O crente fundamentalista que encontrou um Deus legal



I – De como Severino viveu, se converteu e morreu


Severino era um cabra mais pior que encapetado
De tudo que era maldade ele já tinha praticado
No copo era imbatível, bebia por atacado
Brigava, jogava e mentia, assim vivia o condenado

Só era bem recebido pela tal madame Cristina
Com quem gastava tudo que ganhava na jogatina
Gabava-se que para ele três mulheres eram fichinha
No bordel fazia de tudo, menos beijar a bichinha

Mas sucedeu-se que um dia, ninguém sabe bem porque
Severino sumiu-se uns tempos, pra onde não sei dizer
Sentiram a falta dele no carteado e no métier
Onde anda o Severino? Quem podia responder?

Pro assombro da cidade, foi numa tarde de sábado
Que todo empertigado reaparece o mal falado
De livro em baixo do braço e dentro de um terno passado
Não podia ser Severino, devia ser seu copiado

Acercado de toda gente que queria explicação
Severino calmamente esperou a aproximação
Quando todo mundo à volta o olhava com atenção
Solta ele um grande grito: “ENCONTREI A SALVAÇÃO!”

O povo fez-se em silêncio, o encapetado abestalhou-se?
Não, dizia ele, da perdição o Senhor me trouxe
E hoje sou renascido, lavado no sangue da cruz
De agora em diante vivo para louvar o nome de Jesus

Devia ser brincadeira ou excesso de cachaça
Dizia o povo reunido lá no meio da praça
O Severino que antes sustentava a madame
Passava abaixo assinado para fecharem a casa infame

E foi assim por muitos anos, até que toda gente esqueceu
Do antigo Severino, que tanto trabalho deu
Ele era agora boa gente, apesar de muito chato
Só falava coisa de crente, era uma pedra no sapato

Um dia o Severino, adoeceu-se gravemente
E a cidade logo soube, que o passamento era iminente
Na igreja dele instalou-se oração e comoção
E até madame Cristina lamentou de coração

Severino já na espreita do terrível finalmente
Disse que era chegada hora, mas que partia contente
Ia ver seu salvador em sua hora mais urgente
Diante do qual então, se humilharia alegremente

Mal falou bateu a botas, abotoou o paletó
Foi pra terra dos pés juntos comer capim pela raiz
Mas conta-se a boca miúda que aqui não acaba o trolóló
O Severino após a morte se tornaria aprendiz


II – De como o crente Severino encontrou um Deus legal


Chegou Severino numa sala mais pra lá de bem modesta
Com uma mesinha e duas cadeiras, mas que porcaria é esta?
Se perguntava o falecido enquanto coçava a testa

Sente-se, não se aveche e se ponha confortável
Disse uma voz misteriosa de origem inescrutável
Severino então sentou e um rapaz veio recebê-lo
Oi, eu sou Deus, muito prazer em conhecê-lo

Tomado o susto do momento, o Severino calado
Se jogou de cara no chão, de joelhos prostrado
Deus olhou o cabra encolhido e disse com cara de enfado
Se levante e sente a bunda nesta cadeira ao seu lado

Meu senhor, eu te louvo, disse o Severino tremendo
Deus olhou meio de soslaio e disse: homem tome tento
Se aprume e me assunte, que o rapapé não tá a contento
Deixe de puxassaquismo e vamos ao que é o intento

Meu senhor, teu livro santo, de cabo a rabo já li
Deus já um tanto arretado, responde: não te entendi
Fiz sonetos e sinfonias, mas a Bíblia eu não escrevi
Por sinal nem gosto muito de algumas coisas ditas ali

Severino perturbado, com um Céu que não entende
Clama que o Salvador diga o que dele se pretende
Deus responde com a pergunta: O Dalí ou o Allende?

Diante do diferente de tudo que esperava
O remido jogador tenta a última cartada
Pede a Deus que o livre do inferno e que lhe conceda a graça
De graça nem almoço, disse Deus, sua proposta é negada

Um terror maior então tomou a face do crente,
Implorou para não ser jogado no lago de fogo inclemente
Mas porque eu faria isto, homem, que idéia mais desenxabida
Esta história de inferno é por demais descabida

Sem graça e sem inferno, sem Bíblia e sem Jesus,
Quedou-se triste Severino, como se carregasse uma cruz
Deus deu-lhe dois safanões, choradeira não me seduz
A eternidade é longa, e ela que te conduz
O infinito é grande, e é ele que te traduz
Severino, és um homem, no teu ser há luz

E foi assim que o Severino, um cabra bem diferente
Que foi jogador rufião e tornou-se fiel crente
Converteu-se ele de novo, agora em gente normal
Desistiu das armadilhas que arma a crença boçal
Porque descobriu Severino, que o seu Deus era legal.