Nos jardins do Éden






O Senhor acabara de criar o mundo. O diabo assistira a tudo em silêncio, de braços cruzados, como um professor desconfiado que examina a prova de um aluno, e suspeita de cola, com um olhar depreciativo, como que desvalorizando a obra divina. O diabo, bem informado, conhecia outras versões para a criação, mais antigas que essa das Sagradas Escrituras.

Não havia dúvida que os sacerdotes de Javé copiaram elementos da cosmogonia de povos vizinhos. Em matéria de originalidade, os escribas hebreus não passavam de alunos sem imaginação que se contentavam em colar o trabalho dos outros.
 
Um pouco incomodado com a postura desdenhosa do companheiro, o Criador perguntou, O mundo não ficou uma beleza? Não vejo graça nenhuma, respondeu o diabo. Falta alguma coisa. O Senhor perguntou, impaciente, Falta o quê? E o diabo respondeu, Crie alguém parecido com a gente. Alguém com cabeça, tronco e membros. Que pense e fale, sinta, questione, se alegre e se irrite, que ame e odeie. E, sobretudo, que tenha desejos. O Criador refletiu uns segundos e disse, Está bem, vou criar o ser humano à nossa imagem e semelhança, de modo que domine sobre os animais da terra, os peixes do mar, e as aves do céu.

E como pretende fazer isso, indagou o diabo. Não será difícil, respondeu o Senhor. Está vendo aquele barro? Vou moldá-lo e darei vida ao primeiro homem da terra. O diabo se encostou a um barranco, pegou uma gramínea para mastigar e ficou observando o trabalho do escultor divino. Pronto, disse o Senhor, com um sorriso de orelha a orelha. E, se aproximando do rosto do boneco de barro, soprou-lhe as narinas suavemente. Em poucos segundos, o homem começou a se mexer. Levou as duas mãos ao rosto, balançou a cabeça como se estivesse secando os cabelos, olhou para os lados, para cima e para baixo.

Sentindo uma leve náusea, perguntou ao homem barbudo a sua frente, Quem eu sou? E o Senhor respondeu, Adão. Seu nome é Adão.
 
Por longos meses, o homem viveu em liberdade no imenso jardim do Éden. Andava nu sobre a relva, colhia frutos das árvores e pescava. Até que um dia, sentiu-se triste pela primeira vez. O diabo encostou a boca no ouvido do Criador e sussurrou, Ele se sente só. Conceda-lhe uma companheira. Deus fez o homem cair em sono profundo, e sorrateiramente tirou-lhe uma costela, e desta, fez a mulher, a quem o homem batizou com o nome de Eva. Eva era excepcionalmente bela. Mas sobretudo, sedutora e amante perfeita. Foram dias repletos de felicidade, banhos refrescantes sob a cachoeira do rio Fison, passeios de mãos dadas entre mansos leões e tigres, e muitas tardes de amor sobre a relva.

Num dia qualquer de verão, em que nenhuma folha de árvore se mexia, a mulher foi apanhar um fruto, pois sentiu fome. Assustou-se quando uma serpente apareceu-lhe por entre os ramos, e perguntou, É verdade que deus os proibiu de comer do fruto da árvore que fica no centro do jardim? A mulher respondeu, Sim, é verdade. E por quê, indagou a cobra. Não sei, respondeu a mulher, mas se o fizermos, eu e meu companheiro morreremos. A cobra disse, erguendo ainda mais a cabeça, Que bobagem, querida. Nem você, nem seu homem morrerão. Pelo contrário, se comerem daquele fruto, tanto você como seu marido serão iguais a deus, e conhecerão o Bem e o Mal.


Não foi preciso dizer mais nada.

Em poucos minutos a parceira do homem já estava ao pé da Árvore do Conhecimento. Recolheu o fruto e mordeu. No mesmo instante seus olhos se abriram, isto é, começou a entender que o mundo não era o paraíso que imaginava. Havia perdido a inocência. Envergonhada, pois percebera que estava nua, chamou pelo seu homem, escondida atrás de uma rocha. Quando Adão apareceu, perguntou, Eva, onde você está? Aqui meu amor, respondeu ela, Atrás dessa pedra. E estendendo o braço, ocultando pudicamente o resto do corpo, ofereceu o fruto mágico. Adão arrancou com os dentes um pedaço do fruto e o degustou saborosamente. E tal como Eva, enxergou o Bem e o Mal. Nesse momento, ambos ouviram os passos de alguém se aproximando.
 
Era ele. Não adiantava se esconder; ele logo os acharia. Adão, você está aí, perguntou deus com sua voz tonitruante. Estou aqui, Senhor, clamou o homem, Ocultei-me pois estou nu, e tive medo. Deus perguntou novamente, Como sabe que está nu? Quem lhe falou? Por acaso comeu do fruto da árvore que eu lhe havia proibido?

