Ambiguidades históricas do reino






LEIA: Mateus 13 e 14.

Jesus disse que “o reino dos céus”, que equivale a encontrar o significado sublime de Deus na existencialidade da vida, acontece de modo diferente para pessoas distintas.

Para uns é como um homem que tropeça num tesouro oculto num campo. Não buscava nada e achou tudo. Não tinha coisa alguma em mente, não sofria de nenhuma expectativa, não era um “Explorer” de coisa nenhuma; era apenas um ser em movimento na existência; e, sem querer, tropeçou na Graça, no tesouro, no sentido supremo; e entendeu o que achou; e, portanto, saiu dali, vendeu tudo o que tinha a fim de comprar o campo no qual o tesouro de Graça se fazia disponível; embora o “campo” no qual ele fora encontrado tivesse o seu preço.

Para outros, tal encontro com o sublime, acontece depois de muita busca e procura. É assim como um homem que procurava e almejava por pedras de valor, por gemas preciosas, e, tendo encontrado alguma coisa [...], todavia sabia que poderia ainda haver algo mais precioso a ser encontrado; por isto, não cessava sua busca do encontro com o significado do valor superior.

Jesus também disse que há aqueles que são “pescados” por ações humanas; sim, como “peixes” alcançados por um arrastão, por uma malhadeira, por uma tarrafa lançada ao mar de modo indiscriminado, a qual, quando volta às mãos dos seus lançadores, vem carregada de “peixes bons e de peixes maus”, os quais são separados uns dos outros; sendo que, no “reino dos céus”, tal “separação” somente acontece por intervenção divina, e nunca por ação humana, conforme Jesus ensinou na “Parábola do Joio e do Trigo”.

Assim, uns não buscavam nada, porém, na sua inconsciência, acharam Tudo o que não procuravam; e tiveram o discernimento de que o “achado” valia vender tudo, abrir mão de qualquer coisa, a fim de que se apoderassem de Graça do que foi achado num ambiente que tem seu preço, como um campo no qual um grande tesouro desconhecido possa ser encontrado.  

Já para outros se tratava de uma busca consciente de significado, de sentido e de sublimidade; ou seja: de real transcendência. É algo semelhante ao que ocorre com aqueles que têm sede consciente do sublime, e, por causa disso, entram por todas as portas, exploram todas as grutas, visitam todas as minas, empreendem todas as jornadas do saber, da filosofia, da psicologia, da religião ou da existencialidade; realidade essa que os põe em contato com “pequenas sabedorias”, mas sem lhes atender àquilo que no fundo do coração eles, como numa obsessão [...], creiam que existe e que ainda está por ser descoberto. Até que chega o Dia; e, em tal Dia, ao acharem o que não sabiam o que era [...], mas sabiam que em sendo encontrado nada haveria para ser comparado Àquilo [...], faz com que saiam e se desfaçam de tudo o mais que antes tivera seu valor relativo, em face do “achado Absoluto” que agora lhes chegou à vista e ao coração como “dado” incomparável. Então cessam as buscas. Afinal, encontrou-se o que tem valor Sublime.

Outros, todavia, são o resultado — na sua “chegada ao reino dos céus” como fenômeno existencial — de uma “pescaria”; sim, são semelhantes aos que foram alcançados numa tarrafada. E, nesse caso, pela ação humana da qual foram trazidos [...], juntamente chegam peixes/pessoas de todos os tipos, em face da ação indiscriminada da pescaria por arrastão; o que, certamente, ilustra muito bem a ação humana da igreja no seu modus operandi de evangelização ou de pescaria humana no mar da existência.

Desse modo, está claro que no caso dos que acharam o “reino dos céus” em meio ao seu andar distraído, o resultado é sempre positivo; posto que o “encontrador” seja um filho da alegria espontânea; sim, uma vitima da Graça Soberana; e, portanto, um ente que se torna feliz como um “sortudo” que reconhece a sublimidade da sua grande sorte na vida. Esse vive de gratidão feliz o resto da sua existência.

