O milagre da multiplicação de relíquias



 

Tentando atrair fiéis e peregrinos, as igrejas medievais disputaram cada objeto ou parte do corpo de Jesus que pudesse ser conservado... ou falsificado.


Por Paul-Eric Blanrue


Durante a Alta Idade Média, os cristãos começaram a cultuar homens e mulheres que haviam realizado grandes sacrifícios em nome da fé e assim conquistaram a salvação, muitas vezes por meio do martírio. Tais realizações faziam com que seus semelhantes os considerassem seres especiais, santos, cujas ações passaram a ser vistas como um código de conduta a ser seguido pela comunidade de fiéis. Assim nasceu o culto aos santos e mártires.

Para os cristãos da época, porém, não bastava venerar de maneira abstrata tais figuras. Partes dos corpos dos santos ou objetos usados por estes em vida, as relíquias, se tornaram importantes objetos de culto. Logo, esse culto se voltou para o mais importante de todos os cristãos, o próprio Jesus Cristo. Foi assim que as relíquias de Cristo se tornaram as mais numerosas da cristandade e passaram a mobilizar o maior número de fiéis. Qualquer objeto ou parte do corpo do Senhor começou a ser disputado entre as diversas comunidades cristãs medievais.

A cobiça pelas relíquias de Cristo se explica. Durante a Idade Média, quando foram construídas as principais catedrais católicas do mundo, a edificação dos templos era financiada por donativos da comunidade, e a capacidade da igreja de atrair fiéis e peregrinos estava diretamente relacionada à quantidade e qualidade de relíquias expostas para veneração. Nesse contexto, os espólios de Jesus eram os mais capazes de angariar generosas doações para igrejas e mosteiros.

Coincidência ou não, na época os objetos com os quais Jesus teve contato direto chegavam à casa das centenas, quando não dos milhares. O berço sagrado se tornou propriedade da igreja de Santa Maria Maior, em Roma. O feno que teria sido usado para cobrir o berço, por sua vez, foi reivindicado pelos fiéis da região da Lorena, na França. Enquanto isso, as ânforas utilizadas nas bodas de Cana espalharam-se pelas igrejas européias. No total, 13 exemplares eram apresentados como autênticos, ainda que a Bíblia só fale de seis.

Como as relíquias refletem cada momento da vida de Cristo, os objetos usados durante os episódios da Paixão ocupam lugar de destaque. A mesa da Santa Ceia está em Roma, ao passo que a toalha se encontra na Santa Capela de Paris. As roupas estão espalhadas pelo Velho Continente: exemplares do Manto Sagrado são conservados tanto em Argenteuil, na França, quanto em Trier, na Alemanha (os padres das duas comunidades, porém, chegaram a um acordo: a túnica que fica na França foi considerada “roupa de baixo”, e a outra, “roupa de cima”). O chicote com o qual os romanos açoitaram Jesus encontra-se na abadia de São Bento, na cidade italiana de Subiaco; a coluna da Flagelação está na igreja de Santa Praxedes, em Roma; por fim, a escada utilizada por Cristo para ir ao palácio de Pilatos foi parar na basílica de São João de Latrão.

Devido à sua importância, as relíquias da Paixão são as que despertam as maiores polêmicas. Ironizando, o reformador João Calvino contou 14 pregos na Cruz de Cristo. Já o erudito Fernand de Mély estimou existirem mais de 700 espinhos da coroa usada por Cristo espalhados pelo mundo. Diante da proliferação de objetos, fica a dúvida se essas relíquias seriam peças genuínas ou simples falsificações. O caso da “Verdadeira Cruz” é um bom exemplo. Segundo dois relatos clássicos, Helena, mãe do imperador Constantino, teria descoberto no Gólgota o local exato da cruz usada para crucificar Jesus. O problema é que em um dos relatos Helena teria identificado o objeto graças a uma visão, enquanto em outra versão ela teria ameaçado os judeus de Jerusalém para que estes lhe indicassem a localização exata. Esses relatos são incompatíveis com uma terceira versão, que atribui a descoberta a Protonice, mulher do imperador romano Cláudio. A polêmica, porém, não impediu que a Verdadeira Cruz fosse devidamente fracionada e que seus pedaços fossem espalhados por mais de 1.150 lugares ao redor do mundo. O cético Calvino afirmou que se reuníssemos todas essas lascas, elas “somariam o carregamento completo de um grande navio”.

Apesar da popularidade que o culto às relíquias de Jesus alcançou durante a Idade Média, a crença nas virtudes mágicas desses objetos não é amparada pela leitura dos textos oficiais da Bíblia. É preciso recorrer aos textos apócrifos, em especial ao Evangelho da Infância, para encontrar referências aos poderes sobrenaturais dos pertences de Cristo. Nesse texto, as túnicas do menino Jesus me expulsam os demônios e inflamam a imaginação do leitor. Embalados por relatos como este, os cristãos medievais conferiram poderes especiais não só aos objetos pessoais de Cristo, mas também a partes de seu próprio corpo: dentes, cabelos, fios de barba, marcas de pisada etc.

