Filosofando a Philosophia - Karl Jaspers e a fé filosófica



A essência e a existência humana em Cristo


O ser em sua existência é limitado, finito e alienado, portanto distante do seu Criador, o qual é essência. Compreende-se, porém que por o homem por sua semelhança à imagem de Deus traz consigo esta mesma essência, a qual busca Deus. Assim se estabelece um paradoxo, na medida em que a mesma existência que aliena é também a única possibilidade de aproximação de Deus.

A existência em sua tentativa de auto-satisfação, não consegue preencher o vazio da separação de Deus, mas o encontro com a essência é que efetivamente atenderá as exigências do ser limitado. Jesus Cristo é a essência, como parte da Trindade que se faz homem, portanto Ele representa a única possibilidade de satisfação na existência.

Jesus Cristo se deixa reconhecer em uma realidade finita e não seria o Cristo se aqueles que o esperavam não o tivessem recebido como o Messias. Naturalmente há também uma recepção de fé, caso contrário seria somente mais um profeta em meio a tempos difíceis, um homem religioso, um outro Cristo, cujo valor seria unicamente histórico. Entretanto, as pesquisas históricas nos levam às primeiras comunidades, as quais eram impregnadas de seus próprios costumes, suas tradições e idéias. Jesus apresentado por estas comunidades estaria restrito e limitado por sua versão. Portanto a existência do Cristo é uma opção de fé.


Deus


Encarado como um Enigma[2], pois as significações que não podem ser reduzidas ao objeto significado são por nós denominados assim. Sendo assim o Enigma pode ser objetivo ou subjetivo, isto é, objetivo quando o homem percebe alguma coisa que lhe vem ao encontro, e subjetivo quando o homem o cria em função de suas concepções, modo de pensar e poder de entendimento. Então claramente é entendido que Deus, para a fé cristã é o Transcendente, pois é subjetivo, pois não é possível comprova-Lo de forma objetiva pois o homem constrói a figura de Deus a partir das suas próprias experiências. Portanto ao mesmo tempo cremos num mesmo Deus – o Deus Supremo, Eterno –e em um Deus diferente, a partir do momento em que se sabe que a minha concepção de Deus é diferente da do outro. Se Deus é colocado como um objeto específico – isto é ciência e não transcendência. Portanto, através da ciência a explicação sobre Deus é inviável, pois Ele é entendido no campo subjetivo e não no campo objetivo como faz a ciência,então ficamos com o campo dos Enigmas, que dá margem para o transcendente.

“A palavra ‘Deus’ destina-se a designar algo que nós, pura e simplesmente, não chegamos a compreender. O israelita do Antigo Testamento procurou, sem êxito, esclarecer o sentido dessa palavra; mas jamais duvidou de que Deus existia.[3]


A Fé Filosófica


Se perguntarmos de onde viemos e para onde iremos viver, seguramente haverá questionamentos. Só podemos explicar através da fé na revelação, fora da fé na revelação só há o nihilismo (filosofia do nada).

A fé filosófica é a fé do homem que pensa, tem sempre uma aliança com o saber.

É conhecimento ilimitado, onde a ciência é o elemento fundamental desta filosofia. Não pode haver nada que não possa interrogar, nenhum mistério que possa estar encoberto da investigação.

A fé filosófica quer logo esclarecer a si mesma. A fé não pode tornar-se saber de validez universal. Deve estar presente por autoconvicção, e deve incessantemente ser mais clara, mais consciente e ser posta cada vez mais no manifesto da consciência.

Deus é o transcendente, aquilo que está “além do domínio da ciência e do domínio da Existência”[4].

Ele se manifesta a nós principalmente através das situações-limites, situações estas que nos levam a encontrar as soluções além de nossos limites existenciais, isto é, além das nossas capacidades. Sendo assim, há situações em nossa vida aonde nossa finitude, limitação nos impede de “andar”, então começaremos a “andar em terreno transcendente”.

O transcendente não é para ser explicado, pois é o que é, não se limita ao espaço, nem ao tempo ou lugar. O transcendente vai além da existência do ser humano.

Para tocá-Lo precisamos de fé, pois através desta conseguimos sair do mundano, da existência limitada e nos transpormos ao transcendente. Sendo assim para se tocar no transcendente temos que ter uma fé transcendente. E esta não busca explica-Lo e sim estar em comunicação com Ele, pois Ele por ser transcendente é além de nossa existência; e se manifesta através de cifras (mundo, homem...) e o fundamento da fé é a linguagem cifrada. Meio pelo qual há a comunicação entre ambos.

Só que esta comunicação não é possível, pois “Deus não é objeto de demonstração, nem, muito menos, de experiência. Deus é invisível e não pode ser visto nem demonstrado, mas somente crido”.[5]

Deus é o Absoluto, e como tal “simplesmente não pode existir porque não existe nenhum ser absolutamente indeterminado, um ‘ser’ semelhante é igual a nada”[6].


As Doutrinas Existencialistas


A Transcendência:

Ela é “insusceptível de ser conhecida ou pensada, que existe absolutamente sem qualquer determinação e da qual somente se pode saber que ela é, sem nunca se saber o que ela é, porquanto o único enunciado que dela se pode estabelecer consiste em afirmar, com Plotino, que ela é o que é – ou com o Deus do Antigo Testamento: Eu sou o que sou”[7].

Pois se a limitarmos no como ela é, reduziríamos a divindade ao mundo ou o mundo a Deus. E isto faria com que este perdesse a Sua dimensão, e vastidão. Destruiríamos a “questão” de Ele ser infinitamente mais, pois O demilitaríamos a conhecimento do nosso eu-pessoal. Isso é totalmente fora de questão.

Então “Deus não é o ser pessoal que o homem piedoso idealiza espontânea e arbitrariamente na oração, na qual Deus se torna para ele um Tu, um Juiz, um Legislador, um Pai. Não há dúvida de que é duro reduzir o Deus pessoal ao seu ser de cifra. No entanto, não há outro caminho a seguir uma vez que o abismo da Transcendência é demasiado profundo para poder ser sondado. Temos que fazer de Deus um Dasein análogo ao nosso, reduzindo assim a divindade ao mundo ou o mundo a Deus”.[8]

Dentro desta concepção o Deus pessoal do cristianismo é inviável, pois isso seria limita-Lo ao nosso conhecimento limitado e falho.

Deus é muito mais, portanto é impossível , segundo Jaspers, coloca-LO em parâmetros humanos; bem como de através da oração entrarmos em contato com Ele , uma vez que Este se comunica através de cifras. E estas se diferem de uma pessoa para outra, quer dizer, o Deus que concebo e creio não é, e não pode ser o mesmo Deus que concebe e crê meu amigo, pois ambos têm percepções e ‘Daseins’ diferentes.

Logo não posso ‘construir’ uma definição de Deus universal por causa dessa pluralidade de visões e percepções humanas e pela finitude dessas.

Também porque Deus como o transcendente é infinitamente mais, e como tal, afirmo Sua existência – Ele é – mas, não O conheço pois em minha existência não consigo conceber uma ‘existência tão superior a minha’ , daí o conceito de Deus ser o transcendente; sendo então impessoal e não conhecível.