O mesmo se pode dizer daquele cuja busca era consciente; o qual era um sedento sincero; um buscador; um Explorer da verdade; um ser tomado pela obsessão do Sublime. Sim, quando pessoas com tais características acham o “reino” a resposta é sempre a mesma; sendo pura alegria feliz e descomplicada em seus corações; posto que se saibam agraciados por um galardão com o qual sonhavam e pelo qual estavam dispostos a todos os esforços desde sempre. Esses são os que nascem com avidez intrínseca e gradativamente consciente acerca do fato que a existência tem que ter um Sentido Superior a ser encontrado.

Existem, todavia, os que são filhos do esforço de terceiros; os quais são puxados por redes humanas para a praia da possibilidade do “reino”. Mas, sendo eles o resultado de uma ação humana indiscriminada, no bojo do mesmo arrastão que os trouxe [...], vêm acompanhados de gente boa e gente má; o que faz com a ação humana que acontece como “mandamento do Senhor” — ou seja: sermos pescadores de homens —, desde sempre já nos fora afirmada como tendo a possibilidade de trazer seres de espécies diferentes para o mesmo local humano de encontro com a possibilidade do reino; a saber: a igreja como ente humano visível e histórico; lugar físico, existencial e comunitário de imensas contradições; sim, pois, pela ação humana, o resultado não carrega a qualidade existencial dos dois primeiros casos acima mencionados; ou seja: dos que tropeçaram na Graça de modo inconsciente, mas que a reconheceram com alegria, e os que a buscavam, e, tendo-a encontrado, entregaram-se a ela com gratidão e alegria de sortudos.

É por esta razão que a manifestação presente do “reino dos céus” tem gente eternamente descomplicada [os dos dois casos anteriores, com o acréscimo dos “peixes bons” colhidos pelo arrastão humano dos esforços dos “pescadores de homens”], assim como tem gente nem tanto..., que, no dizer de Jesus, eram “peixes maus”, mas que foram trazidos pela rede indiscriminada da ação evangelizadora para a praia da possibilidade do “reino”.  

Nos dois primeiros casos a qualidade existencial dos que encontraram o “reino” está garantida pela forma espontânea do encontro. Porém, na ação história da igreja [...] no ato de “pescar homens” [...] existe naturalmente apenas a possibilidade do “reino” acontecer; posto que a ação humana não possa garantir a qualidade do resultado de tal empreendimento aleatório.

Ora, sempre haverá aqueles que não buscando, encontrão; bem como sempre existirão os que buscavam e, pela Graça, virão a encontrar. Do mesmo modo, pela força do mandamento que manda que se pesque [...] também sempre haverá o resultado de que a ação humana de arrastar pela Palavra a toda criatura [...], traga para a possibilidade do “reino” gente que seja genuinamente do reino como também aqueles que ficam no ambiente de tal possibilidade apenas..., mas que jamais entram nele, posto que não tenham suas naturezas alteradas.

Entretanto, Jesus disse que a Pescaria deveria ser sucedida da ênfase de fazer discípulos, ensinando-os a guardar todas as coisas por Jesus ensinadas; que é o que pode, na História, sem escatologia final, gerar espontaneamente nos “peixes”, por sua livre escolha, a decisão de ficarem ou não no ambiente que, para alguns, não é o “reino”, mas apenas a possibilidade dele.

O problema é que o “Arrastão” da igreja na história perdeu completamente a ênfase no ensino e nos mandamentos de Jesus, importando apenas a grandeza quantitativa da “pescaria”; que é, de fato, o que faz o caos se estabelecer como se vê acontecer desde há muito na História, e que, nos nossos dias, ganhou contornos insuportáveis; sim, de tal modo que o que se chama evangelização, pela sua volúpia marqueteira de números, passou a ser a desqualificação do “reino”, tanto quanto da possibilidade do “reino” entre os humanos; posto que nossas “pescarias” sejam apenas ações de volúpia quantitativa e de poder, o que gera a corrupção do que seria real possibilidade do “reino” [...], e isso tanto mais quanto a igreja/fenômeno/histórico busque fazer sua “pescaria” dia a dia mais volumosa.

Obsessão pelo crescimento da igreja e que se some ao total descaso pelo ensino da Palavra e do discipulado, gera apenas o que se tem hoje; ou seja: uma praia/igreja lotada de peixes fadados a serem lançados fora pelos anjos, quando o Dia da Verdade chegar.

Pense nisto e se enxergue na Verdade!