É claro que Deus não é cristão

 
Súplicas pela tolerância entre os credos

(Trechos do primeiro capítulo do livro “Deus não é Cristão”)


Não é notável que, na parábola do Bom Samaritano, Jesus não dê uma resposta direta para a pergunta “Quem é o meu próximo?” (Lucas 10:29)? Decerto ele poderia ter compilado uma lista de pessoas a quem o escriba poderia amar como a ele mesmo, assim como exigia a lei. Mas Jesus não faz isso. Ao contrário, ele conta uma história. É como se Jesus quisesse, entre outras coisas, ressaltar que a vida é um pouco mais complexa; a vida contém muitas ambivalências e ambigüidades que nem sempre permitem uma resposta direta e simplória.

Essa ambivalência é uma enorme bênção, porque em tempos como o nosso – tempos de mudança, em que muitos pontos de referência conhecidos estão mudando ou desaparecendo –, as pessoas se sentem desnorteadas; elas anseiam por respostas diretas e sem ambigüidade. Parece que estamos ficando pobres em diversidade no campo das etnias, dos credos religiosos, nos pontos de vista políticos e ideológicos. Há muita impaciência com qualquer coisa e qualquer pessoa que sugira outra perspectiva, outro modo de olhar para a mesma questão, outra resposta que seja digna de investigação. Há uma nostalgia que clama pela segurança ventral de uma igualdade segura, de modo que deixamos de fora o que é estranho e diferente; procuramos essa segurança nas pessoas que tenham respostas que não possam ser atacadas, porque ninguém tem permissão de discordar, de questionar. Há um anseio pela homogeneidade e uma alergia ao outro, ao diferente.

Porém, Jesus parece dizer ao escriba: “Ei, a vida fica mais divertida quando você tenta trabalhar as implicações de sua fé em vez de viver na rotina, com respostas pré-fabricadas e gastas, quando se tenta encaixar um paradigma imutável  a um mundo em transformação, em ebulição e perplexidade e, mesmo assim, fascinante.” Nossa fé, a sabedoria que diz que Deus está no comando, deve nos preparar para assumir o risco, para sermos aventureiros e inovadores; sim, para ousarmos caminhar onde até mesmo os anjos temem caminhar.

Conta-se a história de um bêbado que atravessou a rua e interpelou um pedestre, perguntando: “Disse pra mim, onde é o outro lado da rua?” O pedestre, um pouco confuso, respondeu: “Aquele lado, é claro!” Então disse o bêbado. “Estranho. Quando eu estava do outro lado, me disseram que era bem aqui.” O outro lado da rua depende do lado em que nós estamos. A perspectiva depende do contexto, daquilo que contribui para a nossa formação; a religião é uma das mais potentes dessas influências formadoras e ajuda a determinar como e o que apreendemos da realidade e como operamos em um contexto específico.

Meu primeiro argumento parece deveras simples: os acidentes do nascimento e da geografia determinam, em grande medida, a que fé você pertence. São enormes as chances de você ser muçulmano se você nasceu no Paquistão; ou hindu, se por acaso nasceu na Índia; ou xintoísta, se você nasceu no Japão; e cristão, se você nasceu na Itália. Não sei que fato relevante pode ser concluído com isso – talvez o fato que não devamos sucumbir com tanta facilidade à tentação dos clamores exclusivistas e dogmáticos de um monopólio da verdade controlado pela fé que temos em particular. Seria perfeitamente razoável imaginar você como um seguidor da fé que agora denigre, caso tivesse nascido lá e não aqui.

Meu segundo argumento é este: não insultar os seguidores de outros credos ao sugerir, como já aconteceu, que, por exemplo, quando você é cristão, os seguidores de outros credos são cristãos também, ainda que não se dêem conta. [...] É preciso estar disposto a aprender um com o outro, sem afirmar que temos a verdade absoluta e que, de algum modo, temos uma visão privilegiada de Deus.

