É preciso separar as muletas psicológicas da religião






Lembrando daquela célebre parábola de Jesus, pode-se dizer que, em cada movimento religioso, haverá joio misturado com trigo. Foi assim no Israel antigo e também tem sido na bi-milenar história do cristianismo.

Frequentemente os ateus atacam o cristianismo visualizando aquilo que podemos chamar de muletas psicológicas. Ou seja, os maiores críticos da religião conseguem identificar muito bem os comportamentos de fuga adotados pelas pessoas como desculpas metafísicas para elas não encararem a realidade da vida. Daí a conhecida frase de Karl Marx admitida também por inúmeros pensadores não socialistas: "A religião é o ópio do povo".

Mas será que esse tipo de crítica não peca por sua generalização e por um excesso de materialismo histórico?

Historicamente, a religião foi constantemente usada como um instrumento de poder nas diversas sociedades que se desenvolveram pelos continentes habitáveis do globo (e até na lendária Atlântida que povoava o inconsciente dos gregos). Há quem diga que o domínio do homem sobre o homem possa ter se iniciado com o sacerdócio primitivo da era pré-histórica, suposição esta bem provável porque a política e a religião sempre estiveram unidas na Antiguidade. E hoje, apesar da separação do Estado da Igreja, a religião continua sendo um forte campo de influência sobre as massas.

Por outro lado, não podemos também esquecer que o devoto comum também tenta manipular a sua relação religiosa para satisfazer os próprios interesses egocêntricos. Independentemente de ser manipulado por alguma liderança, sua mente procura justificativas para continuar agindo inadequadamente, coando o mosquito e engolindo o camelo. Ou dizimando a hortelã, o endro e o cominho, mas se esquecendo dos preceitos mais importantes da Lei da Vida: "a justiça, a misericórdia e a fé" (Mt 23:23)

Com a deturpação do discurso na religião, o homem  mascara o seu comodismo. Ele deixa de assumir a sua responsabilidade pessoal porque estaria cumprindo algum mandamento ou "esperando em Deus", como é comum de se escutar por aí. Com esse comportamento, homossexuais não assumidos ingressam em seminários católicos porque temem enfrentar as inclinações de sua sexualidade dentro do convívio social. O desempregado nunca sai para procurar trabalho porque precisa "primeiramente cumprir os seus compromissos espirituais". A mulher descasada nunca desencalha porque ainda não apareceu na sua frente o "varão de Deus". O paciente com distúrbios psíquicos jamais busca o devido apoio terapêutico porque prefere atribuir certos descontroles de suas emoções aos "ataques do inimigo demoníaco". O alienado ausenta-se do debate político porque "Jesus Cristo está voltando e o mundo do qual ele hoje faz parte será destruído".

Por aí segue uma interminável lista de patéticas condutas humanas injustificáveis porque muitas vezes preferimos encobrir certas coisas, ou nem tocarmos nelas, para evitarmos sofrer pela extração daquilo que tanto machuca a nossa alma. Tal conduta equivale a alguém fugir da mesa de cirurgia porque não deseja sentir qualquer tipo de dor (nem a da anestesia), mesmo que o resultado esperado de todo o procedimento médico seja para o próprio bem. Pois até os mais conscientes de sua condição não tomam a atitude que deveriam porque, no fundo, encontram-se escravizados pelos seus temores internos - os "capetas" que a própria obsessão humana inventa num auto-assédio.

Infelizmente, na maioria das vezes, o que assistimos nas religiões são lideranças e liderados alimentando uma co-dependência que produz gostosas compensações, as quais simbolicamente seriam: as cebolas, os alhos e as carnes da escravidão egípcia. Dificilmente encontramos congregações onde haja um verdadeiro esclarecimento mental. E para não sair atacando os outros em suas diferentes crenças, falo do cristianismo que é o grupo ao qual pertenço. Pois tenho visto por aí pastores e padres carismáticos cultivando a ignorância entre o povo. Eles ajudam por um lado, dando um incentivo para o caído reinventar a sua vida, mas também prejudicam de modo que nem sempre podemos dizer que o saldo desse envolvimento do indivíduo com a denominação religiosa será positivo ou negativo.

Em geral, a propaganda das igrejas utiliza-se dos exemplos repetidos de recuperação de ex-toxicômanos, de ex-alcoólatras, ex-bandidos que se converteram no presídio, gente que havia tentado o suicídio e pacientes médicos que se curaram de doenças psicossomáticas pela via do sugestionamento positivo das palavras pregadas em púlpito. Então, logo concluímos que a religião foi benéfica para tais pessoas e perdoamos os pecados da Igreja. Só que, quando fazemos isso, não podemos jamais esquecer da necessidade de reforma da assistência espiritual ou quiçá de revolucioná-la com o auxílio da razão e da ciência.

Apesar do "joio" predominar no meio das religiões, acredito que ainda posso colher trigo nesse velho campo e não estou disposto a lavrar em outra terra onde a espiritualidade seja desprezada. Ainda que o cristianismo tenha transformado Jesus num personagem arquetípico, criado a imagem e semelhança dos antigos padres gregos dos primeiros séculos desta era, creio no Cristo que nos diria hoje as mesmas palavras duras outrora dirigidas para aqueles religiosos do seu tempo. Creio no Cristo que nos manda conhecer a Verdade para sermos realmente libertos. Creio no Cristo que nos aponta o Caminho para irmos diretamente a Deus, o Pai, sem a necessidade de terceirizarmos as importantes escolhas de nossa existência. Creio no Cristo que nos revela a Vida encontrada no interior de cada um, ao invés de procurá-La em objetos, amuletos, cristais, templos, sacerdotes, livros, rituais, etc.

Certamente Cristo Jesus é o cara que sabiamente soube retirar da religião o seu fermento hipócrita fazendo uma nova massa que, necessariamente, não é a religião cristã. Ele não combateu o desejo de espiritualidade do ser humano que é o motor das nossas descobertas, mas procurou eliminar aquilo que pudesse entorpecer essa permanente busca. Um sentimento que nenhum regime totalitário ateu conseguiu destruir.

Meu parecer é que a religião verdadeira, o religare, não pode nunca ser comparada com ópio, cocaína, maconha, crack, cerveja, vinho, saquê ou a brasileiríssima cachaça. A religião verdadeira não se confunde com denominações institucionais como se esta ou aquela igreja  fosse a correta "escolhida por Deus". Tão pouco pode a religião autêntica ser identificada com as tradições ou com as doutrinas dos homens. Antes ela se torna a expressão viva de um comportamento sincero de amadurecimento pessoal que nos incentiva a confrontar os próprios temores psicológicos e superá-los com a graça necessária afim de que o homem persevere em seu caminho.