Filosofando a Philosophia - A questão de Deus em Jean Paul Sartre


Em entrevista dada a Simone de Beauvoir em agosto/setembro de 1974, Sartre é por ela perguntado acerca da vida além da morte, questionando o filósofo, se nunca houvera sido tocado por essa idéia ou pela idéia de um princípio espiritual inerente ao ser humano. Ao que ele responde "Parece-me que sim , mas como um fato quase natural (...) Todo o futuro que imaginamos na consciência remete à consciência".[xii] Toda a questão aparece permeada pelo primado da subjetividade, do ser que se estabelece no nada da consciência.

Seu ateísmo nascera a partir de um insight precoce, ainda na adolescência. Segundo Sartre, suas relações com Deus, que nunca se estabeleceram na perspectiva de sujeição ou de compreensão, não passavam de relações de boa vizinhança. Chega a declarar sua presença num certo dia em que ateara fogo na casa, como um olhar que eventualmente pousara sobre ele.

Por volta dos seus doze anos, na cidade de La Rochelle, envolvido em situações corriqueiras da infância, subitamente lhe ocorreu o pensamento de que Deus não existia. Sartre afirma não saber exatamente de onde surgira tal idéia ou como nele se instalara, mas o fato é que, a partir de então aquela pequena intuição o acompanharia, quase como uma certeza, "uma verdade que me surgira com evidência, sem nenhum pensamento prévio (...) um pensamento que intervém bruscamente, uma intuição que surge e determina a minha vida"[xiii]. Notável é também o fato de que um pensamento surgido aos onze anos o levasse a nunca mais perguntar acerca desta questão.

Sua ida para Paris, segundo ele, fortificou a sua posição efetuando a transição de um ateísmo idealista para um ateísmo materialista, para ele, quando dizia, "Deus não existe", se desfazia de uma idéia que estava no mundo, colocando em seu lugar um nada espiritual, era uma grande idéia sintética que desaparecia e que levaria Sartre a um pensamento diferente acerca do mundo. Para ele, "a ausência de Deus era visível em todos os lugares"[xiv].

Pensar o seu próprio ser, no mundo e fora dele, e o mundo sem Deus, parecia a Sartre um empreendimento novo, já que não se encontrava, na época da Escola Normal, a par dos escritos ateus, e uma vez que "uma grande filosofia atéia, realmente atéia, não existia na filosofia. Era nessa direção que era preciso agora tentar trabalhar."[xv] Seu desejo era o de fazer uma filosofia do homem, num mundo material.

O existencialismo ateu de Sartre é afirmado por ele como estrutural e parte de sua constituição cultural. O problema de Deus atravessa toda a obra de Sartre, contudo mais em nível intelectual e teórico do que em nível de vivência. O ateísmo Sartre é efetivamente difundido em sua obra "O Ser e o Nada", em outros escritos como "Anotações para uma Moral", existe uma forte filosofia atéia , orgânica e muito bem exposta. "Ainda na metade dos anos 70, Sartre dirá que L'être et le néant ("O Ser e o Nada") continha uma exposição das razões de sua rejeição à existência de Deus: mas não eram aquelas as razões autênticas de seu ateísmo. O seu ateísmo (...) fora uma intuição de seus doze anos e não podia ser reduzida a uma discussão de teses filosóficas sobre a impossibilidade da existência de Deus"[xvi].

Em A cerimônia do Adeus, Sartre apresenta Deus como um ser na direção do qual tende a realidade humana e que é ele mesmo o coração dessa realidade: Deus é a realidade humana como totalidade. Dessa nascente surge a idéia do nada espiritual, da idéia ausente. Influenciado por Feuerbach, Sartre afirma que "a alma humana é apenas o rastro imperfeito dos esse, nosse, velle perfeitos de Deus". Em suma, "o homem é o ser que projeta ser Deus"[xvii]. "Ser homem é tender a ser Deus: ou caso se prefira, o homem é fundamentalmente desejo de ser Deus"[xviii] A consciência é remetida não à inexistência de Deus, mas se ele pode ser realizado.

Na verdade o ateísmo é uma relação com Deus, fruto de uma conversão filosófica, pois a própria crença em Deus é devida à condição humana e não aos condicionamentos histórico-sociais. Em acordo com Marx, Sartre afirma o sentimento religioso como um álibi e uma fuga da própria condição humana, pois para o homem existe sempre uma luta a travar contra a ilusão transcendental que é a relação com Deus. Invertendo o mito de Cristo, de um Deus que se sacrifica para que o homem viva, na verdade é o homem que perpetuamente se sacrifica em prol da existência de Deus. "Sacrifício inútil e prejudicial" [xix]

O existencialismo de Sartre conduz ao desespero, pois nele o ser humano encontra-se sozinho, abandonado, independente. Em Anotações para uma Moral Deus é a categoria para todas as alienações, é a hipótese de objetivação do homem.