CRISTO PICOTADO Alguns pedaços do corpo do Senhor são especialmente disputados. O Prepúcio sagrado é supostamente conservado em uma série de igrejas européias. A santa membrana é reivindicada por comunidades cristãs na Itália, na Alemanha e na França, desde a basílica de São João de Latrão, em Roma, até a abadia de Charroux, na região francesa de Vienne, passando pelas dioceses da Saxônia, de Chartres, de Puy-en-Velay, de Metz, de Conques e de Clermont. Para evitar a multiplicação ao infinito do Umbigo sagrado, o papa Clemente V mandou picotá-lo em três pedaços, enviados a Constantinopla, São João de Latrão e Notre-Dameen- Vaux. Sábia decisão, o que não impediu Clermont-Ferrand de também reivindicar um – aparentemente inteiro!

O Sangue sagrado tornou-se uma relíquia particularmente preciosa em razão das palavras que Cristo teria pronunciado na famosa Ceia, “isto é meu sangue”, fundamento da eucaristia. Gotas dele são conservadas em Bruges, Mântua, Auvergne, Flandres e Normandia. Esse sangue teria originado inúmeros milagres.

Seu culto rendeu até uma bela anedota contada pelo filósofo David Hume em sua História da Inglaterra. Segundo ele, no condado de Gloucester se expunha um frasco que supostamente continha o sangue de Cristo, que só aparecia à pessoa que tivesse feito um número de boas ações suficiente para obter a absolvição; todas as demais eram privadas da graça. Mas o estratagema foi descoberto: “Dois monges que ficavam escondidos punham todas as semanas sangue de pato em um frasco de cristal: um lado era fino e transparente, e outro espesso e opaco. Quando chegava algum peregrino rico, os monges nunca deixavam de lhe mostrar o lado escuro e espesso, até que missas e doações tivessem expiado seus pecados – e quando se avaliava que seu dinheiro, sua paciência ou sua fé estavam prestes a acabar, concedia-se a ele o favor de o frasco ser virado, expondo o lado transparente”.

Nenhuma outra relíquia, porém, mexeu tanto com a imaginação dos fiéis quanto os sudários de Jesus, que proliferaram na Idade Média. Uma mortalha de Cristo é mencionada pelos próprios Evangelhos, mas os relatos bíblicos não a descrevem nem dão maiores informações sobre de que forma o santo tecido teria sido conservado e transmitido às futuras gerações de cristãos. Os escritos mais antigos sugerindo que tais mortalhas foram conservadas datam do século VI. O relato do anônimo de Plaisance, de 570, narra uma expedição à Terra Santa, na qual o autor menciona o lugar onde estava guardado o sudário que “cobriu a face de Jesus”, em uma caverna situada às margens do rio Jordão. No século seguinte surge outra obra, na qual o abade escocês Adamnan narra a história de Arculfo, bispo de Périgueux, que visitou Jerusalém por volta de 680. Segundo Adamnan, naquela ocasião Arculfo beijou o sudário de Jesus, que mediria cerca de 2,50 metros. Alguns autores acreditam que essa relíquia tenha sido incorporada ao tesouro de Carlos Magno por volta de 797, em Aix-la-Chapelle. Essa seria a peça que Carlos, o Calvo, neto de Carlos Magno, transferiu em 877 para a abadia de São Cornélio de Compiègne e que teria desaparecido na época da Revolução Francesa.
No século XII , outro sudário apareceu, por sua vez, na abadia cisterciana de Cadouin, na região de Périgord, no sul da França. Tecido branco imaculado e retangular, media 2,81 metros x 1,13 metro, tinha nas extremidades oito faixas enfeitadas e paralelas e era uma das mais importantes relíquias da cristandade medieval. Catorze bulas papais atestaram sua autenticidade, e ele teve a sorte de sobreviver ao furor revolucionário, mas sua autenticidade foi finalmente questionada por um jesuíta, o padre Francez, na década de 30. Ao se debruçar sobre o tecido, o padre percebeu que as inscrições nas extremidades das faixas incorporavam na trama caracteres cúficos, que foram decifrados pelo diretor do Museu Árabe do Cairo: eram bênçãos muçulmanas em honra do califa egípcio Musta-Ali e de seu sucessor. A relíquia era um manto que fora oferecido como presente na época do califado fatímida por volta do ano 1100. Após a descoberta do padre, a peregrinação a Cadouin cessou de imediato.

Outras relíquias passaram melhor pela prova do tempo. Na catedral de Oviedo, capital da província espanhola de Astúrias, desde o século XI venera-se um tecido que teria sido posto sobre o rosto de Jesus na descida da cruz. Trata-se de um pequeno pedaço de linho branco, originalmente manchado e amassado. As primeiras pesquisas científicas, iniciadas em meados do século XX, revelaram que esse tecido estava impregnado de sangue, que alguns afirmam ser do mesmo tipo (AB) que aquele encontrado no mais célebre dos sudários, o de Turim.

