O caminho da espiritualidade autônoma






Paulo Freire é uma exceção; um dos raros brasileiros reconhecido na academia internacional. Aprendi a lê-lo nesta fase tardia da minha caminhada espiritual. Surpreso com a sua sensibilidade e rigor intelectual, já degustei alguns dos seus clássicos, como “Pedagogia do Oprimido”, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 2005.

O capítulo 3, especialmente, encantou-me. Nele, Freire trata do que chamou de “dialogicidade”. Diálogo não só para conversar, mas para transformar o mundo, ou de “pronunciar o mundo”. Pois o diálogo “é este encontro dos homens [e mulheres], mediatizados pelo mundo para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu. Esta é a razão porque não é possível o diálogo entre os que querem a pronúncia do mundo e os que não a querem; entre os que negam aos demais o direito de dizer a palavra e os que se acham negados deste direito”.

Abismado com a espiritualidade (embora não religiosa) de Freire, concordo que o amor “como ato de valentia, não pode ser piegas; como ato de liberdade, não pode ser pretexto para a manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade. A não ser assim, não é amor”.

Minha esperança é que se resgate Freire entre os evangélicos; caso os líderes se valerem de seus conceitos haverá, certamente, menos espírito de rebanho nas igrejas.

O legalismo, que infelizmente ainda predomina no movimento evangélico, não gera cristãos com os anseios da liberdade que Paulo, o apóstolo, ensinou: “Foi para a liberdade que Cristo lhes libertou”. Freire afirma que uma liberdade desse tipo “requer que o indivíduo seja ativo e responsável, não um escravo nem uma peça bem alimentada da máquina. Não basta que os homens não sejam escravos; se as condições sociais [ou religiosas] fomentam a existência de autômatos, o resultado não é o amor à vida, mas o amor à morte (p.62)

Portanto, “somente com a supressão da situação opressora é possível restaurar o amor que nela estava proibido”.

“Se não amo o mundo, não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo.

Não há, por outro lado, diálogo, se não há humildade. A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante.

O diálogo, como encontro dos homens para a tarefa comum de saber agir, se rompe, se seus pólos (ou um deles) perdem a humildade.

Como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro, nunca em mim?

Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros ‘isto’, em quem não reconheço outros eu?

Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são ‘essa gente’, ou são ‘nativos inferiores’?

Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa dos homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?

Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela?

Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?

A auto suficiência é incompatível com o diálogo. Os homens que não têm humildade ou a perdem, não podem aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais” (p.93).

O caminho da espiritualidade autônoma, livre e madura, é longo. Reconheço que poucos ousarão entrar pela porta estreita; não importa, nela está a liberdade e a vida.


Soli Deo Gloria.