O diabo e o bom Deus


“(...) Supliquei, pedi um sinal, enviei mensagens ao Céu: nenhuma resposta. O Céu ignora até o meu nome. Eu me perguntava, a cada minuto, o que eu poderia ser aos olhos de Deus. Agora, já sei a resposta: nada. Deus não me vê, Deus não me ouve, Deus não me conhece. Vês este vazio sobre nossas cabeças? É Deus. Vês esta brecha na porta? É Deus. Vês este buraco na terra? É Deus ainda. A ausência é Deus. O silêncio é Deus. Deus é a solidão dos homens. Eu estava sozinho: sozinho, decidi o Mal; sozinho inventei o Bem. Fui eu quem trapaceou, eu quem fez milagres, eu quem se acusa, agora, eu, somente, quem pode absolver-me. Eu, o homem. Se Deus existe, o homem nada é; se o homem existe... para onde vais? 21

Nesta peça teatral Sartre utiliza-se do diálogo que traduz-se num meio deveras interessante da transmissão de uma mensagem que é ao mesmo tempo crítica e realista. O texto traz consigo uma estória que provavelmente se dá na Idade Média, Alemanha. Período esse marcado por uma presença forte da Igreja Cristã (Católica) principalmente do clero, de militares, de uma pequena população urbana, de uma boa quantidade de campesinos, de pobres, de meretrizes, de profetas, anjos, demônios e, logicamente do Diabo e do Bom Deus.

É por demais fascinante a maneira com que Sartre desenvolve sua peça bem como a precisão e inteligência com que coloca as frases dos personagens.

Numa epítome é possível tornar explícita a questão de Deus bem como do Bom Diabo, ou melhor, do Diabo, do Bem e do Mal, da seguinte forma: tanto Deus quanto o Diabo nesta peça são sinônimos do poder para matar, ordenar, amar, roubar, legitimar, vingar etc. Nobres, religiosos, militares, pobres, doentes, marginalizados enfim, todos procuram se apoderar de Deus, que é o Bem, para defenderem os seus interesses e legitimarem suas ações. Contudo seus intentos e atos, parece que na maioria das vezes, são carregados de anseios particulares com vistas ao benefício próprio. Benefícios esses que favorecem o detentor de Deus–Bem, porém são maléficos (Diabo–Mal) para todos aqueles que sofrem para que um se beneficie. Vê-se portanto que Deus e Diabo não passam de conceitos criados a fim de legitimar o poder de uma(s) pessoa(s) sobre a(s) outra(s). (Exemplos: O Exército X luta com o Exército W, os dois assim o fazem em nome e para a glória de Deus; Vende-se indulgências para que um se salve (que é algo Bom – Deus) não vá para o inferno (O Mal–Diabo) e assim continue a fazer o seu Mal–Diabo de cada dia com aval de Deus–Bem, e o outro enriqueça por intermédio da barganha (O Mal–O Diabo) porém salve uma pobre alma do Inferno (O Mal–O Diabo); As pessoas tornam-se profetas de Deus– Bem muita vez para sua própria honra, O Diabo–O Mal). Sendo assim, o ser humano seria incapaz de viver somente com o Bem–Deus ou somente com o Mal–Diabo, ambos são necessários. Destarte, há como entender que apenas a presença única do Diabo–O Mal ou de Deus–Bem seria algo muito monótono, então é necessário os dois existirem para que o ser humano caminhe e tenha em quem jogar a culpa por seus fracassos e êxitos.


O existencialismo é um humanismo


Sartre defende o existencialismo contra os católicos afirmando que esta é uma doutrina que torna a vida humana possível graças a subjetividade humana. Sartre ainda especifica a diferenciação entre as duas escolas do existencialismo, a dos existencialistas cristãos Jaspers e Marcel e os ateus Heidegger e o próprio Sartre, afirma que a única coisa que une estas duas correntes é que a existência precede a essência. Ou se preferir é necessário partir da subjetividade.

O existencialismo ateu afirma que, se Deus não existe há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito. Este ser é o homem ou melhor a realidade humana . Isto significa que , em primeira instância , o homem existe, surge no mundo e só posteriormente se define.

O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada ; só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la .

O homem é aquilo que ele mesmo faz de si, é a isto que chamamos de subjetividade. Porém, se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é de por todo o homem na posse do que ele é de submete-lo à responsabilidade total de sua existência.

Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, e também escolhe todos os homens.

O existencialista, pensa que é extremamente incômodo que Deus não exista, pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar valores num céu inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori; já que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensa-lo.

Se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim não teremos nem atras nem a frente nenhuma justificativa para nossa conduta . Estamos sós , sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo mas por estar livre no mundo estamos condenados a ser livres.

O existencialista não pensara nunca, que o homem possa conseguir o auxilio de um sinal qualquer que o oriente no mundo, pois é o homem quem decifra os sinais.