O Deus Benéfico e o Deus Burocrata




Uma coisa é acreditar em um deus que lhe conforta nos piores momentos da vida. Outra coisa é acreditar em um deus que manda os homens a fabricar livros com regras de comportamento.

O primeiro é importante para a maioria das pessoas e não vejo que mal pode lhes trazer. O segundo é suspeito, é criação humana, de modo que retém qualidades e defeitos de quem lhe produziu.

O grande perigo de se acreditar que deus tenha orientado no passado alguns homens a escrever livros com suas leis, é que as pessoas perdem a noção de bom senso e da razão.

A Bíblia judaica, que corresponde ao Antigo Testamento da Bíblia cristã, influenciou o cristianismo e o islamismo, as duas religiões com maior número de adeptos do mundo.

E o que revela a Torá (livro da lei dos judeus)? Que seu deus, conhecido como Javé (Jeová) é um deus ciumento que escolheu um povo para ser exemplo para a humanidade. E esse deus saído da imaginação humana matará quem adorar outros deuses, isto é, quem segue outra religião.

Esse deus saído da imaginação humana diz que a noiva que não chega virgem ao dia do casamento deve ser morta pelo noivo, que o filho desobediente deve ser morto pelo pai, que adúlteros devem ser mortos. Esse deus ainda tem mais algumas dezenas de penas de morte para diversos casos.

Cristãos costumam dizer que naquele tempo deus precisou ser duro, pois o povo era muito mau. Esse argumento costuma convencer aquela parcela de pessoas com tendência a não questionar e a não pensar por si mesma. Cristãos dizem que o Novo Testamento mostra deus mais pacifico, que chega a enviar o filho único para nos salvar. Respeitando quem acredita que Jesus é o deus encarnado, e concordando que há ingrediente sábio em boa parte do discurso de Jesus, por outro lado, o Novo Testamento cria ainda mais problemas para o mundo, quando jorra em suas páginas a velha ameaça do castigo eterno. Se antes o deus Javé (invenção sacerdotal dos judeus) punia os infiéis com forca, empalação (estaca no ânus) e pedradas, o deus do Novo Testamento consegue ser ainda pior: atormenta psicologicamente os adeptos com uma possível punição no depois da morte. E, como a maioria acredita em inferno, fica fácil para a classe sacerdotal conduzir o rebanho dócil e sem reclamar das imposições. E são muitas.

O catolicismo é contra o divórcio, o uso de preservativos e de sexo antes do casamento. É contra uso de contraceptivos. É contra as pesquisas com células-tronco embrionárias, que podem salvar milhares de vidas e trazer a cura para muitos que hoje se encontram em cadeiras de roda. Outras religiões cristãs se metem até no cumprimento do cabelo e da saia da devota. Outras mais radicais, proíbem assistir à televisão. As religiões em geral, são contra o relacionamento homossexual, por que pensam que deus é homofóbico (horror à relações entre pessoas do mesmo sexo). Judeus normalmente não podem casar com de outra religião. Islâmicos também. É que na Bíblia o deus da imaginação humana, é contra casamento de hebreus (judeus atuais) com estrangeiros. Durante vários séculos, a Igreja católica matou milhares de hereges – os que não concordavam com os dogmas. Esse inferno só parou porque a Igreja foi separada do estado e seu poder teocrático foi reduzido. Como em países muçulmanos a voz dos filósofos iluministas (que pregavam a separação estado-igreja) não chegou, o que se observa por lá é o cumprimento de leis severas aos que não se submetem ao poder dos chefes religiosos. Leis essas que são inspiradas no Antigo Testamento de judeus e cristãos.

Apesar de tudo isso que já foi cometido por esse deus burocrático, inventado por alguns sacerdotes primitivos, o mundo atual ainda reverencia livros como se fossem autorizados por deus. Para o rebanho de ovelhas que não pensa, e só faz o que as autoridades pedem, fica impossível perceber o engano que insistem seguir. Para uma pequena parte, dotada de discernimento raro, deus é possível. Deus pode ser uma realidade. No entanto, nada tem a ver com livros repletos de chacinas, homofobia, xenofobia, misoginia e atentados aos direitos humanos.

A Bíblia e todos os outros livros “sagrados” deviam ser vistos como realmente são: coleções de mitos, folclore, e sabedoria (algumas vezes positiva) da época, mas não de um deus sábio e perfeito. Se o leitor não concorda, então certamente acreditará que deus afogou num dilúvio milhões de seres humanos, inclusive crianças inocentes. Afinal, uma ovelha não pensa por ela. Pensa pelos outros.




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