O Serial Killer de Deus



A decisão fora tomada. Ele seria um assassino de Deus.

- Ninguém poderá censurar-me, pois a ordem é exata e clara... Tem  a autoridade do meu Senhor, o Deus de Israel. Minha esposa me traiu, meus filhos insurgiram-se contra mim, não tenho mais amigos. Todos esses infiéis me chamam de fanático. Fanático? Eles vão sentir a ira divina descer sobre suas cabeças.
Isso não é apenas uma ameaça.

As quatro horas da manhã, Joel se levantou da cama, fez uma breve oração, foi ao banheiro urinar, lavou-se, tomou uma xícara de café preto sem açúcar. A cafeína rapidamente penetrou a corrente sanguínea, animando-o para as ações que planejava executar.
Encontrou o filho de dezessete anos no ponto de ônibus, sozinho. Na penumbra da aurora, o menino nem reconheceu o pai a se aproximar. Nem viu o vulto tirar a faca da cintura e cravar-lhe a lâmina no meio do peito. Como último suspiro, só conseguiu gemer três letras: “Pai?”

“Se um homem tiver um filho indócil... os homens da cidade o apedrejarão até que ele morra.”(Deuteronômio 21,18).

Em vinte minutos Joel já estava parado em frente a porta do apartamento onde a ex-esposa fora morar com os filhos e o novo marido. Introduziu a chave micha na fechadura, girou-a e entrou pisando leve como um felino. O casal ressonava, sob o lençol. Subitamente, a mulher ergueu a cabeça.
- Filho, é você? Perdeu o ônib...
O golpe veio rápido como um raio. O grito fora abafado com uma almofada fortemente pressionada sobre a boca. O companheiro tinha sono pesado. Deu menos trabalho.

“O homem e a mulher adúltera serão punidos de morte.”(Levítico 20,10).

Limpou a faca na camisola da mulher. Ouviu um barulho no banheiro; a filha acabara de entrar para banhar-se. A jovem de dezenove anos fechou os olhos e deixou-se envolver pelas carícias da água quente a escorrer pelo corpo. O barulho do chuveiro a impediu de ouvir a porta se abrindo lentamente. Nem virou-se para ver o pai pela última vez. Joel ainda fitou por uns dois segundos aquele corpo que embalara na infância, os cabelos longos, cheios de xampu deslizando com o jorro da água. Eis o crime da moça: não guardara a virgindade para o esposo. O casamento seria dentro de um mês, no entanto, já havia dormido com outro homem antes de conhecer o noivo.

“Se um homem, depois de ter desposado uma mulher... se puser a difamá-la, dizendo: desposei esta mulher e, ao aproximar-me dela, descobri que ela não era virgem... os habitantes de sua cidade a apedrejarão até que morra, porque cometeu uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai.” (Deuteronomio 22,13).

Sete da manhã.

O garoto de programa era pontual. Tinha no máximo vinte anos, corpo malhado, adornado por branca camiseta de algodão e calça jeans apertada. “Sim, sou passivo também”, respondeu ele. “Deite-se de bruços e empine esse negócio”, ordenou o homem. “Hm, sinto que está excitado”. “Você não sabe como!”. O rapaz apoiou-se nos cotovelos, levantou o quadril, e, numa fração de segundo, sentiu um ardor alastrar-se pelas costas. O ar lhe faltou, e entre espasmos, parou de respirar.

“Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher... Serão punidos de morte (Levítico 20,13).

10 e meia.

- Entra, muchacho, que quieres saber?
- Tudo...
- Ah, voy pôr las cartas; elas no mienten jamás, você sabe, no es mismo?
- Claro.
-  Acá diz que você ...Hm, estranho, você no vai vivir mucho tiempo...Você tene alguna doença?
- Quem é doente aqui é você, infiel. Além de tudo, quer me enrolar com esse falso espanhol. Como ousa predizer o futuro, isso somente os profetas podem fazê-lo.

A consulta à mulher que lia cartas foi breve. Quando ele saiu do consultório, ela ainda arfava, tentando estancar o sangue que espirrava da jugular.

“Qualquer homem ou mulher que evocar os espíritos ou fizer adivinhações, será morto (Levítico 20,27).

