A Morte do judeu Yesua







Cristo está em toda parte: nas obras mais importantes da história da arte, nos roteiros de Hollywood, nos letreiros luminosos de novas igrejas, nas canções evangélicas em rádios gospel, nos best-sellers de auto-ajuda, nos canais de televisão a cabo, nos adesivos de carro, nos presépios de Natal. Onde você estiver, do interior da floresta amazônica às montanhas geladas do Tibete, sempre será possível deparar com o símbolo de uma cruz, pena de morte comum no Império Romano à qual um homem foi condenado há quase 2 mil anos. Para mais de 2 bilhões de pessoas esse homem era o próprio messias (“Cristo”, do grego, o ungido) que ressuscitara para redimir a humanidade.

Embora o mundo inteiro (inclusive os não-cristãos) esteja familiarizado com a imagem de Cristo, até há bem pouco tempo os pesquisadores eram céticos quanto à possibilidade de descobrir detalhes sobre a vida do judeu Yesua (Jesus, em hebraico), o homem de carne e osso que inspirou o cristianismo.

“Isso está começando a mudar”, diz o historiador André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos especialistas no Brasil sobre o “Jesus histórico” – o estudo da figura de Jesus na história sem os constrangimentos da teologia ou da fé no relato dos evangelhos. Embora tragam detalhes do que teria sido a vida de Jesus, os evangelhos são considerados uma obra de reverência e não um documento histórico.

Chevitarese e outros pesquisadores acreditam que, apesar de não existirem indícios materiais diretos sobre o homem Jesus, arqueólogos e historiadores podem ao menos reconstituir um quadro surpreendente sobre o que teria sido a vida de um líder religioso judeu naquele tempo, respondendo questões intrigantes sobre o ambiente e o cotidiano na Palestina onde ele vivera por volta do século I.

Nazaré, entre 6 e 4 a.C.

Uma aldeia agrícola com menos de 500 habitantes, cuja paisagem é pontuada por casas pobres de chão de terra batida. Segundo os arqueólogos, essa é a cidade de Nazaré na época em que Jesus nasceu, provavelmente entre os anos 6 e 4 a.C., no fim do reinado de Herodes. Isso mesmo: segundo os historiadores, Jesus deve ter nascido alguns anos antes do ano 1 do calendário cristão.

“As pessoas naquele tempo não contavam a passagem do tempo como hoje, por meio da indicação do ano”, explica o historiador da Unicamp Pedro Paulo Funari, colunista do site de História. “O cabeçalho dos documentos oficiais da época trazia apenas como indicação do tempo o nome do regente do período, o que leva os pesquisadores a crer que Jesus teria nascido anos antes do que foi convencionado.”

Se você também está se perguntando por que os historiadores buscam evidências do nascimento de Jesus na cidade de Nazaré – e não em Belém, cidade natal de Jesus, de acordo com os evangelhos de Mateus e Lucas -, é bom saber que, para a maioria dos pesquisadores, a referência a Belém não passa de uma alegoria da Bíblia. Na época, essa alegoria teria sido escrita para ligar Jesus ao rei Davi, que teria nascido em Belém e era considerado um dos messias do povo judeu. Ou seja: a alcunha “Jesus de Nazaré” ou “nazareno” não teria derivado apenas do fato de sua família ser oriunda de lá, como costuma ser justificado.

Mesmo que os historiadores estejam certos ao afirmarem que o nascimento em Belém seja apenas uma alegoria bíblica, o entorno de uma casa pobre na cidade de Nazaré daquele tempo não deve ter sido muito diferente do de um estábulo improvisado como manjedoura. Como a residência de qualquer camponês pobre da região, as moradias eram ladeadas por animais usados na agricultura ou para a alimentação de subsistência.

Se alguém presenciasse o nascimento de Jesus, provavelmente iria deparar com um bebê de feições bem diferentes da criança de pele clara que costuma aparecer nas representações dos presépios. Baseados no estudo de crânios de judeus da época, pesquisadores dizem que a aparência de Jesus seria mais próxima da de um árabe (de cabelos negros e pele morena) que da dos modelos louros dos quadros renascentistas.

Seu nome, Jesus, uma abreviação do nome do herói bíblico Josué, era bastante comum em sua época. Ainda na infância, deve ter brincado com pequenos animais de madeira entalhada ou se divertido com rudimentares jogos de tabuleiro incrustados em pedras.

