A Dimensão “BEM — MAL” em Nossa Cultura



 



Como a nossa cultura está assentada na tradição judaico-cristã, não há como deixar de recorrer à história mítica da “Criação” do livro do Gênesis para compreender mais sobre os nossos desejos paradoxais.

Nilton Bonder — rabino e líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil, doutor em literatura hebraica pelo Jewish Theological Seminary — em seu livro “A Alma Imoral” —, que deu origem a uma peça de Teatro que ficou por quatro anos ininterruptos (2006 à 2010)em cartaz no sul do país, diz o seguinte:

“Adão e Eva estão nus e tem um mandamento a cumprir (está implícito o descumprir). [...] O termo “alma” surgiu para explicar a dualidade do cumprir (bem) e do descumprir (mal). A alma seria parte do corpo, sua parte “transgressora”. (Os grifos entre parênteses são meus)

Para este autor, o “comer do fruto da árvore do bem e do mal”, significa passar a ter consciência, simbolizada no mito pela percepção do “nu”, e o ser humano a partir daí, dá início a sua condição de animal moral. “Vejam que toda a nossa sociedade está voltada para “vestir” a nudez humana”.

A dimensão “sagacidade” que traz a capacidade de transgredir está projetada de forma mítica na “serpente”.

Diz ainda o rabino, Nilton Bonder: “Essa imoralidade (que é tida como mal) que muitas vezes ameaça contundentemente o corpo, é o lugar onde o ser humano briga com Deus, e dessa contenda se inventa o novo homem — o homem de agora. Afinal, este é o temor de Deus, expresso no texto de Gênesis: o animal consciente, de posse da informação de sua mortalidade, pode querer ser imortal. Por que o “corpo nu” e que passa também a buscar de forma consciente sua preservação — é profundamente mortal. A obediência pura e simples seria a sua estagnação evolucionária [...]. Adão e Eva foram tentados pela alma para cumprir com seu desígnio de desobedientes. Foi expulso por sua outra natureza (má) — a que trai o corpo, e é empurrada para outro território pela alma. Para sobreviver nesse outro lugar que não era seu habitat natural, o corpo desenvolveu uma proteção conhecida como MORAL”.

O “sentimento religioso” é justamente esse desejo de religar-se ao Éden, naquela fase que não existia a discordância, quando desconhecíamos a ambivalência do Criador. Este sentimento existe de forma inconsciente em todo o ser humano, ateu ou não ateu. Quando os cientistas estão à procura de um planeta habitável, no fundo no fundo, estão movidos pelo mesmo nobre sentimento de se religar a um paraíso de paz, que já viveram de forma inconsciente em suas origens bio-psíquicas.

A paz, como ausência de mal, deve ter sido vivenciada naquilo que o Gênesis alegoricamente demonstra: existia, sim, no tempo em que éramos um ser sem consciência como se fôssemos uma extensão do corpo de nossa própria mãe. Não podíamos discordar por que éramos UNO. No mito de Gênesis já existia a figura da psique humana, representada pelo “céu” bíblico. Para mostrar as sementes dos afetos ambivalentes de nossa psique, o mito se valeu de Deus(como Pai autoritário) e seus filhos, representados pelos “anjos obedientes” e os “anjos rebeldes ou transgressores de uma ordem pré-estabelecida”

Mas tarde, Cristo, na "Parábola do Filho Pródigo", para demonstrar o que se passa no interior do homem com seus sentimentos paradoxais, faz uma analogia dos anjos que ficam e dos que decidem sair do convívio paterno no mito do Gênesis. A proposta da parábola nos faz ver que, no final, o filho transgressor ficou em melhor situação do que o seu irmão obediente e hipócrita que, pelo ressentimento que o tomou, demonstrou secretamente que invejava o seu irmão (talvez tenha lhe faltado coragem e a ousadia suficiente para romper com o pai). O ressentimento do irmão mais velho é uma prova de que lá no seu íntimo (ou no seu inconsciente), já residia o desejo de conhecer o mundo lá fora, mas não o fazia por medo.

O Pai que expulsou “o filho perdido” — figura dos “anjos rebeldes” do mito do Gênesis, agora, procura ardentemente a sua outra parte (o filho pródigo) que se perdeu dele, figurado pelos anjos rebeldes, os quais faziam parte intrínseca do seu ser antes da “fundação do mundo”, ou em outras palavras, antes do “nascimento da consciência”.

O desejo de partir para um mundo diferente, no coração do filho mais velho da parábola, era percebido por ele como um desejo mal, e por isso, esse sentimento foi reprimido. O desejo de partir do filho mais novo era o “bem” dele. O pai amoroso (representado por Cristo) recebe com festas o filho que o pai autoritário perdeu — no mito do Gênese – metáfora do “desejo de transgredir” (anjos rebeldes). O filho mais novo ao voltar com a auto estima baixa passa a se situar no pólo do bem. O filho que sempre estava ao lado do Pai ajudando-o, aparentemente era o filho bom, quando se ressentiu por inveja, passou a ser mal. Mas o que mostra essa parábola, senão a dança entre o medo de transgredir uma ordem (bem) e a coragem de transgredi-la(mal), simbolizados pelo filho mais velho e o mais novo da história. O sentimento religioso cristão aparece no filho mais novo, cujo desejo é o de “religar-se” com as suas origens. O filho mais velho da parábola é aquele que por não ter experimentado a “transgressão”, quer a volta do Pai autoritário que na sua ótica deveria jogar no inferno o filho desobediente. Os representantes do filho mais velho são os legalistas (a maioria?) que pregam céu para os “bons” e o inferno para os “maus”.

A conclusão de que o Bem é o Mal, causa perplexidade. Talvez resida aí o “porquê” da persistência ao longo dos milênios dessa dualidade, em que um jamais vence ou extermina de vez o outro. Quando discordo do outro num diálogo, eu posso até vê-lo como a parte má, da mesma forma que o outro pode ver em mim o mal. O mal dele é o meu bem, e vice-versa.

“O generoso(bem) só pode se alimentar se existir o egoísta(mal). Olhando por outro ângulo, os egoístas são bem-vindos, pois existem para alimentar o prazer dos generosos em serem parasitados. Bem aventurados os generosos (bem) e bem aventurados os egoístas(mal)” [Flávio Gikovate — psiquiatra e psicoterapeuta da USP]

Há um verso da canção “Meu Bem, Meu Mal”, do poeta Caetano Veloso, que explícita bem a dimensão “Bem—Mal” como uma dualidade afetiva (ambivalência) existente desde o princípio:

Você é meu caminho
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você.