Deus pode praticar o coito anal?






“O homem é um animal de rebanho”, disse Nietzsche. “De rebanhos”, ficaria melhor. Somos alguma coisa viva por conta de várias comunidades, e uma delas é a que se estabelece primordialmente na caverna, formada pelo bebê e sua mãe, e não raro envolvendo um ou dois protetores. Essa família básica se estabeleceu muito cedo no desenvolvimento daquilo que talvez devêssemos chamar antes de hominídeo que de homem primitivo. Aí emergiram duas crenças necessárias à sobrevivência desse pequeno grupo e, depois, dos clãs e comunidades maiores. Duas crenças que se formaram em tempos tão remotos que talvez estejam incrustradas nos nossos mais primitivos modos psicológicos de reagir ao mundo.

Essas duas crenças dizem tudo de nós. A primeira é a crença em um deus guardião, em geral a sombra de nosso protetor primitivo (pai biológico ou adotivo et.) que se forma após o desaparecimento deste. A segunda é a crença no pecado da homossexualidade, uma vez que a pior coisa que poderia nos acontecer, a nós homens, é sermos mulheres e, então, após a morte, não servirmos como deus guardião dos que ficaram, e isso exatamente por causa de possuirmos um comportamento afeminado, isto é, não bravio, valente e sábio. Essas duas crenças que, enfim, deram ao homem primitivo ou mesmo ao hominídeo um temor atroz, explicam muito bem por que vários entre nós não conseguem ver como preconceito a disposição contra gays, e nem conseguem notar como pueril a nossa necessidade de deuses que são protetores, tanto quanto foram nossos pais ou, melhor dizendo, nosso pai ou coisa semelhante.

As histórias dos daimons ou gênios ou anjos da guarda enquanto entidades que nada mais eram que os anciãos mortos de um grupo ou família ou tribo são narrativas antiquíssimas. Estão tão longe no tempo quanto as histórias que acreditamos que explicam o surgimento do homem. Também é o caso da história da homossexualidade. A crença em demiurgos e a rejeição à homossexualidade estão juntas faz tempo. Elas se cruzaram nas cavernas e deram duas crenças que horripilaram os homens. Pior que não crer na possibilidade de não poder voltar para ajudar os vivos desprotegidos ou de não poder contar com tal proteção dos mais velhos que, enfim, desaparecem com a morte, é imaginar que eles eram afeminados e que, uma vez mortos, sem corpos, serão no mundo dos espíritos tudo que havia de mais fraco aqui nesse mundo, aquilo que emerge do grito de pavor do elemento débil do grupo: a mulher ou, melhor dizendo, o tipo feminino. Um gênio ou um daimon ou um anjo da guarda com disposições femininas seria algo muito ruim. Um gênio ou um daimon ou um anjo da guarda que fosse completamente gay, mil vezes pior – a desgraça total. Desaparecida a figura sábia, velha, forte, resistente, que poderia então, do lado de lá da vida, pairar no teto da caverna como energia protetora, olhar-se-ia para tal teto e lá se veria não o seu fantasma, mas um espectro afeminado, medroso, pronto para se render e se oferecer de quatro às ameaças predatórias, sempre à espreita da família ou tribo, lá na porta da caverna. Quer destino pior que esse? Quer destino pior que ter um deus sem a imponência do macho?

Os deuses tinham de ser machos. (1) Para tal, seria muito bom que todos os machos da tribo fossem machos mesmo, pois, se se tornassem guardiões maiores de sua família ou da tribo toda, quando ficassem velhos e morressem, não iriam ficar ali como demiurgos guardiões prontos para bater em retirada diante de uma ameaça ou, pior ainda, ficar e se submeter ao inimigo. Ser escravizado por não ter guardião é uma coisa, mas ser dominado porque o guardião, uma vez demiurgo, é uma figura que se submete ao domínio expresso no coito anal e, por causa disso mesmo, deixar todas as mulheres vivas disponíveis para tal e todos os homens boquiabertos diante de tamanha traição, é o que mais amedrontou o homem primitivo. Rezar e não encontrar Deus não é o pior para o homem! O pior é rezar e ficar sabendo que Deus não pode ajudar porque foi ao cabelereiro ou está fazendo unhas e, quando voltar, talvez se deite com a figura que ameaça a tribo.

Nunca devemos esquecer que Geni, da música de Chico Buarque, salvou sua cidade toda se deitando com o inimigo, mas que logo depois voltou a receber bosta na cara, pois continuava suja, vadia, enfim, afeminada. Uma vez morta, Geni jamais seria um daimon ainda que tivesse sido a única heroína real daquela cidade. Não podemos deixar essa história de lado, ela diz muito de nós todos.

Quando oramos, hoje, o que queremos não é que Jesus venha nos salvar. Rezamos para Jesus ou qualquer outra figura de nossas religiões até o dia em que alguma pessoa sábia de nossa família, que cuidava de nós, morre. A partir daí nos pegamos rezando antes para ela que para Deus ou Jesus. Claro, é mais fácil confiar nela enquanto espírito que viveu conosco e nos protegia do que com um espírito que não foi de nossa familiaridade na vida. Não é crença propriamente dita, é um sentimento, uma sensação de aconchego. A oração poderosa é a que nos da energia por conta da sensação de aconchego que nos provoca.

Mas, quando rezamos, esperamos que essa pessoa para quem se dirige nossa oração seja homem ou mulher. Não esperamos que seja um homem afeminado. Um homem afeminado seria um protetor confiável? Jamais! E uma mulher masculinizada ou que gostasse de outras mulheres? Seria ruim, claro, mas não abominável. Mas, ainda assim, seria difícil de ganhar ares de deusa santa no mundo dos mortos. Pois se apresentaria marcada pela dupla personalidade. Ora, não é bom ter como protetor, vindo de outro mundo, uma pessoa de “duas caras”. Uma das grandes virtudes do protetor, principalmente enquanto ele esteve conosco, foi o de ter uma cara só.

Quando entendemos o que é que sentimos orando e pedindo graças aos deuses, entendemos perfeitamente como que esse tipo de comportamento primitivo nasceu dessa situação que descrevi, e que tem a ver com nossa resistência ao ateísmo real e à aceitação de que qualquer um de nós pode, a qualquer momento, deixar-se penetrar.

A gravura desse texto mostra o rapto de Ganimedes. Ele foi raptado pela águia que, na verdade, poderia ser o próprio Zeus. A homossexualidade de Zeus não implicava nele ser penetrado no coito anal, mas dele ser aquele que penetrava. A homossexualidade não é propriamente o problema. O problema é o temor de que a homossexualidade revele alguém que, ao fim e ao cabo, goste de ter um comportamento que é o considerado como próprio da mulher, o de se deixar penetrar, o de ser passivo etc. Ver o texto Coito anal e homossexualismo.