Quanto à família de Jesus, os pesquisadores não acreditam que ele tenha sido filho único. Afinal, era comum que famílias de camponeses tivessem mais de um filho para ajudarem na subsistência da família. Isso poderia explicar o fato de os próprios evangelhos falarem em irmãos de Jesus, como Tiago, José, Simão e Judas. “As igrejas Ortodoxa e Católica preferiram entender que o termo grego adelphos, que significa irmão, queria dizer algo próximo de discípulo, primo”, diz Chevitarese.

Assim como outros jovens da Galiléia, é provável que ele não tenha tido uma educação formal ou mesmo a chance de aprender a ler e escrever, privilégio de poucos nobres. Ainda assim, nada o impediria de conhecer profundamente os textos religiosos de sua época transmitidos oralmente por gerações.

Política, religião e sexo

Desde aquele tempo, a região em que Jesus vivia já era, digamos, um tanto explosiva. O confronto não se dava, é claro, entre judeus e muçulmanos (o profeta Maomé só iria receber sua revelação mais de cinco séculos depois). A disputa envolvia grupos judaicos e os interesses de Roma, cujo império era o equivalente, na época, ao que os Estados Unidos são hoje.

E, assim como grupos religiosos do Oriente Médio resistem atualmente à ocidentalização dos seus costumes, diversos grupos judaicos da época se opunham à influência romana sobre suas tradições. Na verdade, fazia séculos que os judeus lutavam contra o domínio de povos estrangeiros. Antes de os romanos chegarem, no ano 63 a.C., eles haviam sido subjugados por assírios, babilônios, persas, macedônios, selêucidas e ptolomeus. Os judeus sonhavam com a ascensão de um monarca forte como fora o rei Davi, que por volta do século 10 a.C. inaugurara um tempo de relativa estabilidade. Não à toa, Davi ficaria lembrado como o messias (ungido por Javé) e, assim como ele, outros messias eram aguardados para libertar o povo judeu.

Além do banditismo, havia a resistência inspirada pela religião, principalmente a dos chamados movimentos apocalípticos. De acordo com os seguidores desses movimentos, Israel estava prestes a ser libertado por uma intervenção direta de Deus que traria prosperidade, justiça e paz à região. A questão era saber como se preparar para esse dia.
Alguns grupos, como os zelotes, acreditavam que o melhor a fazer era se armar e partir para a guerra contra os romanos na crença de que Deus apareceria para lutar ao lado dos hebreus. Para outros grupos, como os essênios, a violência era desnecessária e o melhor mesmo a fazer era se retirar para viver em comunidades monásticas distantes das impurezas dos grandes centros. E Jesus, de que lado estava?

É quase certo que Jesus tenha tido contato com ao menos um líder apocalíptico de sua época, que preparava seus seguidores por meio de um ritual de imersão nas águas do rio Jordão. Se você apostou em João Batista, acertou.

O curioso é que, para a maioria dos pesquisadores, incluindo aí o padre católico John P. Meier, autor da série sobre o Jesus histórico chamada Um Judeu Marginal, o movimento apocalíptico de João Batista deve ter sido mais popular, em seu tempo, do que a própria pregação de Jesus. Os historiadores acreditam que é bem provável que Jesus, de fato, tenha sido batizado por João Batista nas margens do rio Jordão, e que o encontro deve ter moldado sua missão religiosa dali em diante.

Apesar de não haver nenhuma restrição para que um líder religioso judeu tivesse relações com mulheres em seu tempo, ninguém sabe ainda se entre as práticas espirituais de Jesus estaria o celibato. Da mesma forma, afirmar que ele teve relações com Maria Madalena, como no enredo de livros como O Código Da Vinci, também não passaria de uma grande especulação.

Uma morte marginal

O pesquisador Richard Horsley, professor de Ciências da Religião da Universidade de Massachusetts, em Boston, é categórico: a morte de Jesus na cruz em seu tempo foi muito menos perturbadora para o Império Romano do que se costuma imaginar. Horsley e outros pesquisadores desapontam os cristãos que imaginam a crucificação como um evento que causara, em seu tempo, uma comoção generalizada, como naquela cena do filme O Manto Sagrado em que nuvens negras escurecem Jerusalém e o mundo parece prestes a acabar.

