O pai oculto



Um jovem órfão um dia encontrou um homem que dizia ser seu irmão. Após longos e chorosos abraços, o jovem perguntou-lhe:

- Quero muito conhecer nosso pai. Podes me levar até ele?
- Nosso pai não pode nos receber. Pelo menos não por enquanto.
- Quando poderemos vê-lo?
- Só depois que morrermos.
- Então quero morrer logo. Estou louco para conhecer nosso pai.
- Espere, não é tão simples assim. Para merecer estar com ele, você precisa seguir algumas regras.
- E quais são?
- Deve acreditar nele e amá-lo mais do que tudo na vida.
- Como vou acreditar e amá-lo, se ele me jogou nesse mundo, sem que eu pedisse. E quando nasci, ele desapareceu, nunca me visitou, nunca me trouxe um presente, nunca me levantou do chão quando tropecei em uma pedra e ralei o joelho. Nunca me confortou quando chorei por tirar nota baixa na escola. Como vou acreditar em nosso pai se nunca vi seu rosto?
- Esse é o grande desafio e o grande mistério. Deve acreditar que ele o ama, mesmo que nós nunca o tenhamos visto.
- Irmão, você o ama?
- Sim, do fundo do meu coração.
- Por quê?
- Porque se não amá-lo, depois que morrer, irei para uma prisão de castigos horríveis.
- Que prisão é essa?
- É o lugar para onde vão os filhos dele que não o amaram e não creram nele.
- Então você o ama por obrigação, não por escolha pessoal. Você o ama por medo do castigo. Só você que não percebe isso.
- Irmão, não questione nosso pai, ele pode escutar e ficar zangado. Soube que ele já se vingou de muitos de seus filhos, tempos atrás. Muitos morreram na fogueira, outros foram enforcados. Por favor, creia nele, ame-o, mesmo que não entenda.
- Não o amarei até que ele mesmo, em pessoa, me diga que existe e que me ama. E me explicar por que nos abandonou quando nascemos.
- Irmão, ele nos deixou um presente como sinal de seu amor por nós.
- Uma caixa? O que tem dentro dela?
- Abra e verás.

O jovem abriu a caixa e retirou dela um livro. O livro continha ensinamentos do seu suposto pai.

- Essa é a letra de nosso pai?
- Não, de um homem que anotou tudo que nosso pai falava.
- E onde está esse homem? Quero conhecê-lo para que ele me fale mais de nosso pai. Quero saber se me pareço com ele. Ou se você é mais parecido com ele.
- Impossível, esse homem já morreu faz muito tempo. Mas não se entristeça. Temos o livro para saber o que nosso pai quer de nós.
- O livro foi escrito por um homem que disse ter conhecido nosso pai, mas que já morreu. Como vou acreditar nisso?
- Você tem que ter fé, meu irmão.
- Fé em alguém que não vi? E que diz que se eu não amá-lo, vai me trancar numa prisão de castigo eterno? Que tipo de pai é esse? Desculpe, meu irmão. Continue com sua crença. Se um homem assim é meu pai, desisto de conhecê-lo.




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