O dia em que Adão voltou ao Eden



 
Adão tinha acabado de completar seus novecentos anos. Fazia poucas semanas que Eva falecera e o homem estava muito triste na humilde caverna onde habitava naquela Mesopotâmia pré-histórioca. Numa das paredes estavam os retratos desenhados dos dois primeiros filhos do casal que foram brutalmente assassinados a seu tempo. O mais novo pelo próprio irmão primogênito e este por um violento descendente da sua quinta geração de homens perversos chamado Lameque. Na gravura rupreste, o pai pintara os seus dois meninos ainda passeando alegremente no mato como se tudo estivesse indo bem. Na imagem, Caim cultivava uvas e Abel conduzia as ovelhinhas da família pelo pasto. Tudo em paz e na mais perfeita harmonia tal como tinha sido nos dias em que vivera no Éden.

Sem ter mais sentido para viver, Adão resolveu fazer suas trouxas e sair caminhando sem um rumo definido. Nada contou ao seu filho Seth que agora liderava a tribo em seu lugar e se encontrava absorvido com as mais diversas atividades como a defesa militar contra as invasões dos violentos descendentes de Caim e o controle de estoque de mantimentos. Só que para o pai Adão assistir a tudo aquilo só lhe causava mal já que toda a humanidade descendia dele. Tanto os filhos bons quanto os filhos considerados ruins.

Fazia uns cento e cinquenta anos que Adão nunca mais tinha deixado os limites da aldeia. Por não se lembrar mais daquelas centenárias trilhas, ele seguiu sempre rumo ao Ocidente a fim de evitar a forte claridade do sol da manhã que batia sobre seu rosto. Andou por horas sem parar e chegou até à margem esquerda do rio Tigre. Tentou atravessar das águas pisando sobre umas pedras, mas acabou escorregando e arrastado pela correnteza. Por sorte, o ancião conseguiu agarrar-se num tronco e não se afogou.

Tendo descido rio abaixo, Adão encontrou uma planície com águas mais tranquilas. Deixou o leito do rio caminhando por um banco de areia e se despiu para que as roupas pudessem secar rápido sob o calor do meio dia evitando pegar gripe. Pela primeira vez, em mais de oitocentos anos, ele voltou a caminhar nu.

“De que me valem as vestes nesta etapa da vida? Já não faço questão de manter qualquer status e que diferença há entre mim e os animais?”, pensou Adão consigo mesmo enquanto andava pela outra margem do Tigre enquanto as roupas e sua trouxa de mantimentos foram deixadas para trás.

Mais adiante, Adão deparou-se com um outro grande rio – o Eufrates. Sentindo cansaço físico intenso, ele se sentou debaixo de uma figueira e ficou contemplando a linda paisagem diante de seus olhos até que toda aquela geografia pareceu-lhe familiar.

“Uai! Estou bem na entrada do Éden! Foi justamente por aquela trilha que eu e a Eva fomos expulsos. Tempos depois ainda tentamos retornar, mas a espada refulgente não permitiu que entrássemos. Puxa vida! Como estarão as coisas por lá? Se o querubim não deixar que eu passe, pelo menos espiarei de longe e me lembrarei um pouco de como eram as coisas de antigamente antes de voltar ao pó de onde eu vim. Prefiro morrer com esta lembrança na minha mente.”

Cautelosamente Adão aproximou-se. Olhou para um lado e para o outro sem ver qualquer espada flamejante ou ainda algum querubim para guardar o acesso. Prosseguiu e foi penetrando naquele lugar paradisíaco onde passou seus melhores anos com Eva. Os pássaros cantavam alegremente e as árvores estavam carregadas de frutas: mangas, uvas, tâmaras, figos, jabuticabas, laranjas, maçãs, peras, pêssegos, romãs, mamões e bananas. Tanto o verde das folhas quanto o azul do céu brilhavam intensamente enquanto as águas dos outros dois rios menores, o Pisom e o Giom, continuavam tão transparentes como antes já que a humanidade ainda não tinha descoberto os malefícios da mineração.

Entretanto, mesmo com toda aquela beleza a sua volta, Adão não se sentiu nem um pouco satisfeito:

“Estou mais só do que antes do SENHOR extrair minha costela e me apresentar a Eva. Quando ponho qualquer uma dessas frutas em minha boca, não sinto mais o sabor delas. Tudo aqui pode ser muito bonito de se ver, mas é como seu eu não fizesse mais parte de nada. Que coisa estranha! O Éden parece ter virado mais um lugar comum e sem graça. Talvez ainda sirva para Matusalém e seus filhos da nova geração depois de mim virem morar aqui. Só que, no meu caso, apenas interessa as recordações de um passado que já não existe mais.”

Com profunda nostalgia, Adão lembrou então de cada momento vivido ali:

“Caramba! Era nesta prainha fluvial que eu e Eva vínhamos todas as manhãs ver o sol nascer. Ali, naquela cachoeira, tivemos uma maravilhosa tarde de amor abençoada pelo Criador. E bem pertinho desta árvore em minha frente, Caim adorava brincar com os macacos quando criança. Até hoje não sei onde eu estava com a cabeça quando resolvi comer do fruto proibido. Minha mulher pode ter sido enganada pela maldita serpente, mas eu sabia o tempo todo que estava errado. A culpa foi toda minha e não dela! Eu pequei!”