Precisamos reconhecer, com humildade e alegria, que a realidade sobrenatural e divina que todos amamos, de uma maneira ou de outra, transcende todas as nossas categorias particulares de pensamento e de imaginação e que, por causa do divino – seja lá o nome que ele recebe, seja lá o modo como é concebido ou compreendido – é infinito e nós somos eternamente finitos, de modo que jamais poderemos compreendê-lo por inteiro. [...]

Decerto é bom saber que Deus (na tradição cristã) criou a todos (não só os cristãos) à sua imagem, em nós investindo valor infinito, e que foi com toda a humanidade que Deus estabeleceu uma aliança, retratada pela aliança com Noé quando Deus prometeu que não tornaria a destruir sua criação com água. Decerto podemos celebrar qu a palavra eterna, o Logos de Deus, a todos ilumina – não só os cristãos, mas todos os que nascem neste mundo; que aquilo que chamamos Espírito de Deus não é um patrimônio cristão, pois o Espírito de Deus já existia muito antes de existiram cristãos, inspirando e alimentando homens e mulheres no caminho da santidade, levando a humanidade à fruição, trazendo à tona tudo o que de melhor há em todos nós. [...]

Deus não precisa da nossa proteção. Muitos precisam ter a noção de Deus aprofundada e expandida. [...]

Fomos feitos para proclamar o Deus do amor, mas, como cristãos, somos culpados de semear o ódio e a suspeição; glorificamos aquele a quem chamamos Príncipe da Paz, mas, como cristãos, travamos mais guerras do que nos importamos em recordar. Proclamamos ser uma irmandade de compaixão, de cuidado, de partilha, mas, como cristãos, muito santificamos sistemas sociopolíticos que desmentem esse credo, em que o rico fica cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre; em que aparentemente santificamos uma competitividade furiosa, tão implacável a ponto de ser adequadamente comparada a uma selva. [...]

A maioria dos cristãos acredita ter uma procuração para sustentar os gritos de exclusividade a partir da Bíblia. Jesus de fato diz que ninguém chega ao Pai a não ser por ele e nos Atos dos Apóstolos ouvimos ser proclamado que não há outro nome sob o céu que seja dado para a salvação (João 14:6; Atos 4:12). Tais passagens parecem categóricas o suficiente para tornar qualquer discussão supérflua. Mas será que isso é tudo que a Bíblia diz, sem que nada haja, por assim dizer, em favor da inclusão e da universalidade, e será que esse clamor por exclusividade parece razoável à luz da história e do desenvolvimento humano?

Felizmente para aqueles que declaram que o Cristianismo não detém direitos proprietários e exclusivos sobre deus, como se Deus fosse um cristão de verdade, há uma extensa coleção de evidências bíblicas que sustentam tal argumento. O Evangelho de João, em que Jesus clama ser o meio exclusivo de acesso ao Pai, bem em seu início traz uma declaração ainda mais cósmica e espantosa, dizendo que Jesus é a Luz que ilumina a todos, não só os cristãos (João 1:9). [...]

O que estou tentando dizer aqui é que a frase “ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” não precisa ser interpretada como se estivesse se referindo apenas ao Logos encarnado, pois também houve o Logos preexistente, como atesta o Evangelho de João (João 1:1). Isso implica dizer que o Logos anterior ao encarnado servia para conduzir as pessoas ao conhecimento de Deus, uma atividade reveladora que antecede o Cristianismo. Pois não afirma Hebreus que Deus, em diversas ocasiões e de diferentes maneiras, falou com os pais do passado por intermédio dos profetas (Hebreus 1:1)?

