Os Sons da Criação






No começo havia o Verbo…

E Deus criou o homem, e um dia o homem sonhou. No principio, o Homem inventou a linguagem para se comunicar. O Verbo se manifestou como palavra. Através desse ato divino, o homem criou as histórias. Com esse recurso, seu conhecimento pôde ser passado oralmente para gerações posteriores. A fala lhe permitiu partilhar suas experiências com a tribo e lhe concedeu uma capacidade que deu à espécie humana imensa vantagem seletiva. Pela mesma época, ou antes, dominou o fogo para proteger-se em grupo. Criou a escultura dando início à atividade artística. Com pintura deu partida à Comunicação. A Palavra evoluiu para música. Esses foram os primeiros sons da criação.

No livro “Silmarillion” de J. R. R.Tolkien, ele nos brinda com a lúdica criação do universo do ponto de vista da Terra Média; os velhos deuses entoaram juntos uma música magnífica que libertou a vida. Essa musica se espalhou pelo universo, e trouxe luz para onde antes havia escuridão. O hinduísmo prega que Shiva (também chamado de “Deus da Destruição” e “Senhor da Dança”), cria perpetuamente, com o seu dançar, os ritmos do universo – os ciclos de criação (sarga) e destruição (pralaya).  Shiva é o mestre tecelão do espaço e do tempo. Ele não traz a criação e nem a destruição. Para ele o universo apenas foi e será. O que Shiva traz, é a constante transformação.

A “Teoria do Big Bang” é a mais aceita sobre a origem da Criação. Segundo ela, o Universo teria nascido a partir de uma concentração de matéria e energia extremamente densa e quente. Nesse momento, ocorre uma explosão, o chamado Big Bang, que desencadeia a expansão do Universo, depois a matéria arrefece e passados um bilhão de anos, a matéria agrega-se para formar as primeiras galáxias.  Quem garante que não é a mão de Deus, moldando o Universo?

Seja na Terra Média ou na nossa própria, nos primórdios do homem foram  encontradas enormes dificuldades, e apenas com muito esforço foi possível vencer os obstáculos e se manter no topo da cadeia evolucionária. O homem enfrentou as forças da natureza pela magia e, para explicar o desconhecido, imaginou a filosofia.  O cérebro é a faculdade da criação de conceitos: eu concebo – conceitos e personagens conceituais – eu sinto – sensações e figuras estéticas – eu funciono – funções e observações parciais. A pesquisa filosófica contemporânea renunciou aos grandes modelos teóricos das gerações anteriores para prestar atenção às ficções, à poesia, à pintura, ao cinema, ao mundo virtual. E as mitologias, os deuses, e as origens do universo e como tudo isso cabe dentro de um grão de areia no sonho de alguém.

Sim, eu vou falar do Sandman de Neil Gaiman, embora ele não seja um deus. Porque os deuses, segundo dizem, deixam de existir se você não acredita neles. E Morfeus, assim como seus seis irmãos, são Perpétuos. Não como “Os Eternos” de Jack Kirby (fã confesso do livro “Eram os deuses astronautas?” do suíço Erick Von Daniken), mas talvez algo semelhante aos “Novos Deuses” do mesmo autor. E talvez os sonhos sejam a “Fonte”. Ficou claro que a “FONTE”, o grande mistério que deu origem a tudo que existe, é versão de Jack Kirby para Deus. Ele criou sua própria mitologia quando introduziu ao mundo o conceito de seu Quarto Mundo. Dizia que com a morte do velhos deuses, uma nova raça de seres superiores surgiu, das cinzas de seus antepassados. O novo deu lugar ao velho, não diferente do conceito imortalizado pela mitologia grega clássica, onde os deuses olímpicos mataram seus pais, os velhos Titãs e assumiram sua divindade. O início da criação era o Caos, e este gerou Érebo (a parte mais profunda dos infernos) e Nyx (a noite). Estes fizeram nascer Éter (o ar) e Hémera ( o dia). Depois Gaia (terra) tornou-se a base em que todas as vidas têm a sua origem. Úrano (céu) casou-se com Gaia (terra). Todas as criaturas provêm desta união do céu e da terra (titãs, deuses, homens). Ainda segundo a mitologia, os Titãs teriam sido os primeiros habitantes do universo. O titã Prometheus criou o primeiro homem a partir de uma escultura de barro, misturando a ela suas lágrimas e depois trabalhando com paixão e dedicação, ele modelou uma estátua. Não fica difícil deduzir a inspiração de William Moulton Marston que usou o mesmo recurso narrativo na origem da sua Mulher Maravilha, personagem intimamente ligada os antigos mitos gregos. Prometheus estava orgulhoso de seu primeiro feito e decidiu criar uma multidão de estátuas. Então ele deu algumas características animais pra elas como: a coragem do leão, a força de um touro, a inteligência da raposa, o espirito amigável do cachorro, a rapidez e descrição de um gato, e o senso de observação e percepção de uma águia. No entanto foi a deusa Atena quem lhes concedeu sabedoria. Mas o homem gerado por Prometheus não era respeitoso com os deuses, e como punição, Zeus retirou deles o fogo. Prometheus então, decidiu roubar o fogo dos deuses e devolver para a humanidade. Como consequência, não apenas Prometheus foi punido com uma tortura eterna, como a humanidade também: o castigo de Zeus foi enviar para os homens a primeira mulher – Pandora.
        
