Nietzsche e a superação do niilismo




Luís Fernando Tedesco


            Michel Foucault reconhecia sua atividade como filosófica e a si mesmo como filósofo por meio de um traço muito característico: o diagnóstico, a “escavação sob nossos pés”. Tal atividade, segundo ele, pode ser remontada a Nietzsche como um marco inaugural e signo distintivo do pensamento contemporâneo¹. Neste texto, serão tecidas considerações sobre o diagnóstico nietzschiano para a civilização ocidental e a profilaxia que o filósofo indica a partir disso. 

            O niilismo, grande doença do homem moderno, é o diagnóstico de Nietzsche para a civilização ocidental. Mas o filósofo não se limita a apenas fornecer um diagnóstico: trata-se, de igual modo, de apontar formas de superação dessa condição “patológica”. Para tanto, é mister que se expliquem os mecanismos por meios dos quais a doença se constituiu. Tal movimento de elucidação, longe de um dogmatismo que procuraria uma “verdade histórica” do fenômeno, toma por via a reconstrução hipotética do movimento histórico através do qual determinados “tipos” culturais teriam logrado domínio sobre outros, até que por fim se chegasse ao homem moderno, a que Nietzsche também chama “último homem”. 

            O primeiro ponto a considerar é a presença do “ideal ascético”, ou seja, a negação da vida, na gênese do homem como ser civilizado. Por esse princípio, constituiu-se a noção de “homem”, sem a qual não teria sido possível a superação da animalidade.  A civilização só foi possível quando o homem se distanciou dos outros animais, representando-se como um animal superior. “Para fazê-lo, porém, tivemos de inventar um 'outro lado' da animalidade – um espírito, uma alma, uma razão – e afirmá-lo contra a animalidade, recusando e negando tudo aquilo que em nossas vivências constituísse este nosso lado natural: instintos, afetos, desejos, etc”.² 

            Tal processo implicaria um terrível peso, a saber, o peso da vida em sociedade, da consciência sujeita a regras, da suspensão dos instintos. O filósofo ilustra desta forma: “O mesmo que deve ter sucedido aos animais aquáticos, quando foram obrigados a tornar-se animais terrestres ou perecer, ocorreu a esses semianimais adaptados de modo feliz à vida errante, à guerra, à aventura – subitamente seus instintos ficaram sem valor e 'suspensos'. A partir de então deveriam andar com os pés e 'carregar a si mesmos', enquanto antes eram levados pela água: havia um terrível peso sobre eles”. 

            É nessa transição da vida errante e aventureira para a vida domesticada que Nietzsche vê um movimento liderado pelos “fracos”, por aqueles que, na natureza selvagem, eram sobrepujados e dominados pelos “fortes”. 

            Assim, da visão dos fortes de sua dominação como algo natural e positivo e da visão oposta dos fracos como algo terrível e que deveria ser extirpado surgem dois modos de estabelecer valores, a saber, a “moral de senhores” e a “moral de escravos”. 

            A moral dos escravos, para Nietzsche, tem origem no mecanismo reativo de inveja e ressentimento e seria a entrada na civilização. Por essa forma de valorar, construiu-se uma imagem de homem ficcional que se ampara sempre em dualidades como alma e corpo, bem e mal, etc. Os fracos identificam os fortes como maus, rejeitando os impulsos naturais, por não suportarem a realidade – já que nela são dominados. Procuram assim se equiparar aos fortes, reduzindo e anulando a força que os subjugava. E fazem-no criando um padrão de medida artificial, a igualdade universal, para servir de critério de bem, como critério de constituição de uma sociedade pacífica e justa. Os senhores eram ativos, e não reativos, pois agiam apenas segundo seus impulsos naturais. Dessa forma, pode se entender de que maneira o filósofo concebe o ideal ascético como elemento fundante da civilização. 

Qualquer sentido é melhor do que nenhum 

            Com o enunciado acima, Nietzsche demonstra que o processo civilizatório, conquanto tenha negado a vida, tem um saldo positivo: por meio dele, foi possível dar um sentido à existência e, a partir daí, puderam surgir as grandes realizações culturais.  

            O ideal ascético do fraco deu uma justificativa a nosso viver, nosso querer, nosso sofrer. Se tivéssemos permanecido na fase original, a pujança dos fortes não nos teria tornado grandes criadores, dada a sua incapacidade de dotar a vida de uma direção e igual incapacidade de interpretar.  Nas palavras do filósofo: “A interpretação – não há dúvida – trouxe consigo novo sofrimento, mais profundo, mais íntimo, mais venenoso e nocivo à vida: colocou todo sofrimento na perspectiva da culpa. (…) Apesar de tudo – o homem estava salvo, ele possuía um sentido, a partir de então não era mais uma folha ao vento, um brinquedo do absurdo, do sem sentido, ele podia querer algo -, não importando no momento para que direção, com que fim, com que meio ele queria: a vontade mesma estava salva”.

            A tábua de deveres do ideal do “reino dos céus” impunha ao homem o sacrifício dos elementos naturais como condição para a ascensão ao reino dos céus. Mas, como já se disse, isso ainda era um forma de dar sentido à vida. A despeito de tudo, a existência tinha assumido uma meta, uma direção.