Indo em direção ao centro do jardim, Adão chegou ao local do crime onde ficaram as árvores da vida e a do conhecimento do bem e do mal que Deus lhe vedara experimentar. Porém, o homem encontrou de pé apenas a árvore da vida, aquela da qual comendo ele viveria eternamente. Então, aproximou-se, tocou no fruto e o arrancou do pé. Olhou para um lado e para o outro afim de ver se não teria algum anjo ou querubim por perto. E, quando ai levar o alimento à boca, pensou:

“Cara, o que pretende fazer? Pára com esta palhaçada! Você vai transformar a sua existência num inferno eterno? Deixa a vida te levar! Perpetuar o tempo cronológico em nada lhe acrescentará e nem trará sua amada Eva de volta. A verdadeira vida está dentro de cada um e apenas é possível encontrá-la reconciliando-se com o Criador.”

Enterrando a fruta no solo, Adão chorou profundamente e pediu perdão por todos os seus erros. Afastou-se do local e foi fazer a sua cama próximo à entrada do Éden onde já estavam sua trouxinha de coisas e a roupa quase seca. Ali adormeceu direto até o sol raiar. Seu sono foi tão profundo como daquela vez quando Deus havia tirado sua costela para esculpir a mulher.

Na manhã seguinte, quando Adão abriu os olhos, ele viu outro senhor menos idoso do que ele vindo nu na direção do Éden. Não teve medo como na vez em que se escondeu de Deus entre as árvores do Paraíso e se apresentou.

- “Quem é?”

- “Pai Adão, sou eu Enoque, o profeta. Sou o primogênito de sua sétima geração. Vim ao seu encontro, debaixo de uma revelação divina, para levá-lo para casa. Todos estão preocupados e fizeram um delicioso bolo de milho para festejarem o seu aniversário na caverna.”

- “Enoque, meu filho, desde que Matusalém nasceu, nunca mais recebi notícias suas. Por onde tem andado?”

- “Tenho caminhado diariamente com Deus, mas dentro de algum tempo já não mais estarei entre seus descendentes. Quando chegar minha vez de liderar a tribo, o comando deverá ser passado de meu pai Jarede direto para Matusalém. Este governará até que venha um grande dilúvio.”

- “E quando será isto, filho? Desde que deixei o Éden até hoje nunca choveu sobre a Terra!”

- “Não será algo para seu tempo, meu pai. Disse ao meu jovem neto Lameque que, quando o seu primogênito nascer, seremos todos consolados do nosso árduo trabalho. Só que, antes do fim, ainda temos uma obra a ser feita. Depois que Caim foi morto pelo outro Lameque, o bígamo, os dois filhos nascidos de Ada ficaram sem a companhia do pai porque este foi banido da comunidade devido ao homicídio praticado. Porém, um dos meninos é gente boa, diferente do Tubalcaim filho da Zilá. Por isso, nas três décadas que ainda te restam, importa que autorize o seu convívio entre os filhos de Seth e ensine as canções secretas do Paraíso para Jubal, filho de Ada. Ele tem o dom para tocar harpa e flauta. Também a filha que Zilá está esperando no seu ventre se chamará Naamá e será esposa do meu futuro bisneto, o qual se chamará Noé.”

- “Faz sentido, meu filho. Nem tudo está perdido. Vamos partir?”

- “Claro, meu pai. Mas antes coloque suas vestes. Sei que não precisamos mais delas, porém seus descendentes não entenderão caso te vejam chegando nu na aldeia. Pensarão que enlouqueceu ou que encheu a cara de vinho”

- “Puxa vida! Foi tudo por minha culpa, Enoque. Eu devia ter recusado comer aquela fruta proibida...”

- “Não fica assim, pai Adão. Culpa não nos leva a lugar nenhum. Não penso que seja um homem mal, mas apenas um curioso. E, no fundo, Deus sabia que o senhor e a mãe Eva iriam comer da árvore do conhecimento do bem e do mal pelo que providenciou um antídoto antes de criar o mundo. Espero que, no futuro, a humanidade pare de culpá-lo por seus próprios fracassos e cada qual aprenda a assumir sua responsabilidade pelas decisões tomadas.”

- “Acho que, em maior ou menos grau, a responsabilidade precisa ser compartilhada com todos, Enoque. Mas não adiante nos queixarmos. Temos que plantar as sementes de um novo tempo desde já até que chegue o dia da promessa quando um futuro descendente de Eva pisará a serpente daquela cobra má e esta lhe morderá o calcanhar. Foi isto que o SENHOR nos falou quando fui expulso do Éden e ainda não entendi direito o significado das palavras. Como você que é profeta entende isso já que Eva não teve nenhum filho que pareça com o prometido. Pensei até que fosse você, mas como falou de um futuro bisneto que salvaria o mundo de um dilúvio, agora estou ficando confuso...”

- “Pai Adão, esta promessa vai se cumprir uns dois milênios e alguns séculos depois do dilúvio. Alguma filha das filhas de Eva dará a luz a um varão com muita graça pelo sopro de Deus em seu ventre. Ele ensinará o amor a este mundo caído e destruirá as forças do mal. Por isso, ele deverá morrer e, com sua morte, aniquilará de vez todo o veneno da diabólica serpente. Inclusive o poder da morte”

- “Amém, meu filho! Eu creio nesta promessa mesmo sem ver o rosto do menino. Que cheguem logo os dias de seu glorioso reinado! Sinto desde já que a morte não tem mais domínio sobre mim. Aquilo que chamamos de morte é mera aparência. Minha alma vive! Aleluia!”

- “Glória a Deus, pai Adão! Estou vendo que o senhor nasceu novamente mesmo com novecentos anos. Mas agora é melhor irmos nos apressando. Vou ajudá-lo a atravessar o rio.”

- “Sim, meu filho. Vamos voltar logo. Ainda quero retornar esta tarde, comemorar meu aniversário e cumprir a missão que Deus ainda tem para mim nestes últimos trinta anos que me restam”.