Zeus tramou a sua vingança mandando que Hefestos moldasse uma estátua de uma linda donzela, deu-lhe o nome, e ordenou a cada um dos deuses que lhe dessem um de seus dons. Assim a nova criatura divina passou a ter muitos encantos. (Mais uma referência usada na Mulher Maravilha). Por exemplo, Afrodite deu-lhe a beleza e Apolo, a música. Hermes, porém, pôs no seu coração a traição e a mentira. Embora pareça misógino colocar uma mulher como objeto de punição, o mito conta que Pandora era linda e maledicente. Ela trazia consigo uma caixa a qual foi proibida de abrir, mas ela desobedeceu, assim como Eva da tradição cristã, que provou do fruto proibido, Pandora abriu a caixa. De dentro dela, foram libertados vários males no mundo. Então ela fechou a caixa rapidamente, restando dentro dela apenas a esperança. Mas por que a esperança estava dentro da caixa? Os gregos antigos gostavam de pensar na esperança como algo não necessariamente “bom”. Ela te leva a tentar controlar o futuro, a acreditar que tudo sempre ficará bem. Isso não era desejado pelos deuses. Existem também outras questões envolvendo a tradução literal da palavra “esperança” do grego antigo, sendo apontando por alguns estudiosos como “precipitação”. Mas isso é tema de um profundo estudo de interpretação.

Com alvorecer da Ciência,  os mitos perderam sua supremacia, embora não tenham sido, e talvez nunca venham a ser totalmente abandonados. Não poderia deixar de mencionar a revolucionária “Teoria da Evolução das Espécies” de Charles Darwin, que é fruto de um conjunto de pesquisas, ainda em desenvolvimento,  iniciadas pelo legado deixado pelo cientista inglês.

Em suas  pesquisas, ocorridas no século XIX, Darwin procurou estabelecer um estudo comparativo entre espécies aparentadas que viviam em diferentes regiões. Além disso, ele percebeu a existência de semelhanças entre os animais vivos e em extinção. A partir daí, ele concluiu que as características biológicas dos seres vivos passam por um processo dinâmico onde fatores de ordem natural seriam responsáveis por modificar os organismos vivos. Ao mesmo tempo, ele levantou a ideia de que os organismos vivos estão em constante concorrência e, a partir dela, somente os seres melhores preparados às condições ambientais impostas poderiam sobreviver. Contando com tais premissas, ele afirmou que o homem e o macaco teriam uma mesma descendência a partir da qual as duas espécies se desenvolveram. Contudo, isso não quer dizer, conforme muitos afirmam que Darwin supôs que o homem é um descendente do macaco. Em sua obra, “A Origem das Espécies”, ele sugere que o homem e o macaco, devido suas semelhanças biológicas, teriam um mesmo ancestral em comum. A ficção já nos deu um vislumbre do que aconteceria se os macacos e não os homens tivessem evoluído e se tornado a raça dominante na Terra, na clássica série “Planeta dos Macacos”.

Alan Moore, em seu livro “A Voz do Fogo”, nos lança uma teoria de que no início, éramos todos um, então, no momento conhecido como “Criação”, nos partimos em bilhões de pedacinhos fomos e jogados em todas as partes do universo. Quando morremos, retornamos à fonte de onde viemos, unimo-nos de novo a ela. Tornamo-nos inteiros novamente.

O filósofo Socrátes julgava que era sua missão, recebida de uma divindade interior – daimon – investigar o significado dos conceitos. Os budistas usam a expressão “Namastê”, que significa: “O deus que vive em mim saúda o deus que vive em você”. Eles acreditam que todos temos uma centelha divina em nós. Sócrates parecia acreditar que após a morte, iria ao encontro do mundo inteligível de onde a alma viera e aonde encontraria morada permanente.  O conceito do “daimon” foi de certa forma utilizado pelo escritor Philip Pullman no primeiro livro de sua trilogia “Fronteiras do Universo”, o qual se tornou o filme “A Bússola de Ouro”, que causou certa polêmica por ironizar a influência da igreja sobre a vida das pessoas, impedindo-as de buscar outras verdades que não aquelas já estabelecidas por ela.

