Tributo ao simples - bem aventurados os mansos



 



“Bem aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”

Palavras morrem, deixam de comunicar, perdem o sentido. Certas virtudes têm a mesma sorte. Caem em desuso. O passar dos anos as joga no ostracismo. Reviravoltas culturais, econômicas, ideológicas fazem com que certos valores, outrora considerados nobres, pareçam irrelevantes. Falar de mansidão, por exemplo, soa piegas hoje em dia. Em algum mosteiro talvez um futuro candidato à beatificação ainda considere o projeto de ser manso.  Quem mais, no mundo, ambiciona o anonimato? Humildade lembra demagogia. Ser simples? Uma fraqueza!

Em “Humano, demasiado humano”, Nietzsche conta a história de um homem medroso e covarde. Faltava-lhe a intrepidez de contradizer os companheiros de partido. “Tinha mais medo da opinião de seus camaradas que da morte. Era um lamentável espírito fraco”. Seus camaradas perceberam então que a covardia dele seria útil. Primeiro o trataram como herói e por fim, mártir. Mas ele permanecia um fraco. Interiormente dizia não enquanto repetia o que os outros desejavam. Mesmo no cadafalso, a instantes de morrer, não deixou de repetir o sim dos pusilânimes. “Ao lado dele, estava um dos seus velhos camaradas, que o tiranizava tanto pela palavra e o olhar, que ele sofreu a morte de maneira mais decente e, desde então, é homenageado como mártir e grande personalidade”. Uma possível lição dessa história é que quem pensa com liberdade, mas adequa o discurso por conveniência, não é humilde, apenas um coitado. Até o absurdo do martírio legitima falsos conceitos de humildade.

Mansidão é, entre as virtudes brandas, uma das mais aviltadas. Fraudada, chancela subserviência. Todo vassalo adora passar por manso. Tomado pelo espírito de rebanho, prefere andar de cabeça baixa. Cai-lhe bem merecer pena. Detalhe: sua voz branda esconde um ego gigantesco. Ele só pensa em preservar-se.  Cordato, repete frases testadas, pois precisa dar-se bem com os donos do poder. Na candura, encarna o pacato dissimulado. Que “não inventa nada, não cria, não empurra, não rompe, não engendra; mas em contrapartida, custodia zelosamente a armadura de automatismos, pré-juízos e dogmas acumulados durante séculos…” (José Ingenieros).

O falso humilde consegue ser modesto. Para quem usa a humildade como degrau, pudor se torna imprescindível. Alguns sossegados metem medo. Quem se acostumou às águas serenas nunca vai propor tese alguma que balance a jangada. Assim, munido de semblante plácido, ele deixa o ambiente pronto para obviedades. Melhor desfrutar das opiniões alheias – quanto mais antigas melhores – do que condenar-se ao tumulto que assola os inquietos. Supostos humildes nunca desaprovam o poder político nem ousam denunciar qualquer blasfêmia social.

Nietzsche afirmou em “Gaia Ciência:

Existe, frequentemente, em suma, uma espécie de humildade receosa, que, quando nos aflige, nos torna para sempre impróprios para as disciplinas do conhecimento. Porque, no momento em que o homem que a transporta descobre uma coisa que o choca, dá meia volta, seja como for, e diz consigo: “Enganaste-te! Onde é que tinhas a cabeça? Isso não pode ser verdade!” De forma que em vez de examinar mais de perto e de ouvir com mais atenção, desata a fugir completamente aterrado, evita encontrar aquilo que o choca e procura esquecê-lo o mais depressa possível. Porque eis o que diz a sua lei: “Não quero dizer nada que contradiga a opinião corrente. Serei eu feito para descobrir novas verdades? Já há demasiadas antigas”. 

A verdadeira simplicidade é, antes de tudo, corajosa; destemida, embora não considere nunca as armas do violento. O simples sabe a força que se esconde na singeleza. Quem se vale de armas malignas para impor a vontade se torna igual ao maligno que as empunha. A espiral da barbárie acontece quando mansos passam a recitar a cartilha que ensina combater violência com mais violência.

As maiores ameaças à humanidade nascem da sedução do poder. Poder, – Atenção: anjos, senhoras e senhores – é sempre uma ameaça. Nele está o veneno da arrogância.  Guerras e injustiça se universalizaram porque o mundo enfiou o pé na lógica de que a sobrevivência da espécie depende da subjugação do outro pela força.

Selvageria difere do amor. No centro do universo não predomina a barbárie. Deus é amor. O ato criador primeiro, o fiat lux, só pode ser concebido na gratuidade. E quem cria (ou procria) renuncia à potência.  Simone Weil afirmou: “Se Deus almejasse afirmar-se a partir da potência, nada existiria senão ele próprio”. Deus precisou abrir espaço para o imperfeito, “se retirar”, como escreveu a filosofa francesa.  Em seu passo para trás, na kenosis, o Pai possibilita a história – os processos de humanização.

Fragilidade vem de Deus. Ela suscita docilidade, docilidade cria diálogo e diálogo faz amigos. Deus quer amigos, apenas. Toda altivez é solitária. Só a humildade escancara os salões da convivência. Empáfia, insensível, míope e surda, não passa de eufemismo para inferno.

O simples pede: “me ensine, eu quero crescer”; já o soberbo retruca: “Nada me resta para aprender”.  O manso se mostra flexível porque se reconhece limitado. A rigidez do poderoso o infantiliza; ensimesmado, ele embrutece, enquanto o singelo se habilita para a vida.

Simplicidade e contentamento vivem sob o mesmo teto. O simples não se encanta com o assobio da opulência, ele só quer navegar, despretensiosamente, vida a fora. Não liga se não conseguir assento entre os altivos. Indiferente a cetros, coroas e castelos, sabe valorizar o instante. E assim, disposto a perder a vida, herda a terra.


Soli Deo Gloria