Um Deus que chora – o sentido da utopia cristã




As imagens de Deus dominantes nas religiões atuais nasceram, em sua grande maioria, no quadro da cultura patriarcal. É um Deus Senhor do céu e da Terra, que dispõe de todos os poderes, justiceiro e Pai severo. Antes sob a cultura matriarcal, hoje atestada como uma das fases da história humana, vigente por volta de vinte mil anos atrás, a imagem de Deus era feminina, da Grande Mãe, da Mãe dos mil seios, geradora de toda vida. Produziu uma cultura mais em harmonia com a natureza e profundamente espiritual.     

Nosso inconsciente que é pessoal e coletivo guarda na forma de arquétipos e de grandes sonhos estas experiências feitas sob as duas formas de organizar a convivência humana, sob a figura do pai e sob a figura da mãe. Elas estão presentes em nós e sempre vêm à tona pelo imaginário, pela arte, pela música e por símbolos de toda ordem.

Mas há uma outra imagem, presente na história das religiões e também na tradição judaico-cristã: ela fala do Deus que se faz criança, que não julga mas caminha junto, um Deus que chora pela morte do amigo, que tem pavor face à morte próxima e que finalmente morre, gritando, na cruz. Vários místicos cristãos se referem ao Deus que sofre com os que sofrem e que chora por aqueles que morrem. Juliana de Norwich, grande mística inglesa (+1413), viu a conexão existente entre a paixão de Cristo e a paixão do mundo. Numa de suas visões diz:"Então vi que, no meu entender, era uma grande união entre Cristo e nós; pois quando ele padecia, padecíamos também. E todas as criaturas que podiam sofrer sofriam com ele". William Bowling, outro místico do século XVII,  concretizava ainda mais dizendo:"Cristo verteu seu sangue tanto pelas vacas e pelos cavalos quanto por nós homens". É a dimensão transpessoal e cósmica da redenção.

Professar, como se faz no credo cristão, que Cristo desceu até os infernos significa expressar existencialmente que ele não temeu experimentar o desamparo humano e a última solidão da morte.

Um grande biblista italiano recentemente falecido, G. Barbaglio, em seu derradeiro livro sobre o Deus bíblico, amor e violência ,  refere  um midrash judaico (um relato) sobre o choro de Deus. Quando viu os cavaleiros egípcios com seus cavalos serem tragados pelas ondas do Mar Vermelho depois da passagem a pé enxuto de todo o povo de Israel, Ele não se conteve. Chorou. Os egípcios não eram também  seus filhos e filhas queridos e não apenas os de Abraão e Jacó?

É rica a tradição bíblica que fala da misericórdia de Deus. Em hebraico misericórdia significa ter entranhas de mãe e sentir em profundidade, lá dentro do coração. O Salmo 103 é nisso exemplar   ao afirmar que "Deus tem compaixão, é clemente e rico em misericórdia; não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre…porque como um pai, sente compaixão pelos seus filhos, porque conhece a nossa natureza e se lembra de que somos pó;  sua misericórdia é desde sempre e para sempre". Haverá palavras mais consoladoras que estas para os tempos maus nos quais vivemos?

É a partir deste transfundo que deve ser entendida a ressurreição de Cristo. Se a ressurreição não for a ressurreição do Crucificado e com ele de todos os crucificados da história, seria um mito a mais de exaltação vitalista da vida e não resposta ao drama do sofrimento que ele comparte e supera. Assim a jovialidade e o triunfo da vida detém a última palavra. Este é sentido da utopia cristã.