntasse a Platão, ele diria que o amor deve ser a afeição elevada a um plano ideal que transcende o contato físico, mas não o exclui. “A distinção entre corpo e alma que herdamos não existia para os gregos. Eles acreditavam numa continuidade, não numa ruptura”, afirma José Cavalcanti. “Mas a ascensão do amor era uma questão de inteligência e, portanto, para eles, essencialmente masculina. Os gregos tinham um grande preconceito contra a mulher.”

Por isso mesmo, muitos lêem em O Banquete de Platão uma apologia do homossexualismo, não só comum entre os gregos da época como considerado parte da relação mestre-discípulo entre os rapazes e os mais velhos. Os anfitriões do jantar narrado pelo filósofo formam um casal masculino e a festa chega a ser interrompida, a certa altura, pelo jovem Alcebíades, que entra bêbado, declarando sua paixão por Sócrates com grande estardalhaço. No fim, porém,é a parceria intelectual que é considerada a união perfeita – entre homens, é claro. Nesse ponto, o contraste com o Cântico dos Cânticos é total e absoluto, já que um dos traços mais marcantes do poema bíblico é apresentar homem e mulher manifestando seu desejo sexual em pé de igualdade. O fato de a sociedade judaica representada na Bíblia ter sido também fortemente patriarcal torna isso mais surpreendente ainda.

O amor platônico, segundo especialistas da psicoterapia, ocorre com maior freqüência entre os adolescentes e adultos jovens, principalmente nos indivíduos mais tímidos, introvertidos, que sentem maior dificuldade de aproximar-se do objeto de amor, seja por insegurança, imaturidade ou inibição do ponto de vista emocional. O medo de não atender aos anseios do amado, o sentimento de desvalorização, de incapacidade e desintegração podem contribuir para a não aproximação, para o amor à distância, impedindo que o indivíduo vivencie não só a experiência de amar, mas sentir-se amado, não só cuidar e se preocupar, mas sentir-se acolhido, contido e amparado. Essa troca de experiências emocionais é que permite o sentimento de que amar e viver vale a pena, ajudando-nos a suportar as dificuldades e conflitos do cotidiano.

Para outros, o amor platônico não tem mais espaço na vida moderna porque faltam agora, na relação entre homem e mulher, os sonhos, as identificações e os projetos em comum. Ao contrário de antigamente, quando a admiração de alguém por alguém dava início a esse sentimento e só depois se transformava em atração física, nos dias de hoje essa primeira etapa do relacionamento foi simplesmente colocada de lado. Costuma-se dizer, também, que às vezes confundimos amor ideal com amor platônico. O amor ideal é aquele que idealizamos, ou seja, é o amor romântico que pode evoluir para o amor platônico.





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