Apesar de ter sido uma tragédia para seus seguidores e familiares, a morte do judeu Yesua deve ter passado praticamente despercebida para quem vivia, por exemplo, no Império Romano. Ou seja: se existisse uma rede de televisão como a CNN, naquele tempo, é bem possível que a morte de Jesus sequer fosse noticiada.

E, caso fosse, dificilmente algum estrangeiro entenderia bem qual a diferença da mensagem dele em meio a tantas correntes do judaísmo do período – assim como poucas pessoas no Ocidente compreendem as diferenças entre as diversas correntes dentro do Islã ou do budismo.

Os pesquisadores sabem, no entanto, que Jesus não deve ter escolhido por acaso uma festa como a Páscoa para fazer sua pregação em Jerusalém. A data costumava reunir milhares de pessoas para a comemoração da libertação do povo hebreu do Egito. No período que antecedia a festa, o ar tornava-se carregado de uma forte energia política. Era quando os judeus pobres sonhavam com o dia em que conseguiriam ser libertados dos romanos.

Em meio às festas religiosas, o comércio da cidade florescia cada vez mais. Vendia-se de tudo por lá, incluindo animais para serem sacrificados no templo. Os mais ricos podiam comprar um cordeiro para ser sacrificado e quem tivesse menos dinheiro conseguia comprar uma pomba no mercado logo em frente. A cura de todos os problemas do corpo e da alma (na época, as doenças eram relacionadas à impureza do espírito) passava pela mediação dos rituais dos sacerdotes do templo.

Não é difícil imaginar a afronta que devia ser para esses líderes religiosos ouvir que um judeu rude da Galiléia curava e livrava as pessoas de seus pecados com um simples toque, sem a necessidade dos sacerdotes. A maioria dos pesquisadores concorda que atos subversivos como esses seriam suficientes para levar alguém à crucificação.

Quase tudo o que os pesquisadores conhecem sobre a crucificação deve-se à descoberta, em 1968, do único esqueleto encontrado de um homem crucificado em Giv’at há-Mivtar, no nordeste de Jerusalém. Após uma análise dos ossos, eles concluíram que os calcanhares do condenado foram pregados na base vertical da cruz, enquanto os braços haviam sido apenas amarrados na travessa.

A raridade da descoberta deve-se a um motivo perturbador: a pena da crucificação previa a extinção do cadáver do condenado, já que o corpo do crucificado deveria ser exposto aos abutres e aos cães comedores de carniça. A idéia era evitar que o túmulo do condenado pudesse servir de ponto de peregrinação de manifestantes. De qualquer forma, a descoberta desse único esqueleto preservado prova que, em alguns casos, o corpo poderia ser reivindicado pelos parentes do morto, o que talvez tenha acontecido com Jesus.

O que aconteceu após sua morte? Para os pesquisadores, a vida do Jesus histórico encerra-se com a crucificação. “A ressurreição é uma questão de fé, não de história”, diz Richard Horsley.

Tudo o que os historiadores sabem é que, apesar de pequeno, o grupo de seguidores de Jesus logo conseguiria atrair adeptos de diversas partes do mundo. E foi um dos novos convertidos, um ex-soldado que havia perseguido cristãos e ganhara o nome de Paulo, que se tornaria uma das pedras fundamentais para a transformação de Jesus em um símbolo de fé para todo o mundo.

Com sua formação cosmopolita, Paulo lutou para que os seguidores de Jesus trilhassem um caminho independente do judaísmo, sem necessidade de obrigar os convertidos a seguirem regras alimentares rígidas ou, no caso dos homens, ser obrigados a fazer a circuncisão. A influência de Paulo na nova fé é tão grande que há quem diga que a mensagem de Jesus jamais chegaria aonde chegou caso ele não houvesse trabalhado com tanto afinco para sua difusão.

Mesmo para quem não acredita em milagres, não há como negar que Paulo e os outros seguidores de Jesus conseguiram uma proeza e tanto. apenas três séculos após sua morte, transformaram a crença de uns poucos judeus da Palestina do século I na religião oficial do Império Romano.

Por essa época, a vida do judeu Yesua já havia sido encoberta pela poderosa simbologia do Cristo: assim como os judeus sacrificavam cordeiros para Javé, o Cristo se tornaria símbolo do cordeiro enviado por Deus para tirar os pecados do mundo. Desde então, a história de boa parte do mundo está dividida entre antes e depois de sua existência.

