Tá ruim? E a recompensa não compensa?






Independentemente de ser uma história judaica ou uma parábola turca, como querem muitos, o livro de Jó encerra nuances peculiares e interessantes, se não me engano. Grandes defensores do diabo, sim eles existem (os defensores), adoram esse livro por entenderem que ele seja o grande documento confirmatório da existência dos chifrudinhos.

Isso acaba sendo engraçado porque todo mundo que se lasca acaba se perguntando sobre a existência dos infernos, capetas e as hostes do mal, ainda que façam essas considerações secretamente. O que não é o caso dos neo-pentecostais e dos universais, imagino.

Lendo e relendo esse livro, não consigo aceitar que o seu autor, que Deus o tenha em bom lugar, tenha tido qualquer intenção de demonstrar a existência dos demônios, por menor que isso fosse. Para mim, o autor tentar usar linguagem concreta ou, em outras palavras, símbolos para facilitar o entendimento de gente punk feito você e eu.

Além de muito instrutivo, do ponto de vista teológico, esse texto causa ao leitor uma sensação única. Me refiro ao fato dele nos colocar (nós os leitores) ao lado de Deus e podermos, então, enxergar os acontecimentos do mesmo ponta de vista do divino. É sim. Conforme os fatos vão sendo expostos, o tempo todo nós sabemos o que está havendo (falo da competição que se trava nos bastidores entre Deus e o diabo em relação à fé de Jó) enquanto Jó, seus amigos da onça, familiares e vizinhos não fazem a menor idéia a respeito e passam o tempo todo falando um monte de bobagens, enquanto Jó perde tudo, saúde, filhos, posses, e as calças, fora a honra.

Nesse caso, enquanto as desgraças apimentadas pelos insensatos amigos de Jó vão rolando, arrisco um olhar de reprovação a Deus. Ainda bem que ele não viu. Mas me incomoda essa atitude quase infantil do ser mais velho que existe, exceto toda sua habitual competência. “Será que ele está derrapando?” Pergunto-me perturbado. Nada disso, tudo isso é só didática, lembra?

O livro encerra uma grande mensagem, recheado de outras menores. Antes de mais nada, o mal existe e é capaz de agir destrutivamente por motivos fúteis. Nem o maior exemplo de fé e dedicação a Deus, um homem probo, fiel e reto, está livre de ser alvo dos chifrudos. Aliás, é possível que esse esteja mais sujeito às diabruras, do que qualquer outro. Dizem que Deus seria injusto em não livrar seus filhos (os já cadastrados) do maligno. Para Deus e para mim, injusto seria se não estivéssemos todos sujeitos a molharmo-nos sob a chuva.

Mas tem algo de bom aí. Parece que Deus dá sim, recompensas aos sócios do clube celestial, ou seja, essas desgraças preparariam os desgraçados para os tais dias melhores que ainda virão. Agora eu penso diferente do criador. Para mim isso seria tão injusto quanto, mas o Barba branca não pensa assim e enche seus chegados de recompensas por suas perdas. Tá bom, dou minha mão à palmatória e aconselho você a ficar com Deus, nessa.

Para quem interessado possa estar, o capeta some da narrativa. O autor deixa claro, com isso, o quão coadjuvante ele era nesse enredo. Foi usado e abusado na senda da preparação daqueles a quem Deus deseja preparar para viver a seu lado, eternamente, seja lá o que isso venha a ser.

Nem os alcoviteiros amigos de sempre deram-se mal. Antes de dar a benção, Jó, mesmo todo ferrado, ainda teve que orar por eles para que fossem abençoados com as mesmas bênçãos com as quais viria a ser abençoado em breve, talvez com diferenças proporcionais, provavelmente. Vosso pai celestial tem cada uma…