Rompendo com as negociatas psicológicas das instituições religiosas



 



É lamentável ver como que muitas das vezes o discurso religioso torna o indivíduo escravizado a um sistema perverso de recompensas e punições ao invés de despertar a sua consciência para ações éticas dentro da sociedade de uma maneira mais madura.

Conheço um homem, morador da América Central, que, após ter se maravilhado com a doutrina de que “uma vez salvo está salvo para sempre”, questionou o líder de uma igreja por que ele apavorava seus seguidores alarmando que, se os crentes pecassem, iriam ser condenados ao fogo do inferno. O “pastor”, sabendo que estava conversando com um executivo de boa posição e que fora representante de uma influente multinacional em diversas nações do mundo, respondeu-lhe que, se pregasse em púlpito que o crente não perde a salvação, os fiéis iriam sair pecando deliberadamente.

Todavia, era óbvio que o tal pastor não estava disposto a abrir mão de um poderoso instrumento de pressão psicológica baseado numa oferta de salvação atrelada à realização de experiências que podem ser recompensadas ou punidas na eternidade. Algo que funciona simultaneamente com o sentimento de culpa e de inadequação do indivíduo diante de uma moral sacralizada pela instituição religiosa, capaz de servir não apenas para adequar o indivíduo dentro de um padrão de comportamento socialmente aceitável (um modelo de “santidade” que vai além do comum) como também induzi-lo a uma atitude de proselitismo, estimulando tarefas voluntárias em benefício da instituição.

Este sistema de punição e recompensa obviamente que encontra nas más interpretações bíblicas uma fonte de justificação. É tão bem montado que o discurso não só apavora o seguidor da instituição com o “inferno” após a morte, mas funciona junto com a ameaça de consumação da história humana no planeta, quando será erguido um tribunal divino com a distribuição dos prêmios e castigos. A volta de Jesus, que pode ocorrer a qualquer momento segundo os evangelhos, pode então amedrontar o jovem e evitar a elaboração do raciocínio de que “posso pecar bastante agora porque, quando estiver velhinho, volto pra igreja e me arrependo”.

Contudo, tenho observado que o uso destes métodos não serve para ensinar o indivíduo a escolher o bem de uma maneira voluntária e consciente. A repressão de instintos, a proibição de uma convivência social sadia como a participação em festas populares ou a frequência da praia ou bares, as regras morais de vestimentas, dentre outras privações que a moral de uma instituição impõe, como uma maneira de “santificar” os seguidores do “mundo”, não impede certas escapulidas da pessoa. Surge então as transgressões dos valores daquele grupo religioso que podem levar o indivíduo a uma dissidência libertadora ou então acomodá-lo dentro do sistema, aproximando-o até da colaboração com a liderança eclesiástica, mas que, neste segundo caso, torna-se muito mais difícil um retorno devido à cauterização da consciência.

É interessante notar que muitos dos líderes são pessoas que também dão suas escapulidas mas resolvem manter os demais seguidores e colaboradores acorrentados. O pastor passa então a levar sua vida dupla. Atrás do púlpito ele prega com rigor e moralismo, encobrindo sua inadequação à moral religiosa. Em outros momentos, distante dos olhos de seus seguidores, ele pode fazer várias outras coisas: adulterar, desviar o dinheiro das ofertas, subornar as autoridades, difamar outros líderes religiosos, fazer acordos secretos com políticos cretinos, manipular almas inocentes, etc.

Mas se o seguidor de uma instituição dessas amanhã descobre a descrença ou adere à uma igreja onde não se amedronta o ouvinte com a “perda de salvação”? Como que ele vai portar-se eticamente dentro da sociedade? Quais serão os valores que lhe restarão?

Não é por menos que se diz que “crente desviado age pior do que o mundano”. Pois, na maioria das vezes, o dissidente infantil de uma agremiação religiosa repressora resolve mesmo “chutar o balde”. Depois de tanto tempo reprimida, tal pessoa opta por viver intensamente aqueles desejos naturais que estavam massacrados por uma doutrina perversa de submissão das mentes aos interesses de lobos que se dizem pastores. E junto com o desejo por liberdade muitos conflitos interiores explodem sem encontrarem um tratamento numa sociedade secularizada igualmente perdida nela mesma.

Como curar pessoas feridas pela instituição religiosa senão através do Evangelho da graça capaz de romper com toda esta barganha moralista? Pois é a aceitação incondicional de quem somos, sem impor códigos morais, doutrinação de interpretações tidas como “irrefutáveis”, livre de dogmas, que não entenda o corpo como algo profano ou não alimente culpas ou medos, que o indivíduo pode então tratar-se interiormente reconstruindo seus valores éticos.

A graça mostra-se para mim como um rompimento com todo este perverso sistema de recompensas e punições elaborado pelas instituições religiosas. É pela graça que poderemos formar jovens conscientes de suas atitudes em todos os aspectos como cidadãos que promovem a paz, vivenciam uma sexualidade responsável, crescem em conhecimento e respeitam o líder não pela imposição da suposta autoridade pastoral mas como alguém capaz de fazê-los crescer compreendendo a realidade por suas próprias experiências relacionais com a Vida.