Como podemos justificar as crenças básicas?



 

Se o solipsismo for verdadeiro o caro leitor não existe: 

eu é que existo


“O solipsismo é a perspectiva (...) de que apenas eu e as minhas próprias experiências são reais. Os objectos físicos e as outras mentes não têm existência a não ser na minha mente. Os críticos sublinham que, na prática, ninguém se comporta como um verdadeiro solipsista.” Aires Almeida, Dicionário Escolar de Filosofia.

Um verdadeiro solipsista consideraria que só ele existe realmente: todas as outras pessoas e restantes coisas do mundo não existiriam de fato, seriam apenas representações mentais suas.

Mas imaginemos que o matemático, além de dizer o que disse, também declarava a inexistência das outras pessoas e restantes coisas do mundo. Nesse caso, estaria a comporta-se como “um verdadeiro solipsista”?

Provavelmente não. Se o matemático acreditasse realmente que só ele existe porque falaria com o George? Porque lhe daria um nome? Porque efetuaria um cálculo matemático para demonstrar a sua inexistência?

Assim, uma pessoa que argumente para defender o solipsismo está simultaneamente a negá-lo, pois se argumenta (se apresenta razões para convencer) é porque afinal acredita que existe pelo menos outra pessoa.

A crença de que as coisas que vemos e sentimos são reais é uma crença básica. Tal como a crença que as outras pessoas existem realmente e têm mentes semelhantes à minha. Uma crença básica é uma crença em que as outras crenças se apóiam, ou seja, é uma crença que serve de justificação às outras.

Por exemplo: se não fosse a minha crença de que existem realmente outras pessoas e que elas têm mentes parecidas à minha não faria sentido a minha crença de que devo tentar evitar os erros de português, tal como não faria sequer sentido estar a escrever este post.

Utilizamos as crenças básicas para justificar outras crenças. Mas como podemos justificar as próprias crenças básicas? Qual é o seu fundamento? Por outras palavras: qual é a justificação da justificação?

Parece-nos muito evidente que as outras pessoas e as restantes coisas existem. Mas como é que podemos provar que realmente existem? E se tudo isso não passasse afinal de uma ilusão? Nos sonhos achamos que muitas coisas são claras, evidentes, reais... E se a nossa vida fosse uma espécie de sonho?

Nesse caso o solipsismo teria alguma razão de ser: o sonhador é real, mas as coisas com que sonha são meras representações mentais e não existem realmente.

Claro que se eu acreditasse que é realmente assim, nem sequer estaria a escrever isto. Mas isso não prova que aquilo em que acredito é real, pois eu poderia estar enganado - poderia estar a sonhar que não estou a sonhar. Como provar então que não estou enganado e que as pessoas e as coisas que vejo são reais?

Ou seja: como provar a minha crença de que o solipsismo é falso?