Vendo Deus


Era uma cinzenta manhã de domingo. A chuva tamborilava insistente na janela. Dezenas de pingos brincavam de escorregar e ficavam num diz-que-diz sem parar. Em meio a todos os barulhos externos e internos, clamava silenciosamente para que Deus deixasse que eu ouvisse Sua voz. Mal sabia eu que o Leão domesticado tinha mais em seus planos. Ele queria que eu o visse. 

E naquele dia, Ele era uma mulher da periferia. Seu olhar acidentalmente encontrou-se com o meu. Ela passou a mão calejada pelo trabalho árduo em seus cabelos emaranhados, recém-lavados com sabão de coco, melhor que muito xampu de gringo, me diria mais tarde. Seu sorriso revelava força e superação de sobra, embora nele faltassem alguns dentes. Decido que em poucas vezes vi uma mulher tão bonita. Sua beleza transcendia todos os padrões culturais. Não pedia autorização para pulsar. Ela simplesmente existia, e não havia cirurgião plástico que pudesse retocá-la. 

Deus, naquele domingo, calçava chinelos de dedo e vestia bermuda e camiseta. Tomando um café recém-coado, ela me contaria sua história. Marido fugira de casa por outra mulher, abandonando-a com seis filhos pequenos. Nesse meio tempo, ela fez de tudo. Perdeu dentes, olhos, costurou, lavou, fez doce, artesanato, faxina. Suas mãos se escalavraram, seus anéis se dispersaram, sua corrente de ouro pagou conta de farmácia. Seus filhos estudaram, cresceram, casaram-se. E depois de onze anos, seu marido voltou pra casa. Bêbado. 

Embora ele tenha voltado, ela vive apenas das memórias dos tempos felizes. E aparentemente, elas são muitas. Ao menos, são suficientes para que ela diga que o ama e que ainda sente um friozinho na barriga antes de deitar-se ao seu lado. E diz também que Deus já havia realizado basicamente todos os seus sonhos. Abre a bolsa de couro gasto e me mostra fotos de seus netos. Bonitos, de olhos verdes. E um Deus que dá netos de olhos verdes para uma senhora como ela não é um Deus poderoso o suficiente para trazer seu amor de volta? 

Eu a abracei, como se abraçasse Deus. E senti a saudade que me secava e corroía calar-se. Estava esperando Deus, cavocando minha pele com as unhas, querendo um pôster dele sob a minha cama. Achava que o encontraria quando fugisse com o sol para a casa em que ele se escondia ao findar seu expediente. Não sabia que encontraria Deus naquele lugar tão inesperado. Funguei meu nariz e me poupei de chorar, não só porque tentava ser forte. Na verdade, foi porque não queria deixar que nada lavasse o encanto que encheu meus olhos ao olhar nos olhos de Deus, que naquele momento era aquela mulher. Seus olhos escuros eram cansados, mas profundos. Seriam tristes, se no fundo deles não se visse um jardim. Não daqui, mas jardim. 

Doroth Nogueira de Assis tem 18 anos, é de Jundiaí (SP), cursa Serviço Social na UNIFESP e escreve no blog “Diário de uma Crisálida“.

Fonte: Diário de uma crisálida   via   Juliano Fabrício