A Guerra entre religião e ciência




Nos últimos anos, a chamada "guerra" entre a religião e a ciência, vem sendo abordada por um novo ângulo, bastante polêmico. Cientistas como Richard Dawkins e Sam Harris, o filósofo Daniel Dennett, e o polêmico jornalista inglês Christopher Hitchens, um grupo conhecido como os "Quatro Cavaleiros do Apocalipse", resolveram tomar a ofensiva, tachando a crença religiosa como uma espécie de ilusão ou de delírio, uma forma de loucura coletiva que vem causando caos pelo mundo afora desde os primórdios da civilização. O grupo prega um ateísmo radical, usando uma retórica extremamente agressiva, tão inflamada e intolerante quanto a do fundamentalismo religioso que se propõe a combater. Dawkins, quando é acusado de fundamentalismo, defende-se afirmando que, ao contrário dos extremistas religiosos, mudaria imediatamente de ideia se tivesse provas convincentes. Imagino que, caso Jesus aparecesse flutuando sobre um arco-íris à frente de um judeu ou um muçulmano ortodoxo, eles também se converteriam ao cristianismo. Mas talvez eu esteja sendo muito otimista. Provavelmente, diriam que era algum demônio, tentando comprometer a sua fé.

Esse tipo de atitude acaba levando a uma radicalização ainda maior. Um estudo superficial da história da civilização humana mostra que o extremismo é uma péssima estratégia diplomática. Acusar as pessoas que acreditam em Deus de serem ignorantes, loucas ou simplesmente estúpidas, não leva a nada. Deixando de lado os possíveis benefícios sociais e psicológicos da religião - todos em princípio proporcionáveis por meio seculares - como uma entidade que proporciona um senso de comunidade e identidade a bilhões de pessoas, e que oferece consolo a tantos tipos de sofrimento, existe uma razão universal que leva as pessoas a buscar pela fé, mesmo na ausência de provas de que divindades sobrenaturais existam. A verdade é que provas empíricas não tem nada a ver com o poder da fé. Quanto mais misterioso o credo, mais ardente a crença. A grande maioria das pessoas acredita no sobrenatural por não aceitar que a morte possa ser o fim definitivo da vida. Qual o sentido da vida, se no final a morte e o esquecimento são invevitáveis?

Com mais perguntas do que respostas, as pessoas abraçam a fé, entregando-se a algo que promete alçá-las além dos confins da matéria e do tempo. Ridicularizar essa necessidade humana, como fazem os "Quatro Cavaleiros" e também outros, é demonstrar uma profunda ignorância (ou indiferença?) do que passa pelos corações e mentes de bilhões de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo.


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Marcelo Gleiser é Professor de filosofia natural e
física e astronomia no Dartmouth College.
Trecho do livro Criação (Im)perfeita:
Cosmo, Vida e o Código Oculta da Natureza.