Seus Evangelhos contam, com algumas variações, a vida de Jesus Cristo. Apresentam-no como filho de Deus que veio à Terra salvar a humanidade. Para os cristãos, esses são textos sagrados, escritos sob inspiração divina. A leitura comparativa dos quatro, no entanto, revela diferenças que podem ter tido um propósito quase publicitário. É essa a conclusão de L. Michael White, diretor do Instituto de Estudos sobre as Origens do Cristianismo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Em Scripting Jesus (Roteirizando Jesus, em tradução livre), lançado no mês passado nos EUA, White diz que fatos da vida de Jesus narrados nos Evangelhos serviram para fundamentar a "agenda teológica" de seus autores. "Os evangelistas sentiam-se compelidos a preencher os vazios da narrativa oral com fatos adequados a seus objetivos", disse White a ÉPOCA. Para ele, a meta desses narradores era cativar públicos de formação cultural distinta. Os Evangelhos não teriam, portanto, o caráter universal que se atribui a eles.

Segundo White, o texto de Lucas foi escrito para evangelizar povos greco-romanos. Os de Marcos e Mateus, para os judeus. E o de João era destinado aos que faziam a transição de uma seita judaica para uma religião independente – o cristianismo, que em muitos aspectos se opunha ao judaísmo. A necessidade de cativar cada público teria sido responsável por moldar o conteúdo dos Evangelhos. "Como os seguidores de Mateus eram judeus, é sob essa ótica que ele 'apresenta' Jesus", diz White. "Em contraste, os Evangelhos de Lucas e João 'falavam' com audiências não judaicas."

Para comprovar sua teoria, White cita exemplos tirados de cada texto. O Evangelho de Marcos, que teria sido escrito poucos anos depois da queda de Jerusalém, na fracassada revolta dos judeus contra o Império Romano (70 d.C.), afirma que Jesus previu a destruição do Templo, o local mais sagrado para os judeus. Lucas, que precisava se adequar à cultura helênica – habituada a filósofos como Sócrates e Platão –, teria resolvido esse dilema tornando-se um antagonista da tradição judaica. "Seu objetivo é separar Jesus dos judeus", afirma White. "E seu estilo literário é da mais alta qualidade, de modo que qualquer um do mundo greco-romano ficaria confortável com sua leitura."

O exemplo favorito de White para confirmar sua tese é a Paixão de Cristo narrada no Evangelho de João. Embora os quatro situem a crucificação de Cristo na Páscoa, João difere de Lucas, Marcos e Mateus no que diz respeito à Última Ceia. Para João, ela teria ocorrido antes da Páscoa, e não durante. Qual a diferença que isso traz? Segundo White, o objetivo seria confirmar entre os judeus a ideia de Jesus como o "cordeiro de Deus", sacrificado para expiar os pecados da humanidade. O sacrifício do cordeiro pascal celebrava o Êxodo, a passagem do Antigo Testamento em que os judeus, liderados por Moisés, fogem do cativeiro no Egito. "O autor do Evangelho de João mudou intencionalmente a ordem da narrativa para alcançar seu efeito simbólico e metafórico", afirma White. A opinião é endossada por Giovanni Bazzana, especialista em Novo Testamento da Universidade Harvard: "O objetivo principal dos Evangelhos é anunciar que Jesus ressuscitou dos mortos para ser o salvador da humanidade", disse Bazzana a ÉPOCA.

"Mas cada um tinha metas específicas."

Alterar a ordem dos acontecimentos para dar um novo sentido aos mesmos fatos pode parecer um artifício duvidoso do ponto de vista ético, mas não é assim que os especialistas veem a questão. "Os Evangelhos não são jornalismo e não se deve esperar isso deles", diz John Dominic Crossan, um dos maiores pesquisadores religiosos do mundo, no documentário De Jesus a Cristo: os primeiros cristãos, da rede de TV americana PBS. Para White, os autores dos Evangelhos, longe de ser repórteres em busca de verdades factuais, mais se aproximavam de dramaturgos. "Eles fizeram uma recriação dramática da história e analisaram os fatos sob determinado ângulo que os favorecia." André Chevitarese, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concorda: "Mais do que biografias, são plataformas de ataques e defesas em torno de Jesus para consolidar as fronteiras entre nós (cristãos) e eles (de outras religiões)". Admitir que os Evangelhos não são biografias de Jesus não significa, porém, que eles tenham sido inventados. "São baseados em antigas tradições orais que foram passadas pelos seguidores de Jesus após sua morte", diz White.

