Feliz Natal! Em nome de quem mesmo?

 
 Quatro virgens e seus filhos ilustres

Por volta do ano 556 aC, onde hoje é o Nepal, a virgem Mâyâ Devî trouxe ao mundo um menino, Sidarta Gautama, o futuro Buda. Em 25 de dezembro, outra virgem chamada Anâhita, a Imaculada, pariu o menino Mitra (mencionado pela primeira vez em um tratado de paz de cerca de 1350aC), a quem pastores e magos vieram prestar homenagem. Outra virgem, Devakî, deu à luz – enquanto era mantida prisioneira por seu primo, o rei Kamsa – um menino chamado Krishna, há 5 mil anos. Já em Belém, Maria, informada pelo anjo Gabriel de que seu filho seria “o Salvador”, trouxe ao mundo em uma gruta o menino Jesus, em 6 ou 4 aC.



Os quatro meninos, apesar de nascerem de virgens, seguiram caminhos paralelos. Buda um dia se retirou para o deserto, onde o demônio veio tentá-lo, oferecendo fazer dele o rei dos reis. Depois de se purificar em um rio, Buda dedicou-se à pregação e ensinou o amor ao próximo, seguido por 12 discípulos dos quais um, Devadatta, seria chamado a traí-lo. O Revelado andou sobre as águas, acalmou a tempestade. Seu dogma, o carma, designa o conjunto de méritos e faltas acumuladas pelo homem e que o arrasta num círculo indefinido de vidas sucessivas. Quando morreu, aos 80 anos, a terra tremeu.



Mitra exerceu o papel de intercessor entre Ahura Mazda, divindade suprema da antiga Pérsia, e os homens, aos quais prometeu a imortalidade da alma. Pregou o ascetismo, curou os doentes, ressuscitou os mortos. Em sua homenagem, diversos soberanos passaram a se chamar Mitrídates. A festa de Mitra era celebrada em uma gruta onde se praticava o batismo e a comunhão. Seus fiéis acreditavam no Juízo Final e na ressurreição. Antes de morrer, Mitra ofereceu uma última ceia a seus discípulos durante a qual consagrou o pão e a água. Colocado no túmulo, ressuscitou.



Krishna, para seu seguidores, é a reencarnação do deus supremo e benfeitor Vishnu, revelador de todas as verdades. Cresceu em meio aos pastores do monte Meru, que o chamavam de Radiante, devido a sua beleza. Guardava os rebanhos tocando flauta, o que atraía as pastoras. Krishna, apesar de casado, tornou-se amante de muitas mulheres; o amor carnal representa para seus adeptos certa forma de devoção, o desejo de união com o Criador para receber dele o dom da vida. Suas proezas amorosas são contadas no Bhagavata purana, obra de misticismo erótico. Krishna pregava a bondade, a caridade e o respeito aos outros. Sua popularidade acabaria por despertar o ciúme do rei Kamsa, que enviou espiões. Krishna, depois de sete dias de abluções e preces, deixou-se capturar para que o martírio coroasse sua missão. Morreu sob as flechas dos arqueiros. Quando entregou o espírito, o céu escureceu. Segundo a tradição indiana, sua morte, ocorrida na noite de 17 para 18 de fevereiro de 3102 aC, marca o início da presente era cósmica, a Kali Yyga, que deve durar 432 mil anos.



Jesus passou a juventude na carpintaria de José, seu pai protetor. Foi batizado pelo primo João Batista nas águas do Jordão – a imersão, símbolo da purificação, era praticada em quase todas as religiões antigas. Jesus retirou-se 40 dias no deserto, onde o demônio o tentou. Aos 30 anos, começou a pregar, seguido por 12 discípulos. Curou doentes, andou sobre as águas, multiplicou os pães, aceitou que a pecadora Maria Madalena derramasse perfume sobre seus pés. Em Jerusalém, expulsou os mercadores do Templo e atraiu a hostilidade dos fariseus. Na véspera de sua prisão, ofereceu uma última refeição a seus discípulos e instituiu a Eucaristia, benzendo o pão e o vinho. Traído por Judas, foi levado perante o governador romano da Judeia, Pôncio Pilatos. Condenado à morte, foi crucificado sobre o Gólgota. Quando entregou a alma, o sol se escondeu. Sepultado, ressuscitou e 40 dias depois, subiu ao céu.

Os discípulos de Jesus entraram em conflito com os fiéis de Mitra, cuja religião se difundia pelo Ocidente. No século II, Roma e Óstia tinham templos subterrâneos dedicados a Mitra, o que originou violentas querelas com os chamados Pais da Igreja. Estes ficaram indignados com a ideia de que os pagãos tivessem se apropriado da gruta de Belém e dos sacramentos cristãos. O historiador latino Justino e o primeiro grande teólogo cristão, Tertuliano, fustigaram Satã, “que imita os sacramentos de Deus nos mistérios dos ídolos”. Já os sacerdotes de Mitra censuraram os cristãos por ter “tomado de empréstimo” deles a ideia da redenção. No século IV, o imperador Teodósio I resolveu o problema privilegiando o cristianismo.


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Claude Pasteur é historiador e escritor. Texto editado originalmente publicado na revista História Viva 103.