A vovózinha e o lobo mau



“Há um mal que tenho visto debaixo do sol, e que mui freqüente é entre os homens:” Eclesiastes cap. 6 vs. 1


Visita na casa da Dona Idalina a matriarca da família Rosa de Oliveira com noventa e três janeiros de respiração e lucidez, é garantia certa de um rico acervo de experiências e objetos que remontam seu surgimento neste planeta começando pela saída de seus pais com mais uma porção de irmãos da cidade de Trento na Itália.

Numa destas, fitei o olhar num armário com um desenho oriental nas portas, que me fez viajar até o Bairro da Bela Vista na cidade de Osasco e trazer a memória lembranças no mínimo engraçadas, quando na minha infância juntamente com meu irmão Pitita e os meus primos Beto e Sandro, furtávamos na calada da noite ou às escondidas enquanto os bons velhinhos não estavam por perto, doces e guloseimas que meu avô Manoel estocava para vender no bar da Avenida Analice Sakatauskas.

Depois de um tempo de conversa e voltas ao passado, disse pra ela:

- Vó eu me lembro desse armário quando ainda era pequeno!

- Pois é menino, ele tem sua idade. Comprei ele junto com seu avô no ano de 1970. Já não fazem mais armários como antigamente!

Pensei então comigo mesmo: Já não se faz mais móveis, eletro-domésticos, automóveis, roupas, entre outras coisas, com a mesma mentalidade com que se fazia no passado pensando na durabilidade.

Estamos na era do descartável e do utilitário. A rotatividade com ganho projetado na quantidade dos produtos industrializados, é a mola que impulsiona a filosofia da descartabilidade e do utilitarismo.

O desconforto em constatar essa realidade, é que houve uma assimilação da mesma filosofia por parte de cada um de nós, que agora nos faz reger os movimentos na vida através do mesmo princípio: “usou jogou fora!”.

Na era do descartável e do utilitário, os relacionamentos são superficiais, a fila anda. Não existe paciência para tratar as questões que geram desentendimentos prezando pelos laços afetivos. O importante é satisfazer o meu ego ferido que tem pressa em se aventurar novamente.

Na era do descartável e do utilitário, a fé é artigo de conveniência, só se apela a ela na hora da dificuldade. A fé é o controle remoto que move o sobrenatural em nosso favor, em detrimento de um relacionamento de qualidade com o Criador. A inversão de valores se instalou: O Criador servindo a criaturinha desalmada!

Na era do descartável e do utilitário, o conhecimento é instrumento de competividade, e não um subsídio de crescimento pessoal. Decide-se estudar a faculdade que está na moda e que resulte em lucro futuro, enquanto que a vocação ou habilidade natural são deixadas para segundo plano. Conhecimento virou “arte predatória”.

Na era do descartável e do utilitário, ética, coerência, sensibilidade, compaixão entre outros valores e sentimentos nobres, marginalizaram-se para ceder espaço ao ego centrado na auto e imediata satisfação.

A sagacidade do lobo mau da descartabilidade e do utilitarismo, está engolindo a sabedoria da vovózinha!!!