Há algum tempo atrás, Neil Gaiman sonhou, e nos trouxe na forma de maravilhosas histórias, as metáforas que me fariam comparar certos aspectos da realidade com a mais fantasiosa mitologia. E ao me entregar a essa reflexão, descobrir algumas respostas que me satisfazem, e me ajudam a aceitar o incompreensível. E entender o que não pode ser explicado com palavras. Se existe um estado de transe mais profundo e místico que um sonho, eu desconheço.  Nos sonhos somos tudo o que podemos. Os limites são nossa própria vontade. Sonhar nos concede o maior de todos os poderes: criação.  Quando sonhamos, colocamos em prática nossa centelha divina, e fazemos valer nossa porção de “deus”.

Mas como aplicar esse dom de Criação no nosso dia a dia? Se a realidade é uma questão do que a transformamos, como podemos viver nessa dura realidade? É um fato científico que tudo o que existe, inclusive nós mesmos, é constituído de moléculas. Moléculas são energia. Energia é luz. Luz é do que são feitas as sinapses cerebrais. Sinapses são pensamentos. Pensamentos são sonhos.  Se sonhos podem ser moldados a nossa vontade, logo, a realidade também pode. Eu sei que falando assim parece fácil… mas a grande questão a se fazer é: nós queremos mudar?

A corrente filosófica do Realismo admite que o sujeito seja capaz de transcender a si mesmo no ato de conhecer. Afirma que as coisas não apenas existem independentemente do pensamento, mas que o ato de conhecer pode chegar a elas e chega. Magia não é o que as pessoas pensam; magia é simplesmente a verdade em que se acredita. Eu vivo dentro desse conceito, abraço a vida com as coisas que escolhi acreditar. Acredite que você é feliz e você será. Isso é um fato comprovado pela física quântica.

O que é baseado na experiência é fenômeno, o que é negado por ela é ficção. Viver é aceitar os limites, morrer. É preciso ter consciência de que tudo tem um começo e tudo tem um fim. Mas o que acontece entre esses dois eventos é o que faz tudo valer à pena.

As religiões pregam as religiões. Suas doutrinas, suas crenças, suas igrejas. Não importa muito a liberdade de escolha individual. Entendo que todo ser humano é divino e deve ser respeitado. Mesmo que pense diferente de mim. Uma religião é uma instituição que temos o direito de nos filiar ou não. Sem culpa, sem ameaças de danação eterna.  A versão do Inferno de Neil Gaiman para Sandman mostra Lúcifer como regente desse Reino sombrio, onde não pune os pecadores, mas deixa que eles mesmos se punam… quando ele se retira do inferno, muitos preferem continuar lá, sofrendo torturas intermináveis por acharem que merecem… lembra daquela pergunta que fiz ainda pouco? “Nós queremos mudar”?

O filósofo Jean Paul Sartre disse: “O Inferno são os outros”. Por que temos a necessidade da punição? Porque sem castigo não haveria recompensa? “Eu sofro agora, mas terei minha retribuição depois”. Essa é mais uma das milhares de falhas do comportamento humano? Isso importa? Deus está em tudo, inclusive em mim e em você.  Imagine que coisas tremendas somos capazes de realizar? Ou catastróficas? Que escolha será a mais acertada?

A verdade absoluta reside dentro nós. É aquilo em que acreditamos. Uma verdade individual que deve ser respeitada e nunca maculada.  A religião “certa” não é aquela que nos impõe sua verdade, mas sim aquela a qual nos ligamos por livre e espontânea vontade, seja ela qual for. Ou nenhuma, se assim o individuo desejar. Deus é muito maior que as instituições que foram criadas pelo homem e está acima de qualquer mesquinhez por ventura pregada por elas.

Alguém além de mim já se perguntou QUAL A RELIGIÃO DE DEUS?

Desde os primórdios do homem, existem os mitos. Toda cultura acredita em uma força superior com quem pode contar. Cada tribo com a sua própria noção de “Deus”, seja por meio do “inconsciente coletivo” ou por intervenção divina. Não pretendo lançar dúvidas sobre a fé individual de ninguém com este artigo… mas sempre vou encorajar as pessoas a questionar… chegar as suas próprias conclusões, sem medo ou culpa. Temos liberdade para acreditar no que quisermos, e o dever de respeitar quem possui crenças diferentes ou mesmo aqueles que não acreditam em nada. Eu acredito que Ele nos fez para sermos felizes, e para que sejamos capazes de trilhar nosso próprio caminho. Santidade é o ato de amar sem pedir nada em troca. Saber perdoar, mesmo quando todos esperariam que você não o fizesse. Mas cada um deve seguir seu caminho livre de interferências, procurando apenas estar em paz com sua própria consciência.

Nossa mente é nosso Santuário. E dentro dessa Terra Santa, coloquemos em prática o maior dom que nos foi concedido: Sonhar.

Pratiquem bons atos de Criação.