A lógica perversa da oração no imaginário cristão




Des-teologia da oração




Ao orar, o crente parte do pressuposto que ele serve à um Deus pessoal, benevolente, todo poderoso e que nunca está inerte ou indiferente para com as suas necessidades.

Sua fé tem apoio no conceito de que Deus está sempre preocupado com o bem estar do ser humano por ele criado. E, por isso, quando seus anseios e petições não são atendidas, logo são enquadradas em categorias de causas que fogem da sua compreensão ou então trata-se de uma vontade não revelada. Neste caso o “não” como resposta deve ser aceito com resignação.

Mas sempre cabe uma observação: vemos às vezes pessoas agradecendo a Deus por terem sido receptoras de um milagre ou de uma cura. Mas essas mesmas pessoas dirão que Deus não é culpado pelo fato do seu vizinho continuar doente.

Ora, se Deus interveio para curar a primeira pessoa que orou, deveria ter feito a mesma coisa com a segunda que da mesma forma orou também.

E se o motivo para Ele não ter curado a segunda pessoa é deixar o pobre coitado doente, e que casos como esse faz parte de um plano divino insondável, então a primeira pessoa não deveria encarar as coisas de modo pessoal imputando sobre a segunda a culpa por não ter sido de igual modo atendida.

Existe uma lógica perversa e pasmem, consciente no imaginário cristão. Que é; Cada uma das pessoas mereceu o que teve. A que recebeu o milagre ou a cura recebeu porque fez por merecer enquanto que a outra não atingiu o nível exigido pela divindade para ser atendida. O conceito meritório-judaico-farisaico está impregnado nesse meio.

Existe um nó que a teologia dogmática insiste em não querer desatar, que é o conceito utilitarista que a oração possui. Conceito esse que o cristão herdou do judaísmo e incorporou em seu sistema.

Pratica-se um modelo de oração que comunica a ideia de que Deus é movido quando pressionado pela produção de méritos de um indivíduo.

Enfatiza-se o conceito vetero-testamentário de que quanto maior e mais intenso for o clamor maior será a chance de ser atendido pela divindade ou que existe uma queda de braço entre Deus e o diabo, e que o primeiro só poderá agir se devidamente alimentado pelas orações dos humanos. Plágio da mitologia grega que atestava que o déficit nas orações enfraquecia determinado deus e permitia a reação do deus rival. Aí está a gênese das campanhas de oração.

Esse modelo disfuncional, inclusive demonstrado no apocalipse, transmite a impressão de que existe uma balança cósmica instalada no céu que mede o poder concentrado das orações dos homens, e que Deus só agirá após esse acúmulo atingir um determinado nível. Não creio!

Penso que a adoção desse modelo pela igreja deve-se ao fato de sua fácil aceitação e cognoscibilidade. Entretanto, em função da existência de pontos dos quais emergem mais perguntas do que respostas, revela-se frágil em sua composição.