Religião e teorias do Tudo



 

Há um anseio irreprimível no espírito humano por uma visão total e por uma ordem que permanece mesmo dentro das desordens que constatamos. Concretamente vivemos no fragmento. Mas o que buscamos, na verdade, é o Todo. Os grandes sistemas religiosos e filosóficos procuram construir  visões totalizantes do ser, de sua origem, de seu devir e de sua plena manifestação.

A ciência moderna não escapa desta insaciável busca. Desde que Newton introduziu a efetiva matematização da natureza surgiu o intento de uma "Teoria de Tudo"(TOE: Theory of Everything), também chamada de "Teoria da Grande Unificação" (TGU), ou a "Teoria-M" (Mater), um quadro geral que abrangesse todas as leis da natureza e que nos brindasse com a explicação final do universo.

Há dois livros clássicos que resumem os caminhos e descaminhos desta questão: o de John D. Barrow, Teorias de Tudo. A busca da explicação final (Zahar1994) e o outro de Abdus Salam, Werner Heisenberg e Paul A. M. Dirac: A Unificação das Forças Fundamentais. O grande desafio da física contemporânea  (Zahar1993). Sabemos que os últimos anos de Albert Einstein foram dedicados, quase obsessivamente, a esta questão, sem alcançar nenhum resultado satisfatório. Recentemente a questão foi retomada com especial vigor por Stephen  W. Hawking em seu recente livro Uma nova história do tempo (Ediouro 2005).

Logo no início, dá-se conta da dificuldade desta tarefa, pois, consoante a mecânica quântica, o princípio de indeterminação parece ser a marca  fundamental do universo assim como o conhecemos. Como enquadrar realidades que são, por princípio. indetermináveis, bifurcáveis  e potenciais numa única fórmula? Confessa: "Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, compreensíveis para todos, e não apenas para uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos  capazes de participar da discussão de por que é que nós e o universo existimos. Se encontrarmos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo último da razão humana – porque, então, conheceríamos a mente de Deus"(p.145).

A ilusão destas teorias é imaginar que tudo pode ser reduzido à física (clássica ou quântica) e traduzido na linguagem da matemática. A realidade, no entanto, se apóia, sim, na física mas vai muito além dela.  Por isso, John Barrow modestamente reconhece: "Não encontramos nada de matemático com relação a emoções e julgamentos, música e pintura"(p.272).Toda a vida cotidiana, o que move os seres humanos em sua busca de felicidade e em sua tragédia não cabem na concepção física do "Tudo". Pouco se me dá a imensidão dos espaços cósmicos cheios de pó sideral, de grávitons, elétrons, neutrinos e átomos, se meu coração está infeliz por não poder dar amor a quem amo, por  ter perdido o sentido da vida e não encontrar  consolo junto a  Deus.

Aqui outro é o discurso e outros são os especialistas a serem invocados. Destas questões de vida e de morte falam os textos sagrados de todas as religiões e das tradições espirituais. Talvez o místico William Blake (+1827) nos inspire pois na parte nos faz surpreender o Todo: "ver o mundo num grão de areia/e o paraíso numa flor do campo/segurar o infinito na palma da mão/e a eternidade numa hora".