Morte de Deus 

            O niilismo se instala precisamente no momento em que todos esses grandes sentidos, grandes valores, grandes justificativas se esvaziam. A morte de Deus na modernidade e a secularização, entendida como esse mesmo esvaziamento, engendram o niilismo. A propósito da morte de Deus, escreve Nietzsche: 

            “Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos os seus assassinos? Como fizemos isso? Como pudemos tragar o oceano?  Quem nos deu a esponja para remover o horizonte inteiro? Que fizemos nós quando desprendemos esta Terra de seu sol? Para onde se move ela, então? Para onde nos movemos nós? (…) Não nos precipitamos sem cessar?” 

            Tal vazio opressivo esmaga a consciência do homem moderno, que ainda não compreende a dimensão épica de seu feito, produto da luta empreendida pela ciência contra as “trevas da ignorância”, dada pelo movimento do esclarecimento, cujo sentido e direção já estavam presentes no logos socrático, no germe da racionalidade científica que já figurava na dialética socrática.  

            O vácuo deixado pela morte de Deus revela que o homem moderno estava preso a uma crença que vinculava o sentido da vida à existência de Deus. Não havendo Deus nem referências externas de valor, a vida esvaziou-se de sentido e o homem perdeu sua razão de ser, sua finalidade, sua meta. 

            “Desse ponto de vista, o maior problema da modernidade ocidental, a principal causa de sua atual doença, não seria tanto o pertencimento à tradição judaico-cristã,  mas o fato de ela representar a decadência dessa tradição, aquilo que seria seu melancólico fim.” 

            A noção de morte de Deus, em Nietzsche, não consiste apenas numa particularidade ou num conceito avulso de seu pensamento, mas antes fundamenta um ateísmo que serve de base a suas doutrinas, como eterno retorno, vontade de potência, transvaloração de todos os valores, etc. 

Transvaloração de todos os valores 

            Em sua autobiografia, Nietzsche escreve: “Transvaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema autognose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne”.  

            Através dessa fórmula, Nietzsche entende o resgate do homem como um caminho que deve instaurar uma nova meta, novos valores, articulados a uma interpretação inteiramente nova do mundo. Trata-se agora de construir uma via que supere a falência de um ideal ascético que dava sentido à vida e servia de parâmetro à criação de valores mediante a negação da vida, isto é, através de um outro mundo, artificial, que funciona como padrão de medida.  

            É nessa esteira que se instrumentaliza seu conceito de “vontade de poder”, como uma forma de se opor ao instinto de sobrevivência, que estaria por sua vez estaria comprometido com uma postura que adotaria a permanência tal como se está, e não apontaria para um caminho de ascensão e superação. Para o filósofo, a vontade de potência seria a força motriz desse movimento em direção à superação e a significação a partir deste mundo, sem recorrer a outro.

            Se por um lado há o esgotamento das possibilidades valorativas a partir de referenciais externos ao homem e ao mundo, por outro irrompe juntamente com isso um caminho para se criem sentidos a partir dos impulsos naturais, da vontade de potência, num retorno da capacidade de acreditar que estaria na origem da superação da doença niilista do homem moderno.

Cura pela singularidade 

            O ideal ascético pecava por assumir uma perspectiva externa ao mundo para julgá-lo. Agora, depois de sua falência, cumpre que o princípio dionisíaco assuma sua função e oriente o homem em direção a uma nova condição. Esse novo princípio, que responde pela afirmação incondicional da vida, deve orientar o pensamento à criação de perspectivas valorativas inscritas neste mundo mesmo, capazes de intensificar a vida, justificá-la, afirmá-la; e não mais negá-la. 

            Mas a novidade [e que esse caminho, da convalescença,  por ser uma recusa do ideal ascético, já não se pauta por verdades externas e universais, mas segue a vereda das verdades internas, singulares, capazes de dar a cada vida, individualmente, um sentido próprio, igualmente singular.

            Chega-se enfim na modernidade a essa condição de solidão em que o indivíduo tem de recorrer a si mesmo para se salvar; no caráter singular de suas vivências pessoais é que estaria escondida a possibilidade de um sentido para a existência. Será essa, a partir de agora, a “grande política”. E nesse afã de uma grande política é que o profeta nietzschiano, Zaratustra, demonstra sua exemplaridade:

            “Ainda não vos havíeis procurado a vós mesmos: então me achastes. Assim fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças. Agora, eu vos mando perder-vos e achar-vos a vós mesmos; e somente depois que me tiverdes renegado, eu voltarei a vós.”

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Notas

1- “Eu busco diagnosticar, realizar um diagnóstico do presente: dizer o que nós somos hoje e o que significa, hoje, dizer o que dizemos. Esse trabalho de escavação sob nossos pés caracteriza desde Nietzsche o pensamento contemporâneo e, nesse sentido, posso me declarar filósofo.” - Michel Foucault, em entrevista a P. Caruso publicada originalmente em La fiera letteraria, n. 39 (setembro de 1967) e reeditada em Dits et écrits I (p. 601-620).

2 - MATTOS, Fernando C. Como combater o niilismo. Revista MenteCérebro & Filosofia: Nietzsche São Paulo, vol. 3, p. 54.

3 – Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 125: “O homem louco”. Trad. O. Giacoia Jr.


Referências

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, 181 p.

MARTON, Scarlett. Nietzsche Hoje? São Paulo: Ed. Brasilense, 1985, 201 p.

MATTOS, Fernando C. Como combater o niilismo. Revista MenteCérebro & Filosofia: Nietzsche São Paulo, vol. 3, p. 52-61, 2011.