O legado de Eva





Naquela manhã, as coisas estavam estranhamente diferentes. Depois de dias de trabalho muito fecundo e de um descanso merecido e regozijado, o Criador se viu diante de um dilema: manter as coisas como estavam e, do seu lugar, viver na contemplação da obra criada, ou, em lugar disso, mergulhar mais profundamente na criação e com ela interagir pessoalmente.

Foi o que fez: pela primeira vez, saiu de si e, esvaziando-se, penetrou no mundo Criado e armou sua habitação entre tudo que fora por suas mãos moldado e vivificado. Descobriu-se em meio a uma névoa densa e perdida por entre os vales e montanhas. Por mais que procurasse, não conseguia enxergar nada entre si e o horizonte, nada além do sereno madrigal que esconde e revela paulatinamente o que sob si adormece.

Nesse instante, talvez acocorado e sentindo o cheiro da terra molhada, passou as mãos por sobre o solo e percebeu que estava na hora de um gesto último: modelou um indivíduo profundamente diferente de tudo que havia sobre a terra recém nascida, diferente de toda ave e todo réptil, diferente de todo mamífero e todo primata. Mas, curiosamente, intimamente a eles ligado e dependente. Com a argila úmida, moldou um ser de pé e com olhos mirados avante. Um indivíduo com o cérebro proporcionalmente maior e mais desenvolvido. Equipado com polegar invertido, capaz de pinçar, se movimentado com o indicador; com pernas fortes e bem articuladas, capazes de dar estabilidade e mobilidade; com aparelhos orgânicos estranhamente capazes de adaptação e sustento.

Não bastasse toda essa sofisticada máquina orgânica e tão prenhe de possibilidades, viu o Criador que lhe faltava o essencial. Viu que não haveria diálogo e era isso que mais interessava naquele momento. Todos – mesmo o Criador – buscamos sempre por comunicação. Por mais que persigamos a singularidade que nos dá a garantia de nossa individualidade, nunca deixamos de desejar ser comuns com o que e com quem nos cerca. Foi nessa ambiguidade perene que o Criador soprou o vento que Lhe alimentava desde a Eternidade e fez com que penetrasse pelas narinas daquele primeiro indivíduo, que abriu os olhos, os ouvidos, a boca e, talvez, tenha ameaçado os primeiros passos.

Assim foi o Natal de Adam. Nascido das mãos do Criador, era ambivalentemente terreno e divino. Terreno como todos os seus irmãos vegetais e animais, produzido com o que a terra tem de vivo em si e que se entrega tão generosa e potentemente. Divino como o Criador que desejava ardentemente alguém com quem se comunicar.

O Homem é Adam porque é filho de adamah (a terra úmida cheia de vida), mas é nephesh porque é filho do Criador, doador de toda Vida que há. Estava claro, agora, o que se queria dizer com “à nossa imagem e semelhança”; imagem e semelhança da Terra e de Deus. Esse somos nós, filhos da Terra e filhos de Deus!

Isso feito, o que parecia terminado se mostrara apenas começando. Num gesto pedagogicamente paterno, o Criador passou a ordenar o mundo criado e a ele dar a forma de um jardim em que havia árvores de todos os tipos e serventias. Árvores para apreciar, para comer, para aprender e para viver. Cada uma em seu canto, cada uma com sua particularidade. O Homem foi colocado no meio disso tudo e a ele foi confiada a missão de guardar o Jardim. Na planície (éden) espalhada, o Homem se viu com a nobre tarefa de nomear os bichos e plantas, além de regar dia-a-dia as pequenas mudas para fazerem-nas crescer e frutificar; com a missão árdua, mas utilmente digna, de domesticar e criar animais.

Foi nesse cenário: Criador, mundo criado e Homem semelhante ao Criador e ao mundo criado que se percebeu que algo estava, por incrível que pareça, incompleto. A obedecer uma lógica cartesiana, nada estava faltando; mas viu Deus que não era “bom” que o Homem ficasse só. Ainda que semelhante ao Criador e semelhante a tudo que o cercava, Adam estava, sim, só.

Foi aí, no instante da consciência da solidão, que Deus fez Adam dormir profundamente e dele retirou uma costela do peito e, da sua costela, fez emergir Eva e os entregou um ao outro. Viram-se nus, homem e mulher; e, ambos desenvergonhados, entrecuzaram-se os olhares e fizeram-se mutuamente seus, um do outro! Afinal, eram osso dos seus ossos e carne de sua carne. Eram como um só!

Juntos encontraram-se pelo Jardim e, no Jardim, gozavam da presença do Criador, como que num mundo em que Deus e Homem e Mulher são todos uma coisa só, indistintamente.

Lido dessa forma, o capítulo dois do livro de Gênesis nos faz crer que de Deus fez-se o Homem e, do Homem, fez-se a Mulher. Numa linha sucessória que garante ao macho a supremacia sobre a fêmea e que a coloca num patamar de igualdade relativa; igualdade porque é osso e carne do homem, mas relativa porque é dele criada e para ele dedicada.

