Um Deus a nossa imagem





No principio o homem criou a imagem de Deus, e fez essa imagem a sua própria semelhança. Pois quando primeiro o Espírito de Deus pairou sobre a vida que habitava na face da terra, Ele estava sem forma compreensível para o entendimento do homem, e sua definição ainda era vazia. Então disse o homem: pintemos Deus com as nossas cores, conforme a nossa possibilidade de distinguir e desenhá-lo. E assim fez o Homem a caricatura de Deus conforme os contornos e nuances que ele encontrou em sua própria imagem.

E por isso desde sempre Deus foi visto e vestido conforme os sentimentos e temperamentos humanos por ser impossível representar a Deus com imagens e emoções que não seja aquelas que o homem conheceu e sentiu em si mesmo até agora. Pois de onde vem esta figura de Deus como um rei soberano que domina sobre tudo, se não da própria noção imperialista dos homens que sempre sentiram a necessidade de um governo para fazer justiça e trazer paz entre os homens.

E de onde vem esta reação de ira de Deus para com os transgressores se não foi do próprio senso de justiça intrínseco no ser de cada ser humano. E o que dizer do ciúme Divino para com os seus escolhidos que nada mais é do que projeção humana em Deus dos seus próprios instintos de amor e posse. E mais ainda, atribuíram a Deus o sentimento ditatorial dos imperadores humanos que não aceitam não serem amados e questionados, e que castigam todos os que ousam protestar e insurgir contra as suas leis e domínios.

De fato Deus sempre esteve entre os homens, mas as suas ações foram interpretadas na medida em que os homens puderam entender por semelhança daquilo que eles mesmos percebiam neles. Porquanto não há outra linguagem para descrever a Deus se não a linguagem humana, assim como nunca existiu conhecimento humano de outras emoções e condutas se não as conhecidas e sentidas pelo próprio homem, com a qual ele descreveu até agora Deus e sua ação no mundo.

Deus jamais tem sentimentos determinados conforme reações e incidentes assim como não sofre influências exteriores ou é determinado por instintos condicionados como o homem. Deus é Deus e não é homem, por isso é impossível de Ele agir como o ser humano que não dá o direito ao outro de não ser amado, e que pune todo aquele que ousa ignorá-lo. Deus não precisa receber glória assim como os reis humanos, pois a sua gloria é a sua Glória, e não precisa receber aquela que é, e vem do homem, Ele se basta a si mesmo.

À vista disso Deus não se sente ofendido em sua honra, e não se importa em ser confrontado, antes releva toda a nossa ignorância e petulância, permitindo a liberdade de Pensamento de cada criatura neste universo. Portanto se ele existe como criador do homem Ele está muito além de todo sentimento humano com o qual o representaram até agora. Relativizar a Deus não é por em cheque sua soberania, mas descrevê-lo com sentimentos humanos como os nossos. Não que a forma como homem escreveu no passado sobre Deus esteja errada, mas que ela não representa a totalidade do Ser de Deus, para ser tida como declaração absoluta e inquestionável sobre Ele.

A história humana sagrada sempre foi a historia de como o homem viu e percebeu a Deus e sua ação no mundo e em si mesmo. Todo relato escrito foi escrito como testemunho humano da poderosa impressão no homem de tudo aquilo que ele experimentou e constatou como atuação divina sobre ele. Até agora o homem disse muito mais para Deus de si mesmo de como o homem o percebia, do que Deus mesmo disse ao homem de como Ele os enxergava e os definia. Assim sendo o livro de Deus não é totalmente uma Palavra ditada ao homem tanto quanto é mais essencialmente um livro do homem para Deus, escrito pelos homens para ser lido por Deus.