Sofrimento humano: Onde está a moral divina?




Se vivemos num universo moral onde um Deus moral, soberano e amoroso tem tudo sob sua vontade "permissiva" ou "decretativa", o sofrimento dos inocentes e os prazeres dos injustos e ímpios nos põe em grave dilema teológico: Se uma criancinha morre de câncer, onde está a moral divina que permite tal coisa? Se tentarmos "resolver" o problema dizendo que a culpa é do diabo ou do pecado, o dilema persiste, pois teremos que admitir que Deus permita que inocentes sofram pela ação de forças que estão além das forças do inocente.

Talvez tenhamos que admitir que a moral é uma dimensão humana, apenas humana que nada tem a ver com um Deus moral. Aí então, o problema (talvez) se resolve: a criancinha foi vítima das circunstâncias normais da existência humana, onde a dor é sempre uma constante. E nem Deus e nem o Diabo tem nada a ver com isso.

O filósofo Emanuel Kant dizia que duas coisas o enchiam de espanto: a ordem das estrelas no céu e o sentimento moral no coração dos homens. Uma das grandes perguntas filosóficas existenciais é: "Por que alguns sofrem e outros não"? E geralmente quem faz a pergunta é quem está sofrendo. Foi assim com o personagem mítico de Jó. Ele era justo, temente a Deus e de repente se viu imerso em grande dor e sofrimento. O autor desse belo livro bíblico queria discutir exatamente isso: Por que o justo sofre e muitas vezes o injusto, não?

Se aos bons e inocentes fossem dados prazer e alegria e aos maus e culpados, sofrimento e desgraças, a gente compreenderia e até acharia bom, pois parece justo que os maus paguem suas maldades com sofrimento. E daqui que saiu a doutrina cristã do inferno: os maus podem até se livrar da justiça aqui na terra, mas lá no além terão o que merecem!

Vamos imaginar que o universo é uma ordem moral. Se isso for verdade, os bons são recompensados e os maus são punidos. Se esse é o caso, somos forçados a concluir que, se alguém está sofrendo, seu sofrimento tem de ser merecido. Os discípulos de Jesus pensavam assim. Eles viram um cego mendigando à beira da estrada e concluíram que a sua cegueira era castigo de Deus por algum pecado dele ou dos seus pais. (Que Deus horrendo esse, que castiga nos filhos os pecados dos pais!). Mas Jesus discordou. O Deus de Jesus não deseja que os homens sofram. Sua resposta foi: "Nem ele nem seus pais pecaram".

A verdade é que coisas ruins acontecem com gente boa. Isso nos parece absurdo e injusto. Essa nossa indignação surge exatamente do nosso sentimento de moralidade. Queremos justiça! Mas temos que concluir que o sofrimento dos bons e os prazeres dos maus nos dizem que o universo não é uma ordem moral. Se assim fosse, seria um ótimo negócio ser bom.

A mensagem de alguns religiosos de que se estivermos bem com Deus, tudo dará certo não se comprova na realidade do dia a dia. Quando pessoas boas sofrem e dizem "eu não merecia!", estão afirmando sua inocência, como fez Jó. Mas essa pergunta só tem sentido se você imaginar que os sofrimentos e os prazeres são enviados por Alguém Todo-Poderoso, que toma conta do universo. E existem pessoas que acham que é assim, as pessoas sofrem por que Deus quer: A criancinha com câncer, o jovem adolescente que morre num desastre de carro, a pessoa assassinada por um assaltante, os grandes terremotos... tudo isso poderia ter sido evitado se Deus quisesse.

Diante disso, o escritor e psicanalista Rubem Alves declara:

"Confesso a você que, se eu acreditasse num Deus assim, se eu acreditasse num Deus que tem prazer no sofrimento das pessoas, eu O odiaria do mais profundo do meu coração. É sempre possível que algo terrível me aconteça. Se acontecer, eu sofrerei. Mas não culparei ninguém. Sofrerei sem revolta, sabendo que Deus é inocente".

Então, a crença num Deus moral e bom que governa o universo e que tem tudo sob o domínio da sua vontade, carece de experimentação empírica nas dolorosas experiências de sofrimento que temos que enfrentar a cada dia. A não ser, é claro, que ele seja de fato como pensavam os discípulos de Jesus.


Fonte:  Baseado num artigo de Rubens Alves: A ordem Moral