O Deus humanamente humano



 



A mensagem central da nossa fé é a de que; “Jesus é o Emanuel – Deus conosco – em forma, carne, vida, cor, cheiro, sentimentos, pensamentos e desejos humanos, que entregou a sua própria vida, crucificado e morto em uma cruz e ao terceiro dia ressuscitou corporalmente”.

Ou seja, o Cristo ressurreto, assentado à direita de Deus, ainda é o homem-divino!

Parece-me que, há mais dificuldades de se falar e crer a respeito da humanidade de Deus no meio teologizado dos evangélicos, do que para as pessoas não cristãs ou hereges.

Isto se deve a:

1-Influências filosóficas.

A helênica foi a mais fundamental nesse processo de divinizar o divino (desculpem-me, minha proposital redundância, mas não consegui resistir). Agostinho, discípulo da escola neo-platônica, levou e imputou a ideologia grega do que é ser Deus aos compêndios sistematizados da teologia.

2-Contexto histórico.

Mergulhado em um contexto dos grandes impérios e Reis, chegando até a época dos senhores feudais, se projetou um “deus” déspota.
Pois a lógica é a seguinte: Se os homens-mortais tinham (ou tem) o poder de controlar e mandar em pessoas, quanto mais “deus”.

3-Imaginação dos homens.

No subconsciente-inconsciente, o homem projeta em Deus, a imagem de um super-homem que, comanda e controla a tudo e a todos com o seu super-hiper-mega-ultra-poder.

Vêem em Jesus, um “deus-estrategista”, que vive com uma prancheta na mão controlando e contornando todas as circunstancias.
Que diz: Vou por câncer nesta mulher aqui, matar um filho ali, fazer o avião cair e matar 200 pessoas lá, vou dar uma mãozinha acolá para aquele rapaz ser atropelado, tudo para um propósito, para colher no futuro.
Ou seja, um deus-desumano.

Porém, fazendo uma acurada análise dos textos bíblicos, eis minhas percepções:

Por toda a bíblia, são duas, as maiores forças de Deus:


1-Todo-poder.
2-Todo-amor.


Toda vez que Deus, utilizou como recurso o seu todo-poder, não foi suficiente para gerar uma Fé e amor consistentes no coração das pessoas.

Velho testamento: Milagres extraordinários e extraterrestres de Deus ao povo de Israel, mesmo assim eles murmuram, duvidaram e foram infiéis para com Deus.

Novo testamento: Jesus curou e realizou milagres a multidões incontáveis, mas na hora “h”, o povo gritou que libertassem Barrabás e crucifica-se Jesus.

E finalmente, o poder é passivo de imitação.
O diabo imita o poder – estão lembrados dos magos de Faraó no Egito, e dos falsos profetas vaticinados no novo testamento? – mas não consegue e nem conseguirá imitar o Amor de Deus.
Lembrem-se todos; um “deus” poderoso, mas sem bondade e amor, seria um demônio encarnado em poder.

A verdadeira religião, não é a que consegue provar o poder de Deus, pois esse é um axioma – aquilo que é tão obvio que não precisa ser provado – teológico-filosofico, mas antes o que revela o seu Amor no verbo encarnado.

A humanização de Deus é a nossa grande prova do Amor e solidariedade Dele com a raça humana.

Quando fazemos uma leitura atenta dos evangelhos, percebemos que a ênfase do mesmo não recai em um Jesus divino, mas o contrário, num Deus-humano, pois diversas vezes, Jesus referia-se a si mesmo como filho do homem.

A revelação de Jesus é de tamanha loucura que por isso eu creio. Não poderia ser elaborada por uma mente humana, que sempre projeta um Deus imenso-divino-poderoso, que está acima de nós.

Ai vem os evangelhos e paradoxalmente nos diz que Deus se fez homem, que pode ser tocado, abraçado, rejeitado, morto, que venho para servir e não para ser servido pelos homens.

Pois em Jesus, Deus chora o nosso choro, sente a nossa dor, solidão, desespero, angustia, desprezo, morre a nossa morte, mas também sente a nossa alegria, se diverte tomando vinho – vinho mesmo, e não suco de uvas – e comendo com os publicanos e prostitutas, dançado nas “baladas” judaicas, sorrindo com as trapalhadas de Pedro, atraindo as criancinhas com a sua simpatia e se revoltando contra as manipulações dos religiosos de sua época.

Os fariseus querendo denegrir Jesus, logo o rotularam, mas o que eles não sabiam que, justamente esse rótulo, seria a mais bela de todas as expressões bíblicas a respeito de Deus, a saber; “AMIGO DOS PECADORES!” (Mt. 11:19)

Enfim, se Jesus viesse desta mesma forma para a terra hoje, os evangélicos seriam os primeiros a crucificá-lo.

Pois Cristo é uma incoerência filosófica-teológica.

Porque (in?)conscientemente o que os evangélicos querem é um Deus poderoso, que resolva os seus problemas.

Por isso a grande temática que reina nos cultos é o Deus soberano, forte, guerreiro, dominador, prodigioso, nunca o Deus que se fez carne, o Deus de amor eterno.

Enquanto nós estamos querendo teologizar Deus, Ele mesmo se propôs a si dês-teologizar.

Buscamos o caminho de uma espiritualidade transcendental, que se eleva acima dos mortais, porém esquecemos que o Caminho a Verdade e a Vida, é o caminho da humanização.

Somos convocados e desafiados por Deus, não a nos divinizar, mas nos tornamos mais humanos, mas parecidos com Jesus de Nazaré, que andou pelas ruas poeirentas da palestina.

Enquanto os evangélicos não aprenderem essa valiosa lição de que, o Jesus que temos que imitar, não é o descrito em apocalipse; como Leão da tribo de Judá, vitoriosamente triunfante, guerreiro, Senhor dos Exércitos, Reis dos Reis e Senhor dos Senhores, Todo-poderoso, Alfa e Omega, divinizado e exaltado pela sub-cultura evangélica, como a força maior, Deus dos deuses.

Mas antes, o Jesus esvaziado, servo, indefeso, humilde, carpinteiro, que lavou os pés em poeirentos dos discípulos, que sendo Deus, chorou compassivamente diante do tumulo de seu amigo lazaro e impotentemente diante da rebeldia do povo de Israel, que veio apregoar o seu Reino, que não é deste mundo, pois é um Reino de amor, misericórdia, solidariedade, amizade, afeto, companheirismo, continuaremos arrogantes, mesquinhos, poderosos é verdade, mas cada vez mais distante de Jesus.

Ou como diria Leonardo Boff: “É que Jesus era tão humano que só poderia mesmo ser Deus"

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.