O Sentimento trágico como herança



 



O irrefreável anseio moderno em tentar entender a origem do universo físico, através da leitura de milhares de livros, parece ter relegado para um nível secundário o interesse do homem em saber mais sobre si mesmo, isto é, sobre sua própria psique.

Nos tempos difíceis que estamos atravessando, a velha máxima de Sócrates, mais do que nunca, tem ressoado forte nos nossos ouvidos: “Conhece-te a ti mesmo!”

Freud, graças as suas profundas observações e suas prolongadas auto-análises conseguiu formular e desenvolver brilhantemente a teoria dos desejos na esfera “mãe- pai- filho ou filha”. Teoria essa que revolucionou o saber sobre as entranhas humanas. Foi partindo da história mítica e trágica do Rei Édipo que ele foi buscar elementos latentes existentes em uma área até então desconhecida, determinante das nossas ações, racionalizações e atitudes — O Inconsciente. Foi dessa maneira, que ele conseguiu explicar a gênese do primeiro conflito humano, e sua resolução com o corte do cordão umbilical que alienava a criança à mãe.

O sentimento trágico uma vez inscrito no inconsciente no plano de nossa primeira experiência infantil, é que vai nos marcar pelo resto de nossas vidas. Todas as formas de solidão e desamparo, dali em diante, serão repetições dos primeiros afetos sentidos nos instantes iniciais de vida, inscritos no disco virgem do nosso cérebro.

Esse sentimento trágico dos nossos primórdios nos revisita com toda sua carga desestabilizadora e desorganizadora, quando enfrentamos catástrofes e separações dolorosas. Nessas ocasiões nos falta chão humano em busca de um sentido para racionalizar o inapelável. É em meio às tragédias que surge um agudo desespero, que nada mais é que ecos distantes daquele sentimento de desamparo infantil internalizados no inconsciente, por ocasião da primeira e grande ruptura, sentimento esse que se expande em nós como uma dor que não se sabe donde vem.

O sofrimento nascido das separações primeiras — NASCIMENTO, DESMAME —, se transformará no pilar básico da individuação progressiva da criança até se tornar um animal adulto. Hoje, as normas civilizatórias que interditam a realização instintiva dos nossos desejos mais arcaicos, têm as mesmas nuances daqueles primeiros cortes, ao reacender em nós o desprazer decorrente da primeira proibição. Todas as formas de desamparo e solidão que experimentamos em nosso vivenciar, foram uma vez sentidas de forma inconsciente. Os enigmas fascinantes dos sonhos absurdos que temos, constituem a maior prova de que existe algo em nós que trabalha mesmo quando a consciência está adormecida. 

A reprise da primeira angústia, representada pelo desmoronamento do muro sentimental materno e paterno que nos protegia nos primeiros meses de vida, surge toda vez que enfrentamos as durezas da vida.

O paradoxo da existência e do existir diz que nós caminhamos sempre para frente em nossa jornada, na busca inconsciente de um passado. Esse paradoxo também diz que a rota do nosso caminho não é uma reta. Fica claro que “caminhar num círculo” é uma metáfora. E o que ela quer dizer? Ela simplesmente diz que, é com o passar dos anos, que podemos chegar mais perto de nosso início; chegar mais perto do ponto de onde partimos. Dessa maneira, o ponto de chegada é o mesmo da partida. A aproximação do ponto inicial pelo caminho da ida que é também o da volta, oferece-nos a oportunidade de ver as nossas origens PELA FRENTE, uma vez que, ao iniciarmos os nossos primeiros passos, estávamos impedidos de olhar para trás.

É do poço quase insondável dos afetos reprimidos, e não de um palácio denominado “razão”, que jorra a água que nos faz entender que somos diferentes dos outros animais. Disse uma vez, Chesterton: “Se observássemos atentamente um gato e um ser humano, veríamos que enquanto o primeiro raciocina, o último rir e chora”. 

O sentimento trágico do qual somos portadores, aponta para uma direção, que é a de promover a conciliação ou amarração entre o “desejo incestuoso” que nos foi obstado no antigo jardim edênico e o desejo de excluir e de despossuir o nosso corpo da roupagem representada pelas pesadas camadas (crises existenciais) que o tempo se encarregou de nos vestir. O sentimento trágico que nasceu da expulsão dolorosa do nosso ÉDEN tem tudo a ver com o desamparo inevitável do nosso OCASO.

Choramos ao nascer. No entanto, não compreendemos que o choro trágico de hoje é o mesmo de ontem, da nossa estreia no grande palco de assombração, que é a vida.