Na sequência daquele dia, o homem que agia seguindo as ordens bíblicas fez mais duas vítimas. Um seguidor da doutrina espírita e um homem que trabalhava no sábado.
No final da tarde, a polícia da cidade já estava mobilizada a procura do criminoso. Joel sabia que não teria muito tempo, sua prisão seria questão de horas, talvez minutos. Mas ele precisava cumprir a missão.

Yassef era muçulmano. Antes que Joel fosse levado àquela igreja, convertido pelas palavras seguras de um sacerdote, Yassef e ele eram amigos inseparáveis, e não se importavam com letras de livros sagrados;  antes, com festa, bebidas e mulheres. Mas ambos se distanciaram após cada um abraçar suas respectivas religiões.

O noticiário da TV dava total cobertura aos fatos daquele dia, que ganhavam repercussão nacional. Um cristão fanático, cuja foto era publicada à exaustão na tela dos telejornais era o principal suspeito por uma série de mortes que começaram na madrugada.
No outro lado da cidade, um homem já esperava pelo serial killer. Ouviu alguém bater à porta do pequeno apartamento. Era ele, claro. Yassef abriu a porta e saudou com reverência ao visitante. No mesmo tempo em que sentiu a faca destruindo suas entranhas, disparou o revólver calibre 38 no meio da testa de Joel.

Quando a polícia chegou, dois livros ensanguentados chamaram a atenção. Nas páginas abertas da Bíblia, um círculo a caneta destacava o capítulo 17,2 de Deuteronômio:

“Se se encontrar no meio de ti..., um homem ou uma mulher ... que faça o que é mau aos olhos do Senhor, teu Deus, violando sua aliança, indo servir outros deuses... os apedrejarás até que morram.”

O outro livro era o Corão. Os versos da sura 2,191 também estavam sublinhados:

“Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem...Matai-os onde quer os encontreis...”

Nota do autor:

Muitos apologistas bíblicos, tentando diminuir a ferocidade das leis do Antigo Testamento, alegam que Deus precisou ser duro e coibir com a pena de morte certos comportamentos não desejáveis (por exemplo, ajuntar lenha no sábado, e acender fogo para preparar uma refeição, mesmo que um filho clamasse por comida, poderia ofender gravemente o Senhor Javé, Deus de Israel. Do mesmo modo, seria agravo terrível a Deus, uma mulher não guardar-se virgem para o futuro marido), mas que o Novo Testamento, com a vinda de Jesus, a lei perdeu espaço para a fé, de modo que basta aceitar Cristo que a salvação está garantida.

Todavia, o próprio Jesus disse:

“Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. ...Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei.” (Mateus 5,17).

E em Isaías 40,8 lemos que “A lei é pra sempre”.

Portanto, se os cristãos fossem verdadeiros seguidores da palavra de Deus, ainda estariam observando aquelas leis e matando astrólogos, homossexuais, adeptos de Kardec, ateus, adúlteros, etc. Nem permitiriam que deficientes físicos entrassem numa Igreja (Levítico 21,16). Felizmente, com a Revolução Francesa (1789), entre outros fatores, o estado separou-se da Igreja, e, pelo menos no mundo ocidental, a Igreja já não pode usar a Lei de Moisés para matar ninguém, como acontecera durante a Santa Inquisição.

O problema é que a Bíblia é um livro contraditório. Ao mesmo tempo que o Messias assegura que não veio para invalidar a lei, ele, num ato de coragem e humanismo, impede o apedrejamento da mulher adúltera como previa a lei mosaica,  numa clara demonstração de que ele não considerava a lei perfeita.
Seria Jesus um Messias confuso, que ora dizia uma coisa ora outra, ou suas palavras foram retocadas e manipuladas mais tarde, assegurando interesses dos sacerdotes e papas?

Recordemos Jean-Jacques Rousseau, preocupado com a confusão causada pelos intérpretes das escrituras, disse: “Quantos homens entre mim e Deus!”
Para a maioria daqueles que fazem uma crítica textual das escrituras, não há dúvida. A Bíblia é um livro inteiramente humano, não inspirado por Deus, que foi escrito especialmente para promover a religião judaica (Antigo Testamento, e mais tarde, o cristianismo (Novo Testamento), com a adesão do Império Romano às causas cristãs. Tão simples, mas que encontra tanta resistência dos líderes religiosos em aceitar essa verdade.

Compreensível, a fé do povo dá lucro. As mais de duas mil contradições bíblicas são resultado de centenas de cópias, e de diversas mãos que escreveram esse livro que ainda desperta amor e ódio pelo mundo.




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