Pensado numa cultura fortemente patriarcal, Gn 2 ajuda a legitimar o lugar do pai na casa. Dá à mulher um lugar secundário, embora cheio de afagos e juras de reciprocidade.

A questão, todavia, é que Gn 2 não termina no seu último versículo. É preciso ler Gn 3 para compreender melhor as coisas. Não vale, entretanto, lê-los como crônica da história; antes, como narração mítica, que faz compreender as coisas pelo seu avesso e por suas entranhas e não, simplesmente, pela superfície do texto.

Das muitas árvores no Jardim, havia uma proibida pelo Criador. Tratava-se da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ao que parece, até esse momento, Homem e Mulher não faziam escolhas e não decidiam por onde caminhar. Sem conhecer e distinguir entre bem e mal, a vida não passava de uma sucessão de dias e noites, indiscriminadamente dirigida pelo instinto.

E aí a história narra a entrada em cena de uma serpente que convencera Eva de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e esta, Eva, convenceu Adam a comer também do mesmo fruto. É muito curioso ler Gn 3,6 porque Eva viu que aquela árvore era boa para se comer. Afinal, era o fruto que os faria saber diferenciar o bem e o mal!

Não se pode fazer julgamento de valor nesse momento, afinal ainda não sabiam distinguir o certo do errado. O que é possível é fazer um juízo de fato: diante deles havia uma árvore que lhes daria o passe de entrada no mundo da Ética. Comeram!

A primeira reação foi enxergarem-se nus e, como consequência, cozeram vestes para se guardarem mutuamente. Em seguida, descobriram as dores do parto e do trabalho. Por fim, sentiram-se desconfortáveis com a presença do Criador no mesmo Jardim e se esconderam.

Embora a Tradição secular da Igreja tenha nos ensinado que Gn 3 trata de uma queda, os versículos 22 e 23 revelam algo surpreendente: “Eis que o Homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente: o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.” Não fomos expulsos porque erramos ou desobedecemos, mas porque chegamos muito perto do Criador, mais perto do que fora planejado.

Considero que a Criação tenha encontrado seu ponto crítico não em Gn 1,26 ou em 2,7, quando Homem e Mulher foram criados à imagem e semelhança do Criador, antes, em Gn 3,6-7 quando Eva lançou-se corajosamente a experimentar daquela árvore e aprendeu a escolher, distinguir e decidir. Deixamos de ser simples imagem e passamos a ser como o próprio Deus, quando Eva nos incentivou a conhecer o bem e o mal e deles fazer distinção e por eles guiar nossas escolhas e decisões.

Penso que Gn 2 e 3 devam ser lidos de trás para frente. O que vem primeiro é a vida tal como ela é. A vida do trabalho, da dor, das alegrias e das decepções; a vida do parto, da terra seca e dos abrolhos. Depois é que vêm as tentativas de entendimento das coisas. Primeiro vem a vida, depois vem o texto.

Creio que o Israel de quatro ou cinco séculos antes da Era Comum estava em busca de respostas para o drama da vida. Talvez tenham visto que a vida é o que é por conta do imponderável que transcende a alçada de interferência humana (daí a majestade do ato criador de Deus), mas, também, e não menos importante, das escolhas feitas na própria vida por homens e mulheres de carne e osso.

É muito interessante que numa sociedade patriarcal, os autores de Gênesis tenham visto no encontro homem-mulher as razões de tudo: do mal e do bem. Tenham descoberto que foi em nome do encontro que homem e mulher decidiram ousar e arriscaram dar um passo adiante.

Eva nos ensinou que Adam sozinho não ousaria largar o Éden. Foi Eva que nos encorajou a enfrentar a natureza, a cultura, o trabalho, a família e a sociedade e nos ensinou o que significa a palavra Ética, porque, pela primeira vez, nos fez discernir entre o Bem e o Mal.

Talvez, então, fosse o caso de pensar com categorias que só mais tarde passariam a fazer sentido pleno: Deus que se fez Homem; Deus que se fez Mulher! Na Criação, já há, antevista, a Encarnação; o Verbo se fez carne e costela, se fez homem e mulher.

A exemplo do que aconteceu com Jesus – em Mc 7,24-30 (quando a mulher siro-fenícia o fizera ver que o amor de Deus supera toda fronteira e alcança a todos, indiscriminadamente) – Eva ensinou a Javé que a criação queria mais para si do que mera semelhança com o Criador; o ser humano exigia autonomia, criatividade e, por fim, liberdade.

E Deus que pensava, no início, em contemplar a obra criada e sua beleza, agora estava eternamente envolvido com as escolhas humanas, alegrando-se e sofrendo com as mesmas; por isso, nunca mais nos abandonou!