De todas as relíquias de Jesus, esse pedaço de linho retangular de 4,30 metros por 1,08 metro, conservado desde 1694 na capela real contígua à catedral de São João Batista em Turim, é a mais notável de todas. Nele distingue-se a silhueta de um homem inteiramente nu, que apresenta marcas que lembram os ferimentos da Paixão na barriga e nas costas. A imagem está esmaecida, o que lhe confere um aspecto espectral surpreendente. Manchas vermelhas, com aparência de sangue, podem ser vistas nos locais dos ferimentos. Ao contrário da maioria das outras relíquias católicas, esse pedaço de tecido tem sido objeto de pesquisas científicas e históricas há mais de 50 anos. O interesse pela peça vem desde 1898, quando o advogado Secondo Pia fez as primeiras fotos do tecido. No negativo, Paia observou que a imagem “positiva” do corpo de Cristo se destaca do fundo sombrio do tecido. Enquanto no original só se adivinha uma vaga silhueta, no negativo é possível distinguir detalhes insuspeitos de seu corpo atlético. Como isso seria possível, já que o princípio da fotografia se tornou conhecido só no século XIX?
FALSIFICAÇÃO SAGRADA Em 1978, uma equipe do Shroud of Turin Research Project (Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim) realizou o exame científico mais midiático da peça. O resultado do estudo foi divulgado no dia 18 de abril de 1981: existe realmente sangue no sudário, e a imagem resulta de um procedimento misterioso, que exclui a hipótese de pintura. Mas esses resultados foram contestados por Walter McCrone, analista especializado em detecção científica de falsificações em obras de arte. Seu veredicto: “A imagem inteira foi aplicada sobre o tecido por um artista extremamente habilidoso e bem informado”. O artista, segundo ele, utilizou um pigmento de óxido de ferro associado a uma substância à base de colágeno animal.

Para rebater as afirmações de Mc-Crone, a Igreja realizou, em 21 de abril de 1988, um exame para datar o sudário utilizando a técnica de radiocarbono. Os resultados indicaram que a peça teria sido fabricada em algum momento entre 1260 e 1390. A conclusão, publicada na revista científica Nature, era clara: o tecido do sudário de Turim é medieval. O teste, porém, não encerrou a polêmica sobre a peça. Desde então, muitos foram os estudiosos que tentaram refutar esses resultados. A tentativa mais recente foi a do químico Raymond Rogers, que conta em um artigo publicado em 2005 como utilizou um método de datação pessoal para contestar a validade da análise de radiocarbono.

Seja como for, a controvérsia em torno do sudário não é de hoje. O primeiro a apresentar o tecido como uma falsificação foi ninguém menos que o papa Clemente VII, em pleno século XIV, na própria época de seu surgimento. Em uma bula papal de 6 de janeiro de 1390 o papa ordenava que, sempre que tal pedaço de pano fosse exposto, deveria se esclarecer ao público que não se tratava de uma peça original. Segundo o sumo pontífice, era preciso que se fizesse “anúncio à população, no momento de maior afluência, de modo claro e inteligível, para impedir a fraude, de que a dita figura ou representação não era o verdadeiro Sudário de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim uma pintura ou representação do Sudário que se diz ter sido do próprio Senhor Jesus Cristo”.

Fraudes ou não, o fato é que mantos, espinhos e tantos outros objetos relacionados à vida de Jesus continuam a fascinar os devotos até os dias de hoje. Em última análise, esse culto às relíquias deu origem a um dos mais belos mitos medievais: a lendária busca pelo Santo Graal, a taça que Cristo teria utilizado na última Ceia. Nesse campo, a tênue linha que separa a história do mito talvez nunca possa ser cabalmente traçada.

O Umbigo sagrado divide-se entre Constantinopla, São João de Latrão, em Roma, e a igreja de Notre-Dameen-Vaux.

Em Roma, a igreja de Santa Maria Maior conserva o Berço sagrado; o Feno sagrado que teria servido para forrá-lo está na Lorena.

Evidentemente, a última refeição de Cristo ocupa lugar de destaque: a mesa está em Roma, a toalha, na Santa Capela de Paris

O Graal aparece na Ceia. Ignora-se o número de exemplares, já que ele é, justamente, objeto de uma busca eterna.

Calvino contou 14 pregos! Segundo uma lenda cigana, eles eram quatro, mas o último, destinado ao coração, não teria sido utilizado pelos romanos

Gotas do Sangue sagrado, relíquia particularmente preciosa, são conservadas em Bruges, em Mântua, em duas abadias normandas, na Flandres francesa e em Auvergne

No século XIX, o erudito Fernand de Mély estimou em 700 os espinhos da coroa da Crucificação espalhados mundo afora

O chicote com o qual os romanos teriam açoitado Jesus se encontra na abadia de São Bento, perto de Subiaco, e a coluna da Flagelação, em Santa Praxedes, em Roma.

Recentemente lançado no Brasil, o livro O Sudário de Turim – Como Leonardo da Vinci enganou a história, de Lynn Picknett e Clive Prince, joga mais lenha na fogueira da discussão sobre a célebre relíquia. Segundo eles, o falsificador do sudário seria ninguém menos do que Leonardo da Vinci, que teria pintado a peça no século XV. É ler para crer.