Pois se esse não é o caso, então precisamos fazer algumas perguntas mais embaraçosas. Qual seria o decreto divino em vigência em que não vigora o Deus cristão? Qual seria, então, o destino daqueles que viveram antes de Jesus ter nascido nesta terra? Será que aquelas pessoas estavam totalmente privadas do conhecimento de Deus? Como é que poderiam ser culpados por algo sobre o qual nada poderiam fazer? De que maneira tais pessoas poderiam tomar conhecimento de Deus por intermédio de Jesus Cristo muito antes de Jesus Cristo sequer existir? [...] De que modo aqueles que antecederam a Jesus Cristo poderiam tomar conhecimento de Deus da mesma maneira como agora o sabemos, pela familiaridade com o divino, se não pela aceitação de que o Logos preexistente já estava ativo no mundo de Deus muito antes de o Cristianismo conhecer a luz do dia? [...]

É claro que Deus não é cristão. Seus cuidados são para todos os seus filhos. Há uma história judaica que diz que logo após o episódio do afogamento dos egípcios no mar Vermelho, enquanto os israelitas celebravam, Deus os interpelou: “Como podeis celebrar quando meus filhos se afogaram?”

Que os cristãos não têm monopólio sobre Deus é uma observação quase banal. Seria preciso ignorar como se fossem delírios e vaidades das profundas verdades religiosas e éticas propostas dos grandes nomes como Ezequiel, Isaías e Jeremias; seria preciso dispensar voluntariamente, por exemplo, os cânticos do “servo sofredor”. E de que maneira Jesus poderia clamar ter vindo para cumprir, e não destruir, aquilo que fora proclamado e antevisto nas escrituras não cristãs e na vida de uma comunidade não cristã? [...]

Como pode haver validade na tipologia do Novo Testamento quando, por exemplo, Jesus é descrito como o segundo Adão, como a nossa Páscoa, como Filho de Davi, como o Messias, como a Rocha, a menos que admitamos que esses esboços, essas predições na antiga revelação se referiam a encontros autênticos com o divino? E como é possível para Deus ter criado todos os seres humanos, todos eles à sua imagem, sem ter capacitado a todos com algum senso, alguma consciência de sua verdade, beleza e bondade? [...]

Clamar que Deus é uma exclusividade dos cristãos é torná-lo muito pequeno e, em verdade, seria uma blasfêmia. Deus é maior que o Cristianismo e cuida de mais do que apenas dos cristãos. Essa é uma necessidade, ainda que pelo simples fato de que os cristãos entraram muito tardiamente no cenário mundial. Deus está aqui desde antes da criação, e isso é bastante tempo.

Se o amor de Deus se limita aos cristãos, então qual será o destino de todos aqueles que existiram antes de Cristo? Será que estarão condenados à perdição eterna por uma culpa que não lhes é própria, como deve acontecer se a posição do exclusivismo for levada ao cabo da sua conclusão lógica? Fosse esse o caso, acabaríamos em uma situação totalmente insustentável de um Deus que pode ser culpado de ter uma justiça bizarra. Decerto é mais aceitável e consistente com o que Deus revelou de sua natureza em Jesus Cristo, sem violar nossa sensatez moral, dizer que Deus aceita como algo que lhe agrada toda vida vivida à melhor luz disponível, guiada pelos ideais mais sublimes que se podem divisar. Não é desonra alguma para Deus dizer que toda verdade, todo senso de beleza, toda consciência e todo desejo de bondade tem apenas uma fonte, e que essa fonte é Deus, o qual, por sua vez, não pode ser confinado a um lugar, a um tempo e a um povo.

