Não creio em milagres







Nada na igreja me chateia mais do que os chamados “testemunhos”. Há poucos dias me falaram de uma pessoa que num culto foi curada de terríveis dores no corpo. A família dela ainda está em festa. Ao mesmo tempo uma senhora, a beira do desespero, pedia oração pela vida da sua filha, ainda jovem, que estava na UTI, vítima de um câncer raro, já em estado terminal. Imagine o turbilhão de angústias e dúvidas que invadem a alma de uma mãe que ouve uma pessoa dizer que foi receptora de um milagre e que Deus foi presente agindo em seu favor, enquanto que na sua própria vida, a espera e o silêncio tem sido a resposta?

Não posso crer que Deus atua para os que menos necessitam como fazem os políticos insensíveis e inescrupulosos. Mas a fé evangélica invariavelmente é norteada pela lógica contabilista e mercantil da meritoriedade em detrimento da emergência. E pior, o modelo adotado evidencia a causalidade como principal fator de punição e recompensa.

Particularmente, não me impressiono com os supostos casos de curas como respostas à fé e não me revolto no caso da ausência delas. Pois acredito que as curas classificadas como miraculosas são na verdade fenômenos que ocorrem por sugestão e/ou são provocados pela alteração do organismo, mas com uma coisa em comum em sua ocorrência: elas sempre possuem como origem os estímulos externos.

Inclusive, uma coisa parece certa em meios científicos; aquilo que hoje ganha contornos espetaculosos, no futuro será algo comum, natural e até banal.

Quando entendermos um pouco melhor essa questão, iremos excluir Deus dessa injustiça ou fria que nós o metemos. Isto é, de estar na sua vontade a causa pelo sucesso de uns e o fracasso de outros na busca por uma intervenção divina face às suas demandas.