Deus amou mais a Abraão do que a mim






Por causa de uma pendenga religiosa, coisa de turrões, Abraão parece ter ficado macambuzio. Talvez tenha sido algo relacionado ao sacrifício de filhos primogênitos solicitados pelos deuses dos vizinhos do patriarca, enquanto o Deus dele não exigia esse ato.

Dizem que Abraão andava daqui pra lá cheio de vergonha, afinal só ele continuava com seu primogênito vivinho da silva. Sem falar que primogênito era só o que Abraão tinha, era Isaque e mais nada, ou melhor, havia Ismael, que era filho de Abraão com uma serva de Sarah, que na impossibilidade de gerar um filho ao seu marido, ofereceu-lhe a mulher. Abraão que de bobo não tinha nada (era judeu) traçou a lacraia. Mas para todos os efeitos, Ismael era só um bastardinho.

Provavelmente Deus acabou se chateando com a história e resolveu dar uma lição no seu preferido. Um belo dia, mandou Abraão selar o cavalo, colocar no porta-malas as ferramentas e materiais necessárias para imolar um bom bezerro e, claro, Isaque no lombo do animal e dirigir-se a determinado monte. O que tinha de monte naquele lugar era uma grandeza.

Chegando lá, Abraão já entendendo tudo, até com certo ar de triunfo, começou a preparar a cerimônia, mas aos poucos foi pensando nas dificuldades que ele e Sarah tiveram para gerar um filho, a promessa de Deus em fazer dele o pai de muitas nações, população maior do que as estrelas que conseguia ver, Isaque já demonstrando sua aptidão para os negócios, coisa e tal, acabou descaindo seu semblante, mas não sabia como sair dessa sinuca de bico. Pegou o cutelo, pensando, seja como Deus quiser e, nesse ponto, ouviu a voz de Deus: “Não lance mão do menino!” Pega lá aquele animal pastando por ali e sacrifica-o em lugar de Isaque.

Ufa! Essa passou perto. Deus salvou o filho de Abraão, na hora aga.

Comigo não teve nada disso. Eu não queria sacrificar meu filho, nem nenhum deles. Mas ele foi levado ao monte, amarrado, e imolado, sem dó nem piedade, não por mim, mas por seus carrascos devidamente uniformizados com suas cores hospitalares. Em nenhum momento Deus apareceu para interromper a cerimônia macabra e substituir meu filho amado por um veado qualquer.

Talvez o Divino estivesse lá para as bandas de Recife e não teve tempo e/ou interesse de salvar meu filho do sacrifício preparado por um desses deuses humanos, dentre tantos que há por aí. Sei lá.

Minha teologia furou de novo. Não me serviu de nada. Perdi meu filho amado, e estou, junto com a mãe e os irmãos dele, perplexo, desolado, arrasado e sem eira nem beira. Não há, nem na Bíblia, nem em todos os anais teológicos, texto ou interpretação capaz de me convencer satisfatoriamente porque Deus teria amado mais a Abraão do que a mim, ou melhor, mais ao filho dele do que ao meu.

Glória a Deus.