A IGREJA – Segundo Escreveu Dostoievski






Fiódor Dostoievski (1821-1881), foi o autor da fenomenal fábula — “O Grande Inquisidor” —, que pode ser considerada um dos pontos mais altos da literatura mundial. Essa história faz parte de um dos capítulos de sua fantástica obra: “Os Irmãos Karamazov”.

O interesse do famoso autor russo foi o de questionar a Igreja católica de seu tempo. Na sua crítica instigante, ele mostra como a instituição religiosa rejeitou a mensagem de Cristo, trocando-a pelo poder político e eclesiástico.

Olhando o atual mercado religioso que sobrevive graças à exploração do “divino”, achei conveniente trazer ecos da emblemática fábula escrita por Dostoievski, visando uma reflexão acurada sobre a religiosidade tão intensamente apregoada de forma desequilibrada em todos os rincões de nosso imenso país.

Richard Elliot Friedman, autor do livro ― “O Desaparecimento de Deus”, da Editora Imago (páginas 209 à 210) ―, expõe com primor os pontos principais dessa emblemática fábula:

Dostoievski (*) apresenta “O Grande Inquisidor” como uma história em forma de “poema e prosa” criada por Ivan, o irmão ateu, que a conta a seu irmão mais novo, Aliocha, o aspirante a sacerdote.

Na história, Jesus volta à terra durante a inquisição espanhola. A narrativa é inserida no contexto da ocultação da face de Deus, quando Ivan diz na introdução: “Quinze séculos se passaram desde que o homem parou de ver sinais vindos do céu”.

“E agora, a divindade aparece novamente entre os homens naquela forma humana em que Ele por três anos conviveu no meio dos homens quinze séculos atrás”. O visitante divino realiza milagres: um cego recupera a visão; uma criança ressuscita. Todos o reconhecem. E, então o velho cardeal que comanda a inquisição o vê e manda que o capturem e o tranquem na prisão. Na cela da prisão Jesus não diz nada; na verdade, o inquisidor é quem ordena que ele não diga nada, pois “Vós não tendes o direito de acrescentar coisa alguma ao que já dissestes no passado”. “Por que viestes agora para nos atrapalhar?” — diz o inquisidor para Jesus. Nos evangelhos são os ‘demônios’ que fazem esse questionamento a Cristo. E aqui, vai uma crítica ferrenha do autor da fábula, ao Catolicismo Romano: a idéia de que Deus não pode falar nem se intrometer, porque agora “Tudo já foi transmitido por Vós ao Papa, não havendo necessidade alguma de Virdes atrapalhar. “Mas a liberdade é muito difícil e assustadora para as massas, diz o inquisidor, e então a igreja aceitou os três assombrosos presentes do diabo, o “poderoso espírito”.

Em um trecho da narrativa, o Grande Inquisidor diz então a Jesus que ele errou quando resistiu às três tentações do diabo no deserto. O diabo lhe ofereceu milagre, mistério e autoridade, e Jesus os rejeitou. Mas, revela o velho cardeal, a igreja os aceitou. A igreja governa as massas exatamente através do milagre, do mistério e da autoridade; é disso, argumenta o cardeal, que as massas precisam.

Jesus não quis conquistar as pessoas através de atos milagrosos e dominá-las pelo poder; ao contrário, queria que elas tivessem liberdade de escolha.

Por fim, o cardeal declara que o invasor divino deve ser queimado na fogueira no dia seguinte. Mas Jesus ainda calado, apenas se limita a beijar o inquisidor nos lábios — “Essa foi a sua única resposta”. O Grande Inquisidor então abre a porta da cela e diz: “Ide e não volteis mais... não volteis jamais, nunca mais”. E o visitante divino vai embora.

Numa época em que as pessoas não anseiam por outra coisa que bens materiais e misteriosas curas, a fábula de Dostoievski ainda tem o condão de tornar lúcido ou claro que a mensagem do Messias Judeu não foi a de pregar a medíocre liberdade idealista da felicidade terrena a todo custo. Infelizmente, a “autoridade eclesiástica” da modernidade se apossou do “...e sereis livres”, com a finalidade espúria de saciar sua sede de domínio psicológico, político e econômico sobre as mentes receptivas, valendo-se de uma ordem supostamente "celestial" pré-estabelecida em épocas remotas.

Uma liberdade que se centra em um objetivo supérfluo como o de adquirir, de possuir, obter lucro, e o de produzir espetáculos em nome de Deus, não é realmente uma liberdade, é sim, uma alienação.

(*) Dostoievski morreu em 1881. Na juventude passou maus pedaços: doença, pobreza, uma sentença de morte aos vinte e sete anos, acorrentado entre criminosos inveterados na Sibéria. Esse período de sua vida foi decisivo. Foi quando descobriu a força de sua intuição psicológica; mais ainda, foi quando seu espírito se tornou mais doce e, ao mesmo tempo, mais profundo. [Carta a Gast, de Nice, publicada em 7 de março de 1887] . FONTE: “Um Mistério Divino” — Richard Elliot — Editora Imago