O Reino dos excluídos




Durante muito tempo, interpretei o sermão da montanha, mais precisamente, as bem-aventuranças como virtudes para se alcançar nesta vida.

Lia com as lentes que me eram dadas, pelos doutores da teologia.

Encarava as beatitudes – assim também chamadas – como regras, preceitos, normas e comportamentos descritos para qualquer cristão que quisesse, entrar no Reino dos céus.

Como por exemplo, o celebre John stott que disse:
 
“As bem-aventuranças descrevem o caráter equilibrado e diversificado do povo cristão...”
 
“....As bem-aventuranças são especificações dadas pelo próprio Cristo quanto ao que cada cristão deveria ser.”

Martyn Lloyd Jones interpretando “os pobres de espírito” das bem-aventuranças diz: “Necessariamente, essa (pobre de espírito) é a primeira das bem-aventuranças devido à excelente razão que ninguém pode entrar no reino de Deus a menos que seja possuidor desta qualidade.”

Enfim, centenas de outras interpretações do cristianismo histórico, seguem a mesma linha de coerência.
 
Ou seja, não há duvidas sobre as bem-aventuranças, é algo homogêneo e unânime na cristandade.

Só tem um problema, é que eu decidi não mais ler as escrituras com as lentes que me são dadas.

Mas sim, pensar livremente.

Hoje, já não mais concordo com essas interpretações históricas – digo isto, com muito respeito aos grandes vultos do cristianismo, que prestaram o grande favor ao Reino de Deus.

Eis algumas razões:

1- Contexto gramatical.
 
Quem disse que o sermão da montanha começa no capítulo cinco de Mateus?
 
A bíblia originalmente, não possui divisões de capítulos e versículos.
 
Foi o Prof. Stephen Langton que, no ano de 1227 dC a dividiu em capítulos, para facilitar a sua leitura e localização.
 
Já os versículos, foram organizados, no ano de 1551 dc, pelo Sr. Robert Stephanus.

Fazendo uma acurada e minuciosa investigação, o texto do sermão da montanha, não começa no capítulo cinco, mas provavelmente no capitulo quatro e versículo vinte e três, que diz:

“E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.

E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava.

E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e de além do Jordão.” (Mt 4 v 23 – 25)

2- Contexto Histórico.
 
Dizem os historiadores que, na época de Jesus, o povo pobre era massacrado e oprimido pelo império Romano.
 
As pessoas as quais, Jesus se dirige, são indefesos, injustiçados e perseguidos.

Portanto, ouso re-interpretar o sermão da montanha, dizendo:

Pobres de espírito: Não são – como gostaríamos que fossem – nós, humildes espirituais.
 
Mas sim, pessoas desprovidas de inteligência, pobres materiais que vivem mendigando para sobreviver.

Os que choram: Não são aqueles sensíveis espirituais, dependentes de Deus, mas antes, os oprimidos que choram pelas injustiças e dramas humanos.

Os mansos: Não são os que têm o temperamento controlado pelo Espírito Santo, mas antes, os dominados pelos sistemas de poder, que são esmagados. Que não conseguem reagir, não tem forças para lutar e reverter a situação.

Os que têm fome e sede de Justiça: Não somos nós, pessoas boas que sofrem – ou pelo menos tenta sofrer – a dor do outro, mas antes, os que sofreram injustiças nesta vida. 

Por exemplo, a mãe que perdeu seu filho, o desgraçado na África, que não tem o que comer em um mundo de Bilionários, os doentes terminais que mal são atendidos nos hospitais.

Misericordiosos: São pessoas que ajudam as outras naquilo que ela mesma perdeu (sofreu).
 
São pessoas miseráveis que tem um coração (daí a expressão, “miseri” + “cordia”) generoso para com os desgraçados.

Limpos de coração: Não são pessoas santas, seguindo um padrão de perfeição moral que é ditado em formas de regras pela igreja.
 
Mas antes, as pessoas ingênuas, bobas e simples que, muitas vezes são facilmente enganadas e passadas para trás.

Pacificadores: São os que desejam a paz, odeia as brigas e guerras.

Os que sofrem perseguições: Enfim, o sofrer perseguição, resume bem as bem aventuranças.

Pensem comigo.........Quem são os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, misericordiosos, limpos de coração, pacificadores, os que sofrem perseguições, descritos por Jesus?

Quem no mundo que vivemos, sofre mais o drama humano?

A grande boa nova deste texto é que:

“Essas descrições da bem aventurança, não são de virtudes que devemos almejar ou alcançar, mas de pessoas que foram esmagadas pela vida.

Essas pessoas não são do Reino de Deus por serem assim, mas apesar de serem assim. Ninguém precisa desejar sofrer, como se houvesse virtude no sofrimento, mas apesar de sofrerem são amadas por Deus e bem vindas no seu Reino.”

Por isso é que Jesus disse: “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça” (Mt 6 v 33)

Buscar o Reino, não é programações da igreja:

Evangelizar (leia-se, fazer proselitismo), dar dízimos e ofertas, participar de campanhas, trabalhar na “obra”, ter cargos ministeriais – ou seja, ativismo religioso, não é a essência do Reino.

Mas pasmem – os evangélicos mais conservadores – o Reino de Deus é feito por, de e para as pessoas.

Buscar o Reino é ajudar o oprimido e necessitado, que tem de ser acompanhado por justiça pois, não há paz sem justiça.

Justiça! Essa é a prioridade do Reino de Deus.

Aliás, não somente o Reino de Deus é um reino de pessoas, mas o próprio Rei deste Reino é visto nas pessoas pobres e oprimidas.

“E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt 25 v 40)

Pois a religião de Jesus, não é confessional – como bem expressou o Gresder: “Não são palavras mágicas na hora de morrer, não são senhas bíblicas e evangélicas que a pessoa fala com a boca.” – mas de praticidade:

Religião dos evangélicos (confessional):
“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus” (Mt 7 v 21)

Religião de Jesus (prática):
“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica” (Mt 7 v 24)

“Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.” (Mt 7 v 12)

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.