Dois mil anos de hipnose






O ser humano já foi à lua, descobriu galáxias, fabricou aviões a jato. Na medicina, nunca avançamos tanto. O Iluminismo do século dezoito nos brindou com mentes geniais que colocaram no papel suas idéias inovadoras, derrubando velhas superstições e fazendo o mundo pensar mais racionalmente.

A Igreja católica, enfim, parava com sua Inquisição, que perseguiu, torturou e matou durante séculos, todos os que não baixavam os joelhos perante o Vaticano. Cientistas, benzedeiras e todos que não concordavam com os “intérpretes de deus” eram jogados na fogueira, esquartejados, enforcados; tudo para agradar o deus  que eles acreditam – um deus que manda escrever um livro, onde no meio de centenas de leis absurdas, cruéis, irracionais, encontramos ordens – deste deus...

Que manda matar:

Feiticeiras (Êxodo 22,18). Na Santa Inquisição, o Vaticano pensava que benzedeiras  e pessoas com distúrbios mentais fossem bruxas e bruxos, e todos eram assados vivos.
Adúlteros (Levítico 20,10).
A filha de um sacerdote que cai na prostituição (Levítico 21,9).
O profeta que contraria esse deus (Deuteronômio 18,20). Isso convenceu os carrascos a perseguir e matar filósofos, livre-pensadores, cientistas durante a Inquisição.
O filho beberrão e dissoluto, ou que vivia nos bordéis (Deuteronômio 21,18).
A noiva que não é mais virgem ao chegar ao casamento (Deuteronômio 22,13). Até hoje a virgindade feminina é bastante vigiada, sobretudo por religiosos e pais ciumentos.

Isso é uma pequena amostra do que esse deus inventado por um grupo de sacerdotes tribais, era capaz. Apesar de um mandamento cometer contradição ao registrar “não matarás”. Claro, a maioria dos que pensam ser a Bíblia um livro de ética e moralidade perfeita, não conhecem essa parte. Mas, segundo pesquisadores e estudiosos de mitologia, a Bíblia é um livro repleto de crenças e superstições que eram comuns naqueles tempos. Sacerdotes judeus  compilaram textos ao longo de alguns séculos (entre os séculos seis e dois antes de Cristo aproximadamente), para convencer as pessoas que aquilo era obra de deus, que o povo hebreu (antigos judeus) era o escolhido de deus, e que as leis de Moisés eram inspiradas em deus.

Hoje sabemos que a lei mosaica contém regras copiadas de Códigos mais antigos. Hoje sabemos que se fosse Deus (bom, justo e amoroso como imaginamos que seja Deus) jamais teria autorizado atos tão infames como esses que lemos na Bíblia. Com respeito às pessoas de bem que seguem a Bíblia, digo que sim, há muitos ensinamentos positivos na Bíblia, sobretudo aqueles transmitidos pelo mestre Jesus. Mas infelizmente, a mentalidade que imperou foi da vingança e da proibição ao livre pensar (Antigo Testamento).

Hoje sabemos que a idéia de que o povo hebreu era o escolhido por deus, foi sugada de povos anteriores. Sumérios, egípcios e gregos também acreditavam serem os protegidos de um deus.

Apologistas da Bíblia, temerosos de perderem adeptos, apressam-se em dizer que deus foi duro no Antigo Testamento, por que o povo era rebelde. Mas que o Novo Testamento fez cair a lei, e que basta a fé em Jesus, que você obterá o céu. Embora Jesus tenha sido um homem que buscou ensinar o amor, a paz e a compreensão, grande parte de seu ensinamento foi colocado mais tarde, por sacerdotes a mando da alta cúpula da Igreja, para assegurar seu poder.

Muitos líderes religiosos insistem em dizer que o inferno existe. Que sem a crença, o destino é o fogo eterno. Inferno é um mito, criado na antiga Mesopotâmia. Reis e o clero sabiam que o povo, sobretudo de classe mais humilde, os fracos, os supersticiosos e os emotivos, obedeceriam melhor se fossem ameaçados com um castigo no post mortem. Nunca inventaram uma arma tão poderosa para calar e manter o povo quieto.

Graças ao temor do inferno, milhões de pessoas pagaram indulgências (pagamento ao Vaticano para assegurar uma vaga no céu para elas e parentes). Com ajuda desse dinheiro, os padres construíram a Basílica de São Pedro. Também servia para financiar as festas regadas a vinho e sexo dos papas e assessores.

Hoje, cerca de 80% da população do planeta, acredita que deus é um juiz, que premiará os bons e condenará os maus no fogo do inferno. As religiões sobrevivem com essa falácia. O homem e mulher racionais, de bom senso não precisam agir igual ao povo arcaico.

Para quem crê em Deus, do modo mais sublime, de uma Mente Inteligente que montou o universo, concebeu as leis cósmicas, absolutamente temerá um castigo no além túmulo. E verá toda essa parafernália de hábitos, procissões, vinho sagrado, rastejar de joelhos, abstinência de carne, uso de roupas que cobrem o joelho, censura ao cabelo curto nas mulheres, uma tremenda perda de tempo. O crente religioso tem sempre a mesma justificativa para explicar seu proceder: “Está nas Escrituras”.

Assim como hoje um cristão moderno acha estranho hábitos de outros povos do passado, a saber: adorar vacas, serpentes e faraós, sacrificar animais e crianças e beber sangue em honra aos deuses, copular com sacerdotisas sagradas, etc., no futuro as pessoas olharão para esse século e ficarão admirados com os rituais e crenças praticados atualmente.

Ao vermos as pessoas saindo de templos e igrejas, nos encontros dominicais, percebemos que não há muita diferença com o passado. O homem primitivo tinha seus rituais diante de um totem, venerando seus deuses. Os sumérios cantavam louvores a Shamash e outros deuses protetores. Egípcios iam em procissão, levando a escultura da deusa Isis em cima de uma  padiola. O desejo é igual. Obter favores do céu. Mas será que Deus está interessado em tanta adoração? Não parece que essa mentalidade é a mesma do primitivo, que reverenciava o chefe do bando, e depois, idolatrava reis e faraós como sendo deuses na Terra?

Ao sair dessa “hipnose milenar”, a pessoa que descobre que as religiões são práticas e crenças de um povo bárbaro, sofrido, que tentava sobreviver em meio ao inóspito deserto, e a fúria de nações vizinhas, acordará para a realidade, e perceberá que fora enganada por tanto tempo. Muitos não aceitarão que foram enganados, tal qual o marido que não aceita a traição, apesar de todas as provas.

Para um mundo de ética, paz e respeito aos direitos humanos, as religiões que pregam uma legislação vinda do céu, não me parece serem o melhor caminho. Para um mundo mais feliz, onde a paz seja para todos, é necessário que os governos sejam laicos, democratas, humanistas, sem interferência de regras sagradas. E isso só é possível se o povo ter acesso à informações sobre os motivos do surgimento das religiões, da crença em um deus castigador, austero, preocupado com a sexualidade e comportamento humanos.

Quanto mais os governos são invadidos pela teocracia (imposição religiosa) mais há atraso nas ciências, e no saber humano. Para um mundo mais feliz, deve haver mais conhecimento, ética secular, não religiosa.

Para os que ainda assim perguntarem: “Então por que ser bom, se não há prêmio nem castigo depois da morte?”, repito Einstein: “Se somos bons apenas para conseguir uma recompensa na outra vida, que povo desprezível somos”.