O mártir e suicida religioso magno da humanidade






Para um cristianismo a-religioso universal a ressurreição não é uma doutrina imprescindível, pois ela é um acontecimento visto e contado por poucas testemunhas oculares e parciais que nos levam ao ponto decisivo de um relato sem provas suficientes e cabais. E sendo exclusivamente um acontecimento que não se pode comprovar por ser um retrato feito, não com a objetividade fria da história, mas com amor apaixonado dos seguidores, a ressurreição logo se torna uma questão pura e sobrenatural da fé e do coração dos crentes.

Entretanto a crucificação não é um acontecimento visto por poucas pessoas particulares, mais visto por todo o povo, e por eminências atestadas pela historia (Pilatos, Herodes, Caifás, Anás), portanto ela não necessariamente precisa do fator sobrenatural a qual um cristianismo a-religioso voltado ao homem contemporâneo se propõe a propagar. A crucificação se trata do maior espetáculo de Deus para toda a humanidade ver e assistir, independente da fé religiosa.

Tirem a ressurreição do cristianismo que á fé da maioria dos cristãos tradicionais se perde apesar de Ele ainda permanecer vivo e imortal para o mundo, agora tirem o acontecimento histórico mais trágico-magnífico da humanidade que é a crucificação, que Jesus seria no máximo mencionado como um mero profeta dos hebreus dentre muitos homens da humanidade que ensinaram e fizeram coisas maravilhosas.

A Cruz é o apogeu absoluto da revelação de Deus a humanidade, e é exatamente pelo fato dela ser a apoteose da Paixão do Cristo por seus seguidores. Uma paixão no sentido existencial/religioso do termo significa o trajeto épico doloroso e arriscado feito por Aquele que morre por sacrifício de amor aos seus. Num ato espetacular onde todos, ateus e crentes, sábios e ignorantes, grandes e pequeninos contemplam estupefatos diante de tamanha intensidade de Amor e Dor de um homem obcecado por sua Causa: dar um novo rosto ao Deus dos seus antepassados*, a qual Ele ousou chamar de Pai.

Se não fosse o espetáculo da sua morte hedionda e injusta de Cruz, Jesus não seria visto, não seria lembrado, e não seria notado em sua época junto com outros salvadores que surgiram naquele tempo. Pois apenas como homem independente da vontade de Deus por traz de tudo isso, Ele mesmo com as suas atitudes e posturas provocou consciente a sua própria morte para dar ao mundo a sua Palavra que somente cresceria como semente que nasce após morrer na terra.

Deste modo atuou Ele como os grandes homens deste mundo que não foram de todo cautelosos perante os seus inimigos em suas causas pela humanidade, e que eram conscientes de suas importâncias como olhos e voz de Deus para os homens. E assim especialmente Ele agiu ciente de todos os riscos e conjunturas sociais/religiosas que o levariam a morte como sendo o mártir e suicida religioso magno da humanidade, que caminhava convicto ao seu destino sabendo que unicamente uma morte Grandiosa poderia selar a sua vida com a Gloria da imortalidade de sua Causa de Amor a todos os homens.