Os historiadores são unânimes em afirmar que os quatro evangelistas bíblicos não escreveram uma só linha de punho próprio. "Não sabemos a real identidade dos autores", diz Bazzana. Ele explica que seus nomes passaram a constar nos textos apenas a partir do século II, com o objetivo de dar credibilidade às escrituras. Sem dúvida, o texto ganhou mais força ao ser atribuído a Mateus e João (apóstolos que conviveram com Jesus) e a Marcos e Lucas, discípulos de Pedro e Paulo, respectivamente. "Esse processo de chama pseudepigrafia e era muito comum no mundo antigo", diz o professor de Harvard.

Nessa tradição, as versões já eram moldadas para se adaptar a seu público. "As histórias eram contadas por meio de performances dramáticas para uma plateia. O que dava certo continuava, o que não funcionava era rejeitado e trocado." Os contadores de histórias também preenchiam as "lacunas", que eram muitas, deixadas pela falta de elementos históricos, para aumentar seu impacto. White cita como exemplos as narrações sobre a Paixão de Cristo – incluindo o papel de Judas Iscariotes como o traidor, que serve para dar efeito dramático à narrativa. Nas epístolas de Paulo, mais antigas que os Evangelhos, Jesus reaparece da morte para os 12 apóstolos, sem menção à morte do suposto traidor, Judas. Os narradores também gostavam de reforçar a divindade de Jesus adequando sua vida às velhas profecias judaicas. Mateus diz que Jesus teria entrado em Jerusalém no lombo de um jumento – exatamente como o profeta Zacarias previra que o Messias chegaria à cidade.

Os Evangelhos são as principais fontes de pesquisa sobre Jesus, mas não são as únicas. Há os evangelhos apócrifos, rejeitados pela Igreja, que não fazem parte da Bíblia. A inclusão dos quatro Evangelhos no cânone da Igreja (quer dizer, sua aceitação como escritos de inspiração divina) não se deu apenas por serem os mais antigos. "Eles eram os mais populares", diz Dale Martin, professor de estudos religiosos da Universidade Yale, dos EUA. Para o autor de Scripting Jesus, há outro motivo. Como o núcleo teológico dos Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João está na Paixão de Cristo, que demonstraria seu caráter único e divino como filho de Deus, eles dariam mais força a esse dogma. Além disso, os quatro Evangelhos se complementam. O nascimento de Jesus, por exemplo, é contado apenas em Lucas e Mateus. Ainda assim, a historiografia é precária. "Mesmo juntando os quatro, não temos um registro histórico confiável de Jesus", diz White. O que se sabe é que, 2 mil anos atrás, cada texto dos Evangelhos pertencia a um círculo restrito de seguidores.

Mesmo o distanciamento histórico ainda não permite explicar o que fez um homem da Galileia atrair tantos seguidores após sua morte, num contexto em que muitos se diziam profetas e Messias. Em 300 anos, o que começou como uma pequena seita judaica se transformou na religião oficial do Império Romano. "Jesus se tornou o 'filho de Deus', historicamente falando, por milhares de fatores que nunca serão totalmente explicados", diz Dale Martin, de Yale. "Ele inspirou lealdade em seus seguidores, que acreditaram terem-no visto após sua morte."

Os Evangelhos tiveram papel fundamental nisso. Primeiro, levaram adiante a tradição sobre Jesus. Segundo, se encaixaram em várias situações, dando força ao proselitismo cristão. Nos primeiros séculos de cristianismo, diz White, conquistaram de judeus a gregos. No presente, são usados por algumas igrejas evangélicas para fundamentar a teologia da prosperidade, segundo a qual os fiéis são merecedores das riquezas materiais. "São textos com múltiplos significados, usados por seguidores que vão dos kardecistas aos católicos", diz André Chevitarese, da UFRJ. White afirma, porém, que a compreensão histórica e teológica dos Evangelhos não deve levar à conclusão de que Jesus Cristo foi "inventado". Ou que as escrituras são puramente fantasiosas. "Não estou tentando dizer que devemos jogá-las fora", afirma o historiador. "Pelo contrário. Eu as levo muito a sério. Mas não de forma ingênua."