Não foi minha culpa, Senhor, respondeu Adão, A mulher que vive ao meu lado ofereceu-me o fruto e eu o provei. O Criador voltou-se bruscamente para a mulher e inquiriu, Mulher, por que fez isso? Também não foi minha culpa, Senhor. A serpente forçou-me a experimentar o fruto, garantiu a mulher. Em seguida, a ira de Deus se inflamou pela primeira vez na história da Humanidade e, apontando para a cobra, que na verdade era o demônio disfarçado, vaticinou, Por causa disso, a partir de hoje, rastejará sobre seu ventre, e comerá o pó pelo resto de sua vida.Virando-se abruptamente para a mulher, despejou essas duras palavras, Quando der à luz, multiplicarei suas dores, para que nunca se esqueça que foi a responsável pela danação humana sobre a terra.

E, para que saiba qual é o seu lugar, será dominada pelo seu marido. Faltava o homem ouvir sua execração, e ela não tardou. Disse Deus, Porque deu ouvidos à mulher, amaldiçoarei a terra por sua causa. Trabalhará pesado para tirar do solo seu sustento, comerá o pão com o suor do seu rosto, até que regresse à terra de onde veio, posto que é pó e ao pó retornará. Dito isso, o Senhor teceu roupas de pele para os dois viventes e os expulsou do jardim do Éden. A sorte do Homem estava lançada.


Isso não é justo, lamentou a mulher, enquanto se retirava do Paraíso.

O que não é justo, perguntou o outro, que não era muito dado a reflexões. Não é justo o que o Senhor fez com a gente, disse ela. Primeiro nos coloca num lugar maravilhoso, e depois nos expulsa, por causa de uma fruta. O homem, saindo em defesa de Deus, disse, O Senhor é justo, bem sabe você que não podíamos tocar naquela árvore; e você a tocou, dando ouvidos ao diabo. A mulher franziu o cenho e retrucou, Como você é tolo, Adão. Nosso único amigo nessa história é ele, Satã. O homem esbravejou, Está dizendo parvoíces, foi por causa dele que perdemos a boa vida.

Eva respondeu, Caímos numa armadilha, e você nem percebeu. Se Deus é presciente como diz ser, ele sabia que acabaríamos comendo o fruto proibido. Na verdade, a cilada foi perpetrada pelo próprio Criador, e não pelo diabo. Vendo que o homem a olhava sem entender nada, ela explicou, Se o Todo Magnânimo tinha ciúmes de sua fruteira, que a escondesse em outro lugar. Por que diabos a colocou logo ali, na nossa cara? Seria por sádico prazer em ver nossa desgraça? Não, Eva, respondeu o homem, Foi para testar nossa fidelidade.
 
Eva soltou uma gargalhada e perguntou, Para testar nossa fidelidade? Ora, se ele é sabedor do futuro, não precisava nos testar, pois deveria saber o resultado. Se não sabia, não é onisciente, portanto, um falso deus. De qualquer forma, é um deus injusto e cruel, porque prometeu punir a Humanidade inteira por causa de nosso ato. Porque ousamos conhecer, eis nosso pecado. Agora, cá estamos, errando como dois criminosos. O pior de tudo isso, é que não pedimos para nascer. Fomos jogados aqui simplesmente para suprir a carência desse deus estúpido que não sabe lidar com a própria existência e precisa de prosélitos para o adular.

Eva, não fale assim do Senhor, recomendou Adão preocupado, Ele pode ouvir. Que ouça, disse Eva, que tenho a ver com ele? Odeio esse Deus. Há outros bem melhores. O homem a lembrou, apontando o dedo para o alto, Só há um Deus, o nosso Deus. Ela maneou a cabeça, negando. Conversei com estrangeiros de longínquas terras, e eles adoram a outros deuses.  Esse que nos expulsou do Paraíso é apenas mais um. O homem insistiu, Ele é o único e verdadeiro, que nos ama e protege aqueles que o temem. A mulher perguntou, Por acaso ele nos protegeu? Esse seu deus nos ama? Serei, como ele me disse, lembrada pela Humanidade como a causadora do mal no mundo. Vou parir minha prole com dores e terei que obedecer a meu homem. Muitos me odiarão, porque fui eu quem o seduzi. Nossos filhos e os filhos de nossos filhos serão obrigados a viver num mundo de dor, ódio, violência e injustiça, porque o Senhor deus, sábio e amoroso, não queria que conhecêssemos a Verdade. Você chama isso de um deus bom?

Adão não falou mais nada por algumas horas. Seu espírito havia sido atingido com os duros golpes da dúvida. A partir daí, ele seria seu próprio condutor, e formaria suas certezas somente depois de muito analisadas.