Meu Deus e, espero, o seu Deus não está apenas sentado, preocupado e pensando que uma profunda verdade religiosa ou que uma grande descoberta científica será feita por um não cristão. Deus se alegra por ver que suas criaturas humanas, independente de raça, cultura, gênero ou fé religiosa, estão fazendo grandes avanços na ciência, na arte, na música, na ética, na filosofia, na lei, apreendendo com habilidade cada vez maior a verdade, a beleza e a bondade que emanam de Deus. Nós também devemos partilhar a alegria divina, celebrando que tenham existido pessoas maravilhosas como Sócrates, Aristóteles, Heródoto, Hipócrates, Confúcio e outros. Não é óbvio que os cristãos não têm o monopólio da virtude, da capacidade intelectual e do senso estético? E, ainda bem, isso não acontece. Será que Deus sentiu desonra por Mahatma Gandhi ser hindu? Não deveríamos estar contentes por ter havido uma grande alma que inspirou o cristão Martin Luther King Jr. em sua campanha pelos direitos civis? Será que precisamos ser tão ridículos a ponto de afirmar que o que Mahatma Gandhi fez foi bom, mas que teria sido melhor se ele fosse cristão? Que provas nós temos que os cristãos são melhores? Não é verdade que as provas costumam apontar na direção contrária?

Também não devemos ser lembrados de que a fé à qual pertencemos é muito mais uma questão de um acidente histórico e geográfico do que de uma escolha pessoal? [...] É preocupante pensar que muita coisa depende dos caprichos do destino, a menos que isso sirva para nos fazer mais modestos e menos dogmáticos em nossas crenças. Deus não pode desejar que seu povo seja cristão e, ao mesmo tempo, colocar as probabilidades de modo tão desfavorável a ponto de puni-lo pelo fracasso. Esse Deus me parece perverso demais para fazer com que eu deseje adorá-lo. Alegra-me saber que o Deus que eu adoro é bastante diferente. [...]

Reconhecer que outros credos devem ser respeitados e que obviamente proclamam verdades religiosas profundas, entretanto, não equivale a dizer que todos os credos são iguais. Está claro que não são iguais. Nós, que somos cristãos, devemos proclamar as verdades da nossa fé com honestidade, verdade, sem algo que a comprometa, e devemos afirmar de modo cortês, porém inequívoco, que acreditamos que toda verdade religiosa e que toda aspiração religiosa encontra sua realização final em Jesus Cristo. Não obstante, devemos conceder ao próximo os mesmos direitos de exercer a fé, esperando que a atração intrínseca e que a verdade absoluta do Cristianismo sejam os fatores que o recomendariam aos outros. Oxalá vejam o impacto que o Cristianismo exerce sobre o caráter e sobre a vida de seus adeptos, de modo que os não cristãos queiram, por usa vez, se tornar cristãos, assim como os pagãos dos tempos primevos foram atraídos para a igreja não tanto pelas pregações quanto  pelo que enxergavam na vida dos cristãos, que os faziam exclamar espantados: “Como esses cristãos amam uns aos outros!”

Não tenho conhecimento de algum grande credo que afirme que os seres humanos foram feitos com um propósito diferente do destino maior de estar em comunhão ininterrupta com o divino, seja lá como possa ser definido esse divino, quer o summum bonum, o bem maior, ser absorvido pelo divino ou existir em separado por toda a eternidade em nirvana, ou paraíso, ou céu. Não tenho conhecimento de algum credo que declare que é aceitável para um ser humano ser vítima da injustiça e da opressão. Ao contrário, podemos andar de braços dados com os adeptos de outros credos pela causa da justiça e da liberdade, ainda que alguns companheiros cristãos tenham maculado e feito oposição a esse testemunho.

Espero ter feito o suficiente para convencer os exclusivistas inveterados de que a causa cristã fica mais bem servida pelo reconhecimento fortuito de que Deus não é uma prerrogativa especial dos cristãos, mas, sim, o Deus de todos os seres humanos, a quem ele permitiu a revelação de sua natureza e com quem é possível para todos ter um encontro e um relacionamento verdadeiros.


Desmond Tutu

Arcebispo da Igreja Anglicana na Cidade do Cabo (África do Sul)
Ganhador do prêmio Nobel da Paz, em 1984.
Presidente da organização The Elders, em nome da qual defende os direitos humanos e encabeça campanhas pelos oprimidos.
__________________


Fonte: Trechos do livro Deus não é Cristão (Desmod M. Tutu – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012) 




Para comentar, visite e prestigie as páginas de referência