O Menino, O Pastor e o “Demônio da Libido”






Durante os seus três primeiros anos, antes de se tornar um sujeito, ele viveu fortemente vinculado à mãe, e, o único prazer que conhecia era apreender com os lábios os seios fartos maternos, a fim de sugar a seiva branca adocicada e pegajosa, que sempre teimava em extravasar pelos cantos de sua boca. Mais tarde, ele iria entender que aquela sensação de gozo ficaria como um marco a estruturar todos os seus desejos instintivos pelo resto da vida. No âmbito da religião, futuramente, ele iria sentir uma espécie de eterno retorno do gozo primeiro, ao ser acolhido no seio de uma bondosa e simbólica mãe, chamada Igreja.

O desmame foi a sua primeira experiência desagradável. Depois que os peitos da mãe foram interditados, ele nunca se contentou com o engodo da velha chupeta oferecida em seu lugar. Foi quando sentiu a sua primeira solidão, a sua primeira ruptura, a primeira frustração e seu primeiro vazio.

Disse-lhe a mãe: “Meu filho, você já está grandinho, a ordem de seu pai, é que já é tempo de você parar de mamar”. Desse dia em diante, um sentimento de raiva passou a lhe rondar o coração, pois ele não suportava a idéia de que a sua mãe seria exclusiva do seu genitor. Durante muitas noites era atormentado por sonhos terríveis, em que um lobo mau, com a cara de seu pai, devorava a sua genitália, e isto, deu lugar a um medo permanente de que seu pai fosse castrá-lo, caso pudesse adivinhar os seus sentimentos libidinosos que tinha com relação a mãe, desde que foi impedido de mamar em suas deliciosas tetas. E não é que em algumas noites chegava a sentir uma sensação extremamente gostosa, quando em sonhos sugava vorazmente enormes peitos, lambuzando-se de leite num prazer incontido e inigualável, que a velha “chupeta” jamais o tinha proporcionado.

Um belo dia, o menino já bem crescido, ouviu no colégio uma palestra de um professor de Ciências, na qual ele explicava que aquela sensação do filho para com a mãe, que mais tarde se estenderia para as professoras, era coisa normal de todo menino em passagem para a idade adulta. Foi então, que na sua cabeça, repentinamente, passou um pensamento: “ora, se sou um menino crente, ‘criado na igreja’, vou é tirar as minhas dúvidas com o professor de minha classe, na escola dominical, pois é ele que tem toda autoridade divina para me dizer a verdade”.

Certa noite, na igreja, um reverendo vindo dos EUA, PhD em “Demonologia Sexual” abordou o tema: “Como livrar-se do demônio da libido, em 7 aulas”; e o menino da história, que não me lembro se era Joãozinho ou Pedrinho, para não perder nenhum dos pormenores, sentou-se na primeira fileira da nave do templo. A perplexidade que o tomou com o sermão do pastor, deixou-o paralisado na cadeira por cerca de uma hora e meia. Para surpresa sua, saíu de lá pior do que entrou, pois, não conseguia entender por que ele, tido por todos na igreja como um menino santificado, deixava-se arder pelo demônio de uma paixão ilícita, nas suas noites insones. Nunca tinha ouvido falar que existia esse tal demônio do sexo, mas aquele pastor gospel renomado, segundo a platéia, tinha sido enviado por Deus para especialmente, expulsar os capetas dessa área carnal, que, no dizer dele, desde cedo vinham se infiltrando nas mentes dos meninos e das meninas do rebanho do Senhor.

Foi por esse tempo, que ele começou a orar e jejuar dia sim, dia não, para ver se aquela casta de demônios desaparecia de dentro dele. Dizia “casta”, por que já não estava só apaixonado pela mãe, como também, pela empregada, pela professora, e pela filha da vizinha, entre outras. Perdera bastante peso com os jejuns prolongados; mesmo com a carne fraca, era só pegar do sono após uma ou duas horas de oração ao pé da cama, que logo, logo, os sonhos eróticos trazidos pelos “demônios” o apavoravam. Várias vezes ele se surpreendeu gritando: “está amarrado em nome de Jesus!”.

Esse menino, agora adulto, continua freqüentando esporadicamente a igreja, mas, durante a maior parte do seu tempo, demonstrando que a ambivalência é coisa intrínseca do sujeito e não pode ser exorcizada, se desnuda por completo, mostrando ao mundo virtual cibernético o que está por trás dessa palhaçada infernal de “demônios”, que maneja a máquina da repressão dos instintos humanos em nome de deus. Ele diz que amadureceu, mas, o fato é que ainda não consegue se desvincular da “imago materna”, pois, quando a nostalgia dos seios fartos em que se amamentou lhe assoma com muita veemência, ele pega sua bíblia surrada junto com a harpa cristã e corre rápido para a igreja. É lá, que o Pedrinho ou Joãozinho da história apazigua seus deuses e demônios interiores. Lá, os seus demônios da lascívia ficam adormecidos, até que o culto termine e ele desperte de novo para a rotina de sua realidade existencial.


P.S.: O ensaio postado, bem que poderia ter este título: “Uma Doce Nostalgia”