Crônicas da Ante-sala do Inferno




1. Tucão

Tucão não tinha dúvidas sobre onde estava. A vida que levou não lhe permitia esperança em alternativas.

Só não entendia o porquê da demora.
Não estava com medo.
O que poderia encontrar ali que já não tivesse testemunhado? Não apenas testemunhado. Ordenado.

Ser lançado no fogo?
Perdera a conta de quantos inimigos mandara para o microondas ainda vivos.
Ainda podia ouvir seus gritos, implorando para que atirassem neles assim que as chamas dos pneus começavam a ganhar força.
- Bundões, pensou Tucão.
A maioria desmaiava logo no começo, por causa da fumaça preta e mal sentia as queimaduras.
- Só o Tonico do Macaco foi macho até o fim. Morreu me encarando. Deu vontade de aliviar a dor cara e dar um tiro na testa dele, mas se demonstrasse piedade o resto da turma não ia aprender a lição do exemplo, ou pior, ia achar que o Tucão tava ficando mole, aí ia sobrar pra mim.

Tucão seguia imaginando o que poderiam fazer com ele por ali
Enfiar garfos na carne?
Já tinha cortado orelhas, pés e mãos o suficiente para montar vários caras inteiros só com os pedaços. O que era terror para a gente do asfalto era a rotina de vida do Tucão.

Não tinha medo, só estava incomodado com a espera. Parecia que estava lá há séculos. Estava ansioso para encarar as broncas de uma vez e acabar com aquela agonia, aquilo sim é que estava sendo um inferno.

O tempo não passava. Vez por outra Tucão pensava em argumentar com alguém, pedir para aliviar a dele, soltar aquela conversa de que foi criança pobre, sem oportunidades – aquela coisa de vítima da sociedade.
Mas desistia logo da idéia.
Tucão não era besta. Só os babacas da faculdade é que acreditavam naquelas besteiras. Se ele, o Tucão, não era bobo para achar que aquilo justificava seus atos, não ia ser o manda-chuva aqui do pedaço que ia cair nesta lábia.

A espera parecia interminável para o Tucão, que já tinha relembrado toda a sua vida em detalhes. Talvez mais de uma vez, talvez milhares de vezes. Era impossível ter certeza naquele lugar.

Lembrou de quando era chamado de Tucão Gravata, pela sua assinatura nas vítimas – cortava a garganta e puxava a língua para fora, que ficava com aparência de uma gravata vermelha saindo pelo pescoço do corpo. Um enfeite que avisava os manos que o Tucão não era de brincar em serviço.

É..., naquela vida era preciso meter bronca, assustar os caras. Quando eles se acostumavam com as broncas era hora de inventar coisa nova, deixar claro quem amedrontava e quem era amedrontado – o cara que amedrontava mandava. Era a lei.

Por isto Tucão não estava com medo, ele era o que amedrontava.

Só temia que aquela espera não acabasse nunca.

Tucão voltou a pensar se contando a história da criança pobre com jeito, talvez conseguisse reduzir a espera, acabar com aquela agonia.
Não, só babaca de faculdade acredita nisto. Igual aquela doutorazinha idiota.

Tucão teve a impressão de que era a milésima vez que repetia aquilo.


2. Pastor Mirandinha

O Pastor Mirandinha ainda conservava a esperança.

Talvez as coisas não fossem tão imediatas como ensinava em sua Igreja.
Talvez os anjos precisassem de um tempinho para preparar a morada ou dar ao salvo um último momento para refletir sobre seus pecados, se arrepender e entrar na glória.

Sim, era isto.
Repassaria seus pecados, se arrependeria em nome dele e sua entrada na morada celestial não tardaria mais.

Mas estava tardando.
Pastor Mirandinha não entendia.

Ele era um salvo. Remido no sangue do cordeiro. Um filho de Deus cujo nome foi escrito na glória pelo sacrifício vicário daquele de quem já deveria estar comungando da presença.

Mas não estava comungando da presença dele e nem de ninguém.
Apenas esperando e não entendia o porquê da espera, que parecia interminável.

Não podia ser por aquele pecado daquela vez. Seu momento de fraqueza. Não, ele era um salvo, um justo – luz do mundo e sal da Terra. Não seria aquele pequeno deslize que lhe fecharia os portões da Jerusalém Celestial.

Ou fecharia?
Não, nunca. Aquele pensamento foi soprado pelo inimigo num último ataque tentando lhe tirar a Fé. Querendo fazer com que morresse na praia agora que estava tão perto do objetivo que pregara ser a herança prometida a todos que compartilhavam sua crença.

O Pastor Mirandinha procurou sua Bíblia.
Não era a primeira vez, nem a segunda que fazia isto. Talvez a conta passasse em muito dos mil e mesmo assim insistia em procurar por uma Bíblia que não estava lá.
Nada estava lá.

Era apenas ele e a espera.

Tudo bem, pensava o Pastor Mirandinha, deve faltar apenas mais um pouco. Logo ouvirei as trombetas e os anjos me explicarão o porquê desta demora. Com certeza haverá um motivo tão sublime que este pequeno incidente será recontado com risos pela eternidade que o aguardava, uma eternidade sem lágrimas.

Terminou de pensar isto e procurou por sua Bíblia de novo. Era um ato reflexo. Não conseguia controlá-lo desde que chegara ali, já não sabia mais há quanto tempo.

Lembrou mais uma vez daquele pecado. Um ato de fraqueza, como o de Pedro ao negar a ele. Não seria por aquilo que seria lançado no... Não, não podia nem pensar na possibilidade. Era o Inimigo de novo. Ele era um salvo, a espera fazia parte de algum propósito superior, que ele não entendia agora, mas que lhe seria explicado no tempo devido.

A ele só cabia esperar, esperar e esperar.

Pastor Mirandinha procurou sua Bíblia mais uma vez.


3. A Mulher Letrada

- Fúteis e indecisos - aqueles que não tomaram partido do bem ou do mal são rejeitados pelo Céu e Inferno.

Aquela passagem de A Divina Comédia de Dante lhe voltava a mente com uma freqüência tão incômoda quanto a espera em si.

Já havia examinado a situação em que se encontrava e havia chegado à única conclusão possível – não havia dados suficientes para análise.
O ato de esperar não lhe fornecia informações passíveis de uma compilação estatística representativa, logo, nada estaria logicamente definido enquanto mais fatos não estivessem disponíveis.

- Fúteis e indecisos..., forçou-se a abortar aquele pensamento que insistia em voltar contra a sua vontade.
Gostava de citações, conhecia milhares de memória. Repassa-las, classifica-las e correlaciona-las poderia ser uma boa forma de dar serventia útil à espera.
Mas sempre que tentava, aquele trecho que descrevia o destino dos abandonados entre o Aqueronte e o Limbo era sempre o primeiro resgatado por sua memória, o que a fazia desistir de tentar daquele modo tirar proveito intelectual da condição em que se encontrava.

Mas havia outras memórias.

Organizadas e catalogadas em sua mente de um modo mais metódico que a maioria das bibliotecas.
Procurou pelas lembranças que lhe poderiam ser úteis naquela situação.

- Tucão.

Se a intenção era encontrar uma opção para pensamentos dantescos, Tucão Gravata era o nome certo.

Tinha certeza que compreendia melhor o mundo de Tucão do que ele próprio.
Afinal, havia feito um estudo das três gerações de seus ascendentes e traçado um rigoroso estudo sobre a cadeia de pressões sociais que construíram aquela personalidade polêmica.

Havia mergulhado tão completamente na empreitada de provar que a vida de Tucão poderia ser explicada pelo determinismo histórico, que não hesitou em se aprofundar em seu estudo um tanto além do que previa a ortodoxia da pesquisa acadêmica.

Bem, ela se considerava um tanto além do tipo de mulher que deixava as convenções burguesas ditar como deviam ser seus relacionamentos.

- Fúteis e indecisos -..., por isto aquela inconveniente citação não lhe dizia respeito.

Era séria e decidida a ponto de se aprofundar no submundo que assustava suas colegas na mesma proporção que as excitava.
Se tivesse que ter um papel na Comédia, seria aquele que Dante atribuiu a Virgílio e não como um dos figurantes anônimos de quem o poeta disse só merecerem desprezo.

- Tucão.

Lembrou-se do episódio em que o pastor da comunidade havia anunciado em sua Igreja que estava fazendo jejum e oração para ter forças para repreender os demônios que inspiravam Tucão, que, uma vez expulsos as potestades do ar que o dominavam, apresentaria seu testemunho naquele púlpito de como fora liberto pelo poder do Espírito.

Tucão, quando soube, riu e mandou que trouxessem o pastor a sua presença. Quando perguntaram se queria que o levassem para o microondas ele riu de novo, disse que quem esculachasse o cara pagaria o preço da desobediência.

- Ele não disse que converteria o Tucão? Vamos ver quem converte quem.

Ela presenciou o Tucão dizer aquelas palavras.
Também viu como Gravata recebia todos os dias, a portas fechadas, o religioso, que o visitava sempre com a mesma Bíblia embaixo do braço.
Ela notou que o pastor saía com uma aparência abatida todas as vezes, enquanto Tucão soltava fartas gargalhadas assim que o ouvia bater a porta.

Ela e o pastor nunca trocaram uma palavra, ou melhor, apenas uma, vinda da parte dele.

Um dia ela notara que o pastor, após ter saído com Tucão, voltara sem sua Bíblia.
Ela apenas olhou para o braço direito dele, mantido na mesma posição usual de quando carregava o livro – reflexo condicionado por anos de hábito, sem que nada estivesse sendo seguro por ele.

O pastor percebeu o olhar e disse apenas:
- O microondas..., o microondas...

Por tudo isto ela não era, não podia ser fútil ou indecisa. A citação de Dante não dizia respeito a sua pessoa.

Ela tinha conhecimento suficiente da realidade dos fatos para entender todo o processo quando a espera terminasse.

Mas a espera parecia não terminar nunca.