Ambivalência é o outro nome da alma!






De onde procede a ambivalência humana?

Por ambivalência entenda-se essa capacidade contraditória de amar o que se odeia e odiar o que se ama; ou ainda: de desejar ardentemente aquilo que se teme, enquanto nada nos seduz mais do esse próprio medo!...

Sim, de onde procede a ambivalência humana?

O relato mais antigo de tal nascedouro nos vem do livro de Gênesis. É de lá que nos vem a primeira narrativa da ambivalência dos seres humanos. Isto porque Deus dissera: “Podem comer de tudo... Menos da árvore que está no meio do jardim; pois, se dela comerem [...] vocês morrerão!” Depois vem a Astúcia, a Serpente, e mostra a árvore da morte como algo que escondia o segredo de Deus. “Que nada! É que Deus sabe que se vocês comerem se tornarão como Ele, conhecedores de tudo, tanto do bem quanto do mal.”

Assim, ambivalência é desejo pelo bem e pelo mal, simultaneamente. É a mesma árvore. É a mesma coisa. E os opostos estão ali presente, apavorando tanto quanto seduzindo.

Ora, esse foi o fruto que comemos. E o seu conteúdo é pura ambivalência. Daí sermos seduzidos pelo que nos faz mal em razão de que nele possa existir algum bem.

E mais: mesmo que se diga que algo mata, somos capazes de exercermos uma seletividade que separa a morte da própria morte [...] pelo usufruto daquela coisa que nos vai matando enquanto ela não nos mate de vez.

Daí decorrem todos os nossos prazeres mortais e todas as nossas escolhas de morte lenta!

Afinal, existe uma doçura em tudo o que envenena; existe um segredo em tudo o que é proibido; existe uma existência desconhecida em tudo o que não se pode; existe alguma forma de existência em tudo o que conduz à morte!
  
Na realidade esse mecanismo psicológico está presente em tudo o que fazemos — dos nossos hábitos alimentares danosos aos nossos vícios; dos nossos prazeres pecaminosos aos nossos pânicos de suas conseqüências; de nosso ardente desejo de transgredir ao pavor das implicações.

Assim é que a morte é a maior fobia humana, na mesma medida que desafiá-la é nosso maior excitamento!

Sabemos que vamos morrer, mas queremos morrer sorvendo a morte, ainda que sob o disfarce da existência.

Existência é o nome da capa com a qual cobrimos a morte a fim de não chama-la pelo nome!

Existir é o nosso modo de andar para a morte sem assumirmos que é na direção dela que estamos caminhando!

Assim se diz de alguém que comeu todos os frutos da morte e que veio a morrer de todos os males possíveis:

“Viveu pouco, mas viveu intensamente!”

Ainda: “Foi trágica a sua existência, porém, inegavelmente destemida e intensa!”

Ou como diria o poeta de bar: “Eu bebo sim; tem gente que não bebe e tá morrendo!”

É por esta razão que nos benzemos antes de pular para o abismo, ou antes de entrarmos num ringue de lutas.

É também por esta razão que todo transgressor é supersticioso, pois, não podendo orar, apela para a sorte como divindade!

A mais denunciadora de todas essas falas da ambivalência é aquela que faz o sujeito entrar, por exemplo, num motel a fim de trair alguém, e, na entrada, soltar esta: “Seja o que Deus quiser!”

Ou ainda quando se sabe que algo nos fará mal, mas, mesmo assim, se encara o bicho dizendo: “Deus me perdoe, mas eu vou assim mesmo!”

Essa ambivalência é algo que se vê no medo seduzido que quase toda criança tem por terror e assombração. Assim, pedem para você não assustá-las, mas se você ameaça acabar a brincadeira [...] elas fazem todos os protestos. Querem até saber parte das trucagens das assombrações, mas amam quando você deixa certos aspectos sob o véu do mistério.

Romanos Sete é a narrativa suprema da ambivalência humana. Sim, desse mal que detestamos e ao qual devotamos energias inconscientes e até mesmo à revelia da consciência. De tal modo que fazemos o que detestamos, enquanto detestamos o que nos seduz até as fimbrias mais profundas do desejo mórbido.

Morbidez é o prazer pela e na morte. Assim se pode dizer que todo ser humano carrega, em graus diferentes, profunda morbidez no seu ser — ainda que nos custe crer em tal coisa!

Portanto, todos são ambivalentes e mórbidos, e, portanto, todos carecem da glória e da graça de Deus!

A salvação, em todos os seus aspectos e nuances, começa com tal admissão. E quem não for capaz de assim se enxergar jamais perceberá os sutis intrincamentos de sua própria perdição!

Pense nisto, e não fuja de enxergar-se; pois, sem tal auto-percepção não existe Graça para o coração!