Utilitarismo do sagrado






Vivemos em uma sociedade cheia de apelos e seduções, uma sociedade em que as pessoas são induzidas por meio de um sistema agressivo de marketing a um intenso desejo de consumir produtos e serviços, consumo esse que gera mais insatisfação do que qualquer outro resultado. Estes apelos são perceptíveis, também, nos ambientes eclesiásticos, onde o sagrado é negociável e manipulável, entretanto esquecem que o sagrado em si mesmo já seduz o ser humano, pois ele é mistério e se relaciona na esfera do desconhecido.


E se não bastasse a atração própria do sagrado, existem pessoas que legitimam suas ações em nome de Deus para atraírem outras a terem contato com o sagrado. Não incluo aqui apenas líderes, pastores, ministros, mas, descrevo também cristãos comuns, sem nomes, sem cargos, membros de igrejas que consciente ou inconscientemente, pregam o utilitarismo do sagrado. Quantas vezes não falamos para amigos, colegas ou conhecidos que estão passando por dificuldades: "Vai lá na igreja que Deus pode te ajudar", ou então, "entre na campanha da vitória na minha igreja e seu problema será resolvido", enfim, a verdade é que criamos no imaginário do outro uma forma de comercialização com Deus, uma verdadeira relação de barganhas com Deus.


Assim, o que parece é que temos um grupo de pessoas nas igrejas, motivado não pela busca por Deus, mas pela satisfação de necessidades pessoais. Não podemos esquecer que a experiência com o sagrado requer de nós seriedade, temor a Deus, que podemos traduzir como "levar Deus a sério". Mas, infelizmente, o que percebemos é a inversão desses valores no momento em que as pessoas não estão servindo a Deus, mas estão servindo-se de Deus. O sagrado na pós-modernidade tem se tornado mais um objeto de consumo entre tantos outros, e a responsabilidade para mudar essa realidade está